domingo, 27 de setembro de 2015

Uma percepção da Festa de Sukkot na Tradição bíblica-judaica e sua relação com a literatura Joanina Elio PASSETO, nds Saint-Pierre de Sion - Ratisbonne A reflexão sobre a festa de Sukkot, seu contexto e sua importância em relação aos escritos joaninos, supõe, evidentemente, uma apresentação de sua evolução na história e de sua praticidade. Este estudo propõe uma visão geral do tema, a partir Bíblia, da literatura interstamentaria, sua estrutura halakhica a partir da literatura rabínica. Veremos no final a comtemplação da teologia da festa de Sukkot nos relatos do Evangelho de João e do livro do Apocalipse. Primeiramente, a festa de Sukkot se funda nas Escrituras e ao longo da história, sua prática será portadora de uma evolução teológica que sustenta o povo judeu até nossos dias. Esta reflexão teologica, já conhecida no final do período do segundo Templo e após sua destruição (anos 70 d.C.), será melhor sistematizada nos ensinamentos e escritos dos Sábios de Israel. Por sua vez a literatura do Novo Testamento dá testemunho da importância da celebração da festa de Sukkot e de sua espiritualidade na vida do povo judeu; deste fato aprendemos que enquanto o Templo existia, Jesus, seus discípulos e todos os seus seguidores, conviveram ativamente com a liturgia exitente da festa de Sukkot e participaram de sua riqueza espiritual. Antes de tudo é preciso assumir o fato de que os escritos do Novo Testamento, a literatura interstamentaria e a literatura rabínica não são produtos de ambientes diferentes e distantes um do outro. Se cada um possui sua propria particularidade, os elementos constituintes fundamentais não são diversos, ao contrario, quando eles não possuem a mesma base entre si, eles se convergem. Apresentamos inicialmente os principais textos bíblicos que fixam o quadro da festa de Sukkot e que nos informam de sua prática na história do povo de Israel durante o período do Segundo Templo . Os textos das Escrituras enfatizam a centralidade da festa de Sukkot e sublinham sua importância para a comunidade de Israel. Ex 23,16: “Observarás a festa da Ceifa, dos primeiros frutos do teu trabalho e daquilo que tiveres semeado nos campos, como também a festa da colheita, saindo o ano, quando recolherás os frutos do teu trabalho.” Lv. 23,34-37: “Fala aos filhos de Israel: O dia quinze desse sétimo mês é a Festa das Tendas, que dura sete dias, em honra do Senhor; no primeiro dia se fará uma reunião sagrada; não executareis nenhum trabalho servil. Cada um dos sete dias, apresentareis uma oferenda consumida ao Senhor. No oitavo dia, fareis uma reunião sagrada e apresentareis uma oferenda consumida ao Senhor: é o encerramento da festa; não executareis nenhum trabalho servil... .” Nm. 29,12: “No décimo quinto dia do sétimo mês, fareis uma reunião sagrada. Não fareis nenhum trabalho servil. Celebrareis o Senhor numa peregrinação de sete dias.” Dt. 16,13-15: “Quanto à festa das Tendas, tu a celebrarás durante sete dias, quando houveres recolhido tudo o que vem de tua eira e do teu lugar. Estarás na alegria de tua festa, com teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, o levita, o migrante, o órfão e a viúva, que residem em tuas cidades. Durante sete dias, celebrarás peregrinação em honra do Senhor, teu Deus, ao lugar em que o Senhor, teu Deus, houver escolhido, pois o Senhor, teu Deus, te terá abençoado em todos os produtos de teu solo e em todas as tuas ações; e serás todo alegria.” Neh. 8 : Todo o povo, como se fora um homem só, reuniu-se na praça localizada diante da porta das Águas, e pediram a Esdras o escriba, que trouxesse o livro da Lei de Moisés que o Senhor havia prescrito a Israel ... Era o primeiro dia do sétimo mês. Ele leu no livro, na praça que está diante da porta da Águas, desde a aurora até o meio-dia, diante dos homens e mulheres e dos que tinham capacidade de entender ... E Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e o povo inteiro, erguerdo as mãos, respondeu: ‘Amén! Amén! Depois inclinaram-se e prosternaram-se diante do Senhor, com o rosto em terra... os levitas - explicavam a Lei ao povo, e o povo permanecia em pé no local. Liam no Livro da Lei de Deus, de maneira distinta, explicando o sentido dela, e faziam compreender o que era lido. Então Neemias, o governador, Esdras, o sacerdote-escriba, e os levitas que davam as explicações ao povo, disseram a todo o povo: ‘Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus... Encontraram escrito na Lei que o Senhor havia prescrito por intermédio de Moisés, que os filhos de Israel deviam habitar em tendas durante a festa do sétimo mês e que eles deviam comunicar isto e publicar este anúncio em todos as suas cidades e em Jerusalém, nestes termos: ‘Saí para a montanha e levai ramos de oliveira, ramos de oliveira selvagem, ramos de murta, ramos de palmeiras e ramos de árvores frondosas, para fazer tendas,conforme está escrito.’ Então o povo saiu e levou o material para fazer tendas, cada um sobre o seu teto, nos seus próprios pátios e nos átrios da Casa de Deus, assim como na praça da porta das Águas e na praça da porta de Efráim. Toda a assembléia - os que haviam voltado do cativeiro - fez tendas e habitaram nessas tendas, Desde o tempo de Josué, filho de Num, até este dia os filhos de Israel não fizeram isso. Foi uma alegria muito grande. Fez-se leitura diária do livro da Lei de Deus, desde o primeiro dia até ao último. A festa durou sete dias, e no oitavo dia, segundo o costume, houve uma assembléia de encerramento. Zac. 14, 6-10: Naquele dia não mais haverá luminar, nem friagem, nem geada. Será um único dia - o sonhor o conece. Não mais haverá dia nem noite; ao anoitecer brilhará a luz. Naquele dia, águas vivas sairão de Jerusalém, metade para o mar oriental, metade para o mar ocidental. Será assim no verão e no inverno. O Senhor mostrar-se-á então rei de toda a terra. Naquele dia o Senhor será (UM) único e (UM) único , o seu nome... Zac. 14,16-19: Acontecerá então que todos os sobreviventes das nações que tiveram marchado contra Jerusalém subirão, ano após ano, à cidade para se prosternarem diante do rei, o Senhor de todo poder, e para celebrar a festa das Tendas. Mas para os clãs da terra que não subirem a Jerusalém para se prosternarem diante do rei, o Senhor de todo poder, não cairá chuva. E se o clã do Egito não se puser a subir, acaso o flagelo de que o Senhor ferirá as nações que não sobem a celebrar a festa das Tendas não se abaterá sobre ele? Tal será o castigo do Egito e tal será o castigo de todas as nações que não subirem a celebrar a festa das Tendas. Como demonstram os primeiros textos, a tradição bíblica situa as festas de perigrinação no contexto das atividades agricolas e na verdade, da mesma forma que o ciclo de produção da terra evidencia a base da existência, assim as festas de peregrinação assumem estas manifestações e estabelecem a relação direta da intervenção de Deus . Ademais, estes costumes não são invenções da Bíblia e nem tampouco do povo de Israel. Eles são práticas vividas naturalmente pelos povos comtemporâneos ao povo judeu ou, mesmo, povos que o prescederam; de fato a Bíblia vai teologizar estas práticas e proclamar Deus como o único criador de tudo o que a terra produz. A festa dos ázimos ou da primavera (Páscoa), que marca a primeira festividade entre as festas de perigrinação, celebra o início da colheita da terra, através da oferenda do produto do sorgo; é a primeira vez do ano agrícola que a comunidade de Israel se apresenta diante de Deus para Lhe agradecer e reconhecendo-O como o único Criador, o Senhor de tudo. A segunda, a festa da ceifa, das Semanas ou Pentencostes, acontece 50 dias depois da Páscoa; celebra-se a segunda colheita, a do trigo e por final, termina-se o ano com a festa de Sukkot, (das Cabanas, Tendas), é terceira e última festa da colheita. Todos estes três momentos são distribuidos em períodos diversos durante o ano. A primeira (Páscoa) inicia com a primavera e a última (Sukkot) marca o início do inverno. Do ponto de vista da natureza, a festa de Sukkot marca o final do período do sol, do brilho da luz e o inicio do período dos dias mais curtos em que a noite assume o domínio sobre o dia, isto é, as trevas sobrepõem à luz. É tempo de se recolher, de plantar, é tempo de germinar, de espera, nada é assegurado, tudo depende, é tempo de expectativa: como será a germinação, as condições de crescimento, como será o tempo...? são perguntas que permanecem abertas neste espaço de tempo . Uma vez terminado este tempo de incerteza em que os dias começam a se prolongar, a luz vencendo as trevas, tendo recebido a intervenção de Deus, a terra dá seu fruto. É a partir desta realidade, completamente real e palpável que se celebra o ciclo das festas. Este ciclo intruduz, desta forma, o sentido divino nos acontecimentos aparentemente naturais da vida. Na verdade, a Escritura não cria outra realidade para proclamar a presença e a ação de Deus na história, ela assume costumes culturais vigentes do meio onde é formada. A Palavra de Deus não inventa tampouco outra linguagem, mas segue a realidade concreta, descrevendo os acontecimentos correntes. A partir do existente, tal qual ele se apresenta e é vivido; a Bíblia afirma a relação profunda da presença de Deus e proclama, por conseguinte, a soberania absoluta de Deus sobre todo o criado. Se por um lado o ciclo litúrgico das festas ocupa um espaço no tempo, por outro lado, ele traz em si o domínio do tempo: é um período que está além do cronológico, é um tempo para Deus, no lugar escolhido por Ele: “Observarás a festa da Ceifa, dos primeiros frutos de teu trabalho e daquilo que tiveres semeado os campos, como também a festa da colheita, saindo o ano, quando recolherás dos campos os frutos do teu trabalho. Três vezes ao ano, todos os teus homens virão ver a face de quem é o dono. o Senhor” (Ex 16,16). Há um encontro marcado e será uma Santa Assembléia. Santo porque ao contrario não seria um encontro com Deus. É um momento de ver Deus e ao mesmo tempo ser visto por Ele. E neste momento, no lugar fixado por Deus, os três elementos principais se encontram: Deus, a comunidade e o produto da terra. Criador e criatura se encontram. A criatura não se diviniza, mas o Divino a invade. Deus aponta o lugar do encontro: Jerusalem, o Templo, mas é a comunidade que faz a caminhada e oferece. As duas partes são ativas e se põem em movimento para o encontro. É preciso ter presente que o ponto básico de todo encontro com Deus se fundamenta na teologia do Sábado que é a festa por excelência. As festas partem do principio fundamental do Sábado. Dia consagrado por excelência a Deus. A criação se encontra com o Criador. O Sagrado invade o profano: “Que se faça do dia de sábado um memorial, considerando-o sagrado. Trabalharás durante seis dias, fazendo todo o teu trabalho, mas o sétimo dia, é o sábado do Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teus animais, nem o migrante que está em tuas cidades. Pois em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm, mas no sétimo dia repousou. Eis que o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.” (Ex 20, 8-11). Todos e tudo está incluido, é o dia Sagrado ao Senhor. É o dia da criação. O Criador nele reina e a criatura recebe sua porção, sua graça. Seis dias a humanidade participa com Deus em sua obra de criação e no Sábado descansa, participa do Sagrado que está disposto por Deus neste dia. De fato, o sábado revela a perfeição de Deus estendida à humanidade. Pela sua observância, se colocando inteiramente diante so Senhor, a criatura pode fazer a experiência de Deus que se dá de maneira particular, semanalmente, neste dia. Porisso, esta realidade comtemplada pelo dia do Sábado, é a base para a teologia das festas. Mantendo seu aspecto concreto, agrícola, fazendo a memória de acontecimentos passados onde Deus agiu em função do povo, a festa evidencia o encontro com o sagrado e afirma a soberania de Deus em tudo o que existe; nas festas, através da produção, da vida terrestre, se proclama, o Senhor da vida - é Ele que possui a vida eterna. Concretamente, a partir da compreensão do Sábado como um espaço sagrado dentro do espaço profano, como o tempo que o Criador estebelece sua morada com a criatura, faz-se a experiência de um tempo fora do tempo, de um espaço da eternidade acontecendo no mundo, como uma experiência do eterno na terra. Em relação e a partir da natureza do Sábado as festas proclamam e vivenciam esta realidade de eternidade. É portanto por ocasião das festas de perigrinação, no lugar escolhido por Deus, que a terra (com seus produtos), o povo e Deus se encontram, criando assim uma harmonia de eternidade. A festa de Sukkot na literatura rabínica Veremos mais adiante que estes elementos são constituintes nos relatos Evangélicos. Neles, os momentos de festas confirmam dados históricos na celebração da memória da fé vivida, da transcendência de Deus e da realização da Palavra de Deus. Apresento na sequência alguns textos rabínicos que fixam as bases da festa e da liturgia de Sukkot. Estes textos evidenciam uma prática correspondente ao final do período do Segundo Templo e vários aspectos teológicos, inerentes aos textos, se encontram no Evangelho de João e no livro do Apocalipse, sobretudo no relato da festa de Sukkot. Jesus celebra à festa de Sukkot ou se relaciona com seu significado a partir da visão de cumprimento. Jesus cumpre à espera messianica anunciada pelos profetas que se articula dentro da teologia da festa de Sukkot. - “Durante sete dias se faz da Cabana o lugar estável (comer, dormir e estudar), enquanto que a casa se converte em lugar da residencia provisoria. Em caso de chuva, quando se é permitido abandonar a Suká? Quando se altera a sopa (pelo excesso de água que cai dentro dela). Faz-se uma comparação. Ao que se parece este fato? Se assemelha a um servo que vai servir um prato ao seu Amo e este lho joga em seu rosto.” (m Sukka II, 9). Neste texto a Mishná fixa alguns elementos práticos da festa e busca motivar as exigências bíblicas. A festa de Sukkot enfatiza a realidade de dependência da vida, ensinando a provisioriedade da existência humana. O estabelecimento em uma morada (Sukka), como lugar precario e provisório, cria na comunidade de Israel a certeza de que somente em Deus se há segurança e tudo é provisorio na existência. Assim a Sukká construida para recordar o experiência do deserto onde se está exposto à todas as intempérias do mundo, indica que somente os Céus são a proteção segura e definitiva. A experiência feita de viver dentro da Suká antecipa a habitação definitiva com Deus. Na situação passageira e precaria que se vive na Suká, sob a proteção exclusiva de Deus, representando toda a vida, o povo faz a experiência de habitar com a Shekhiná - na verdade a Suká materializa a morada de Deus no meio da comunidade. - R. Ismael dice: três ramos de mirto (Hadas) e dois ramos de salgueiro (Aravá), uma palma (Lulav) e uma cidra (Etrog) (m Sukka III, 4). A tradição judaica explica estes quatro elementos básicos que compõem a festa de Sukkot (Etrog, Lulav, Hadas, Aravá), como simbolizando o conjunto da comunidade judaica. A prática deste mandamento pedagogicamente insentiva a cada individuo da comunidade e a todo o povo a fazer uma auto-crítica: pede que se junte todos estes quatro elementos em um único maço e que se o porte todos os dias da festa. Vejamos sua significação: - O Etrog representa a comunidade de Israel. Assim como o Etrog possue sabor e perfume, a comunidade de Israel é composta por aqueles que conhecem (estudam) a Palavra de Deus e que possuem também boas ações; - O ramo de Lulav significa Israel. Da mesma maneira que a folha de palmeira possui sabor e não possui perfume, assim em Israel há pessoas que conhecem a Palavra de Deus, mas não têm boas obras. - O ramo de Hadas representa Israel. Assim como o mirto possui perfume e não tem sabor, da mesma forma na comunidade de Israel há os que possuem boas obras e não conhecem a Palavra de Deus. - O ramo da Aravá significa Israel. Como o salgueiro não possui nem sabor e nem perfume, existe na comunidade de Israel os que não possuem nem boas obras e nem conhecem a Palavra de Deus. Os textos que seguem se relacionam praticamente com a aplicação litúrgica da festa: como fazer, o que fazer, onde fazer e seu significado. - Quando se agitavam o Lulav? Deve agitá-lo no início do Salmo 118: ‘Rendei graças ao Senhor...’ (v1) e no vs 25: ‘Salva-nos Senhor’. Esta é a opinião da escola de Hillel. A escola de Shamai disse: também deve-se agitar o Lulav no final do versículo 25: ‘Faz-nos Senhor prosperar’. R. Akiba disse: estive observando R. Gamaliel e R. Yehoshua que enquanto todo o povo agitava suas palmas, eles somente agitavam no vs 25: ‘Salva-nos Senhor’ (m Sukka III, 9). - No lugar onde se há o costume de repetir (os nove versículos finais do Halel), se repete; onde se há o costume de dizer a continuação da benção, se diz (somente uma benção antes do Halel). Tudo deve ser feito segundo as práticas de cada região. (m Sukka III, 11). - A libação da água, como era feita? Um frasco de ouro, de 3 log de conteudo, era enchido nas águas de Siloé. Quando chegavam à porta das águas, tocavam o shofar com um som sustenido e em seguida calorosamente e na continuação novamente sustenido. Subia (o sacerdote) a rampa do altar e se dirigia à sua esquerda onde estavam disposto dois jarros de prata. R. Yehudá disse: os vasos eram de argila e se escureceram por causa do vinho. Cada jarro tinha um tipo de pequeno bico. Um jarro tinha um bico largo e o outro um bico estreito para que os dois pudessem ser esvaziados ao mesmo tempo. O jarro do oueste era de água e o do leste era de vinho. Se por erro se pusesse água no jarro de vinho ou vice-versa, se cumpria a obrigação. R Yehuda disse: se fazia a libação com um log durante os oito dias. Para aquele que fazia a libação, o povo dizia: levanta a mão, porque certa vez (um sacerdote) derramou a libação sobre os pés e todo o povo lançou limões contra ele (m Suka IV, 9). - Toca-se a flauta cinco ou seis dias. Trata-se do tocar de flauta na fonte da tiragem da água, ato que não revoga o sábado nem o dia de festa (Yom Tov). Diz-se que quem não viu a alegria da festa da tiragem da água não viu alegria na vida (m Sukka V, 1). - … Não havia nenhum pátio em Jerusalém que não fosse iluminado com o fogo (luz) que emanava da tiragem da água. (m Sukka V, 3). - Os piedosos e os homens de boas ações dançavam diante do povo com tochas acesas nas mãos. Eles recitavam cantos e louvores. Os levitas com harpas, liras, címbalos, trombetas e inúmeros instrumentos de música, tocavam sobre os quinze degraus descendentes do átrio dos homens para o átrio das mulheres. Estes quinze degraus correspondem aos quinze “Cantos da subida” do livro dos Salmos (120-134). Sobre estes degraus se posicionavam os Levitas com seus instrumentos e entoavam cantos. Dois sacerdotes, com as trombetas nas mãos, se posicionavam diante da porta superior, a que conduz do átrio dos homens ao átrio das mulheres. Ao cantar do galo, eles tocavam as trombetas com sons sustenidos, em seguida clamorosamente e na continuação, novamente, com son sustenido. Quando chegavam ao átrio tocavam a trobeta com som sustenido em seguida clamorosamente e na continuação, novamente, com son sustenido (Tekia, Teruá, Tekiá). Tocam a trombeta e caminhavam até chegar à porta de saida na parte oriental. Quando chegavam à porta que estava na saida da parte oriental voltavam as faces para o ocidente e diziam: ‘nossos pais, que estiveram neste lugar com sua costas voltadas para o Templo e com suas faces orientadas para o oriente, se prostraram voltados para o sol (ver Ez 8,16); nós, ao contrario, temos nossos olhos dirigidos para o Senhor’. R. Yehudá disse: acostumavam repetir: ‘somos do Senhor a para o Senhor estão voltados nossos olhos’(m Sukka V, 4). - Rabí Yeshua ben Levi disse: Por que se chama Beit ha Sho’eva (casa onde se tira (busca) água)? Porque é dela que se faz sai (recebe) o Espírito Santo, segundo o que está escrito (Is12,3): ‘Na alegria fareis sair água dos mananciais da Salvação’. Rabí Yoná diz: Yoná ben Amitai era um dos que subiam em peregrinação. Ele entrou com alegria na Beit ha Sho’eba (casa onde se tira água na noite do II dia da festa de Sukkot) e o Espírito Santo desceu sobre ele. Isto nos ensina que o Espírito Santo não desce senão sobre um coração alegre. Qual é a base nas Escrituras desta afirmação? ‘Enquanto Eliseu tocava o instrumento a mão do Senhor veio sobre ele (II Rs 3,15). Não está escrito ‘enquanto se tocava o instrumento’, mas ‘enquanto o músico tocava o Espírito do Senhor desceu sobre ele’ (TJ Sukka 5, 1, 51a). Temos, portanto, como componentes básicos da festa de Sukkot a água que é fonte de vida, o fogo ou a luz e a manifestação da alegria expressa pelas danças, pelos instrumentos musicais, pelas procissões e pelos textos litúrgicos (Salmos) que acompanham toda a celebração. Estes elementos: água, luz e alegria, são elementos que não temos dominio sobre eles e que sendo vitais para a existência não podemos criá-los ou sustentá-los por nossa própria força. Segundo a dimensão bíblica eles possuem vida própria somente em Deus. Como já dito antes, o quadro litúrgico da festa de Sukkot situa a comunidade dentro da experiência do divino. O cenario desta experiência escatológica é representado através da alegria intensa celebrada e expressada, dos louvores cantados e proclamados em torno da água e da luz como manisfestações visíveis da presença de Deus. Outra afirmação importante e que conclui a manifestação do especto divino da festa é a descida do Espírito Santo em meio a celebração, sinal concreto e manifesto da presença de Deus. O livro de Jubileu comtempla a festa de Sukkot Vimos até aqui como base alguns textos bíblicos e da literatura rabínica que descrevem o universo da festa de Sukkot: seu motivo, sua estrutura disciplinar e sua teologia. Da mesma forma encontramos comentarios em Filon de Alexandria, Flavio José e muito frequente na literatura de Qumrãn. Como o objetivo não é esgotar todas as fontes sobre o tema, mas ter uma visão geral, me permito saltar estas fontes citadas acima e apresentarei alguns textos do livro de jubileu. Primeiramente o livro guarda uma importância capital pois foi escrito em hebraico entre o final do II século e inicio do I a.C. e traduzido para o grego, latin, etíope e presente nas descobertas de Qumrãn. Parece que este livro teve muito proximidade com comunidade de Qumrãn. Somente a Igreja Etiópia reconhece sua canonicidade. Mas é bom lembrar também que este livro foi conhecido e lido pelas comunidades judaicas e cristãs depois da destruição do segundo Templo. O que descatamos aquí no livro de Jubileu é o aspecto de anuncio que ele é portador, assim como a apresentação de Abraão como o primeiro a celebrar a festa de Sukkot, com grande alegria e louvando a Deus por ter visto o dia que virá. -Abraão construiu alí um altar para o Senhor que o havia libertado e que lhe havia dado esta alegria no país onde morava. Este mês, durante sete dias, ao lado do altar que construiu próximo ao poço do Juramente, fez uma festa alegre. Construiu também umas Tendas para si mesmo e para seus servidores por ocasião da festa e foi ele o primeiro, na terra, a celebrar a festa dos Tebernáculos... Celebrou a festa durante sete dias, alegrando-se de todo o seu coração e com toda a sua alma, ele e todos os de sua casa... Rendeu graças ao seu Criador por tê-lo criado em sua geração e pela graça de tê-lo criado. Abraão sabia justamente que dele surgiria uma planta de justiça para as gerações eternas e desta planta surgiria uma semente santa destinada a ser conforme a Aquele que teria feito tudo por ele. Abraão rendeu graças a Deus e se alegrou. Deu nome a esta festa “a festa do Senhor” , dia de regozijo agradável a Deus... Porisso, segundo o que está escrito na tábuas celestes, em relação a Israel, no mês sétimo, deve-se celebrar a festa dos Tabernáculos com regozijo durante sete dias, o que é agradável aos olhos do Senhor... Abraão recolheu folhas de palmeiras, frutos bons das árvores e cada dia pela manhã, dando sete voltas em torno do altar com os ramos nas mãos, glorificava e adorava seu Deus por todas as alegrias (Jubileu 16, 20-31). - E disse: Te celebro Deus, por haver me deixado ver este dia. Levo já comigo cento setante e cinco anos, ancião e no final dos meus dias, e todos meus dias foram tranquilos (Jubileu, 22, 7). Entre as festas, Sukkot ocupa um lugar central na Bíblia, como também ela é de grande relevância em toda a literatura judaica do período do final do segundo Templo e posterior. Vimos também, através de algumas citações, sua importância no livro de Jubileu; como dito antes, esta presença se repete também na literatura de Qumrãn, Filon de Alexandria, Flavio José. Toda esta vasta literatura interpreta e explica pontos de vistas diferentes sobre a compreensão da festa de Sukkot. A Festa de Sukkot na teologia joanina Como é notorio, entre os quatro Evangelhos o de João se distingue particularmente . Esta singularidade do texto, seu estilo e sua teologia, deixam aberta muitas perguntas sem respostas à pesquisa, até nossos dias. Nos últimos anos se iniciou uma releitura do Evangelho de João, buscando compreendê-lo a partir de sua relação com a tradição judaica. O estudo sobre o Evangelho de João mostra que objetivamente o texto oferece um debate aberto com o judaismo de seu tempo, de forma que a crítica que se encontra em relação ao judaismo ou sua oposição manifestada, são feitas a partir de dentro do universo judaico e não de fora. Ele não se posiciona fora de uma realidade que ele está em discussão, mas o debate do texto é sustentado pela diversidade de interpreação presente no judaismo do final do período do segundo Templo e pós sua destruição. A originalidade proclamada pelos seguidores de Jesus, confessando-O como o Filho de Deus, Deus feito homem, se enraiza nas Escrituras. A base da fé se fundamenta na Palavra de Deus, na sua interpretação e na justa correspondência entre o conteudo anunciado e o que está escrito nas Escrituras e não fora do meio que a porta. Portanto a comunidade de João, seguindo sua própria escola, vai elaborar sua teologia articulando sua experiência de fé em Jesus ressucitado conforme as Escrituras. Este debate se faz em confrontação com aqueles que não estavam de acordo com esta interpretação. É de se supor que com o passar dos anos a comunidade Joanina será composta sobretudo de cristãos vidos da gentilidade , no entanto, sendo as Escrituras a fonte principal da vida para os que seguiam Jesus (judeus e não judeus) de igual maneira que era central para os judeus que não seguiam Jesus , o ambiente da interpretação da Palavra de Deus e da elaboração teológica é o contexto do judaismo. É portanto a partir desta perspectiva que se situa a compreensão da festa de Sukkot no Evangelho de João, bem como em toda a literatura joanina. É bom remarcar que João situa a ação de Jesus sempre dentro do contexto das festas judaicas . No capítulo 7 João menciona explicitamente a festa de Sukkot: “Porém se aproximava a festa judaica das Tendas” (v. 2). O texto relata que Jesus é convidado a associar-se aos seus discipulos para subir em perigrinação à Jerusalem. Inicialmente Jesus afirma que não irá. Cria-se um suspense, os discipulos entram em cena, eles se põem em marcha. Depois de a festa ter iniciada, já no meio do ato (v.14), Jesus, de improviso, aparece ensinando no Templo. No primeiro momento Jesus ensina a partir da Tora e sua fidelidade . Ela não é uma invenção humana, ela vem de Deus, é sua Palavra e Jesus se identifica com ela. Por outro lado Jesus confirma que ela foi dada por intermedio de Moisés para ser observada, porisso está ao alcanse de todos (vs. 16-19). Na continuação Jesus ensina sobre sua origem divina e que é o Messias o enviado do Pai (vs. 28-30). João termina esta parte de seu relato (vs. 37-39) de maneira muito precisa e em perfeita harmonia com a teologia da festa de Sukkot, respeitando perfeitamente seu ciclo litúrgico e ao mesmo tempo anunciando sua plenitude. No último dia da festa Jesus se apresenta como “fonte de água viva” e que é o portador do “Espírito Santo” . O capítulo 8 se situa no mesmo ambiente: na madrugada do outro dia Jesus volta ao Templo para continuar seu ensinamento; no v. 12 Jesus se define como “Luz do mundo” . Para terminar o capítulo 8 João enfoca sobre a figura de Abraham que representa o inicio do plano de Deus para a Redenção da humanidade e que a tradição de Israel lhe atribui a certeza de ver a promessa de Deus realizada por seu intermedio. Esta idéia está perfeiramente formulada no v. 56: “Vosso pai Abraão se alegrou pensando em ver meu Dia; viu-o e se regozijou”. Uma vez terminando a cena, Jesus que era visível aos olhos de todos e que mesmo buscavam lhe matar se torna outra vez invisível: “Então pegaram pedras para atirar-Lhe, mas Jesus se ocultou e saiu do Templo” (8, 59). O texto refaz o inicio do relato da festa: inicialmente Jesus não viria para a festa e se apresentou depois, entrando despercebido. No final Ele se afasta do público sem ser visto pelos que estavam presentes. Na verdade temos uma representação completa. A festa de Sukkot é o cenário em que o Evangelho de João desenvolve a peça que se chama Jesus . No último dia da festa em que se celebra o dia da Libação, Jesus proclama sua própria identidade citando as Escrituras. O texto sugere primeiramente água e normalmente abundante. Possivelmente podemos ver uma referência a Ex 17,6: “Ficarei diante de ti , lá sobre o rochedo, em Horeb, Golpearás o rochedo, brotará água e o povo beberá”, pois João fala de fonte e de beber. Pode-se ver também a relação com Ez 47, 1-12. Este texto fala também da água abundante que sai do Templo e que é fonte de vida por onde ela passa. Outro texto muito importante que serve de base para a afirmação de Jesus como água viva é Zc 13, 1: “Brotará naquele dia uma fonte para a casa de David e os habitantes de Jerusalém, como remédio do pecado e da mancha”. E no mesmo espírito Zc 14, 8: “Naquele dia, águas vivas sairão de Jerusalém, metade para o mar ocidental e metade para o mar oriental. Será assim no verão e no inverno”. São todos textos proféticos que anunciam a transformação e a perfeição da realidade. Como visto antes os textos litúrgicos proclamam esta vivacidade da festa onde a água é um dos elementos centrais da celebração. É o sinal concreto da presença de Deus vivido na festa. A correspondência de seguir uma doutrina e vir beber água, se relaciona também com Is 55, 1-3: “Ó todos que estais com sede, vinde para as águas, mesmo aquele que não tem dinheiro, venha!...” João extrai sua teologia cristológica nas Escrituras e na Tradição judaica que a interpretou, da mesma forma ele situa a apresentação de Jesus dentro da celebração litúrgica da festa de Sukkot como a realização da própria liturgia. Na verdade, como vimos acima, Sukkot é a experiência do novo tempo que se abre para o universal e para a eternidade, é também a experiência da plenitude do tempo. É, pois, justamente neste contexto que João apresenta Jesus. É de se supor que Jesus tenha participado, não somente da Festa de Sukkot, como faziam os demais judeus observantes, mas Ele debe ter ensinado os valor profundo da Festa aos seus discípulos. João, à luz da resurreição introduz Jeus na festa e a interpreta realizando.se n’Ele. Seu significado se cumpre em Jesus. Para João a compreensão da Festa de Sukkot explica o acontecimento de Jesus. No livro do Apocalipsis vamos perceber a continuidade da escola joanina, onde os mesmos elementos fundamentais da festa de Sukkot são afirmados. Porém, evidentemente, dentro de uma visão de realização apocaliptica: “Por isso encontram-se diante do trono de Deus, rendendo-lhe culto dia e noite em seu templo. E o que está sentado no trono os abrigará sob sua tenda. Nunca mais terão sede, e não pesará sobre eles o sol nem seu fogo, pois o Cordeiro que está no meio do trono será seu pastor e os conduzirá para as fontes das águas da vida. E Deus enxugará toda a lágrima de seus olhos” (Ap 7, 15-17). Este texto nos apresenta todos os principais elementos da festa da Suká: a reunião da comunidade diante de Deus, a tenda, o culto permanente no Santuario. A fome e a sede, representando o deserto, porisso a prática de construir a cabana em vista da terra prometida. Está presente a água viva que é a vida em Deus - a Suká eterna: “os abrigará sob sua tenda”. A Grande Suká, a Suká que é festejada todos os anos, agora é estabelecida definitivamente e teologicamente ela abrange todo o Universo. A peregrinação que se faz para ver Deus e para ser visto por Ele, agora é permanente. Para João Jesus primeiramente cumpre na sua totalidade a compreensão e as exigencias da Festa de Sukkot para em seguida ser, Ele mesmo, a realização definitiva da Festa. Como afirma no capítulo 21, 3: “Eu ouvi uma voz forte, vinda do trono, que dizia: Eis a morada de Deus com os homens, Ele habitará com eles. Eles serão seu povo e ele será o Deus que está com eles”. É a Sukká definitiva, eterna. Mais uma vez voltamos ao contexto da Suká anunciado em Zc 14, 9: “O Senhor mostrar-se-á então rei de toda a terra. Naquele dia o Senhor será (UM) único, e (UM) único, o seu nome”. Toda a criação reconhecerá seu único Criador e todos estarão na sua presença. O que era experimentado pelo povo escolhido, o povo judeu, doravante, através de Jesus, a Sukká (Morada: estar diante da presença de Deus) passa a estar ao alcanse de toda a humanidade. Neste sentido a afirmação de João que é sua mais profunda teologia cristologica: “E a Palavra se fez carne e pôs sua Tenda (Suká) entre nós” (Jo 1,14), assume seu sentido pleno dentro da teologia da festa de Sukkot. Ele nos põe diante da afirmação central da fé cristã, isto é, a incarnação de Deus. Porque a Suká é Deus que se revela, que se faz ver. Jesus, portanto, para a escola Joanina, encarna a própria Suká. É a proclamação do acontecimento de Deus na Terra, concreto, histórico. Em definitivo para João, em Jesus, Deus conosco (Ymanu-El), confirma a invasão do Divino sobre toda a criatura e através da morada entre nós (sua Suká), se inaugura, para todos, definitivamente, a eterna fonte da água viva: “…Diz-se que quem não viu a alegria da festa da tiragem da água não viu alegria na vida” (m Sukka V, 1). Deus, povo e criação se encontram. Portanto, apresentando Jesus dentro do contexto da festa de Sukkot, João está proclamando e convidando a todos, em dimensão universal, a participar da dança, entoar Salmos, tocar instrumentos pois a Sukká permanente (Jesus) que é a materializaão de Deus com a humanidade, está construida para todos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mestre e Discípulo

1Sam 3,1- É o momento em que Samuel vai fazer a distinção entre a voz que sempre ouviu no treinamento (Eli) para a voz que doravante passará a ouvir, a voz divina. Deus chama, mas Samuel ouve a voz do seu mestre Eli, voz humana. Samuel conhecia a Palavra de Deus através de Eli. 2Reis 2p Eliseu é o discípulo de Elias - Nessa relação, discípulo e mestre estão juntos. Onde está o mestre está o discípulo. Mestre não é professor e discípulo não é aluno. O discípulo traduz na sua existência a encarnação do mestre, ou seja, ser como o mestre - Mas ir além da mera repetição. Para produzir uma imagem verdadeira.ele deve imitar o seu mestre. Porque se ficar só no intelecto não é verdadeira essa relação. (Essa é a fidelidade do discípulo para com seu mestre). Eliseu é tão bom discípulo que sabe até onde... o conhece à fundo. Vs. 7 - Importante aqui é também o movimento geográfico. Indica que sem Elias a Terra de Israel não é melhor que o Egito. Ela não é diferente. O paganismo também lá existia. Elias usa seu manto para dividir o mar em dois e atravessar a pé enxuto. Se Moisés é incomparável, Elias é o que pode chegar mais perto. Isto significa que ele foi discípulo de Moisés, ou seja, aprendeu dos seus ensinamentos. A única coisa que pode dar-lhe legitimidade (é o espírito de Deus) é a escolha que faz: escolhe Eliseu como sucessor que pede a sabedoria divina. ESPÍRITO - significa que ele necessita do Espírito divino, Espírito profético. É o mesmo que lhe pedir o espírito de Elias, que em seguida diz: Pede uma coisa difícil. No entanto ele diz: “Se me vires ser arrebatado de sua vista....” Obs.: Se o arrebatamento fosse um movimento físico, bastaria uma boa visão e não o espírito. Nesse sentido, é evidente que o arrebatamento não tem nada de físico e sim teológico, espiritual. Um acontecimento de ordem espiritual e teológico. O fogo e a cavalaria simbolizam a divindade. Por ver o arrebatamento de Elias, ele (Eliseu) pode ter o Espírito Divino - Apanha o manto de Elias caído e toma a direção do oriente para o ocidente para levar o espírito divino. Só que ele não enrola o manto, mas também bate na água e atravessa. O autor não diz que ele atravessou a pé enxuto. Isto significa que ele não é Elias. Mas seus irmãos reconhecem neste o Espírito de Elias. Isso é só imaginação, não foi real, é apenas uma criação do autor para dizer que Eliseu tem Deus e será o sucessor de Elias. Cada etapa nos leva a pensar: Eliseu devia ter ficado mas não ficou. Porque o autor faz Eliseu desobedecer (não ficar) e ir com Elias na etapa seguinte? Qual é a força maior que faz Eliseu desobedecer aparentemente esta ordem? Devido à relação MESTRE – DISCÍPULO, função do seguimento, a instrução é teológica. Os evangelistas se servem do padrão ideal da sucessão das gerações. A nova geração é discípula da geração que está terminando e ela terá que ser mestra da nova geração que está começando. Os discípulos devem aprender tudo do mestre, até a maneira como ele gesticula, olha, bebe, anda, a sobriedade, pois o mestre é alguém que encarna o ideal de uma vida em sociedade: cultura, idioma, habilidade, costumes A força maior: um discípulo não conseguiria ficar longe do mestre, por isso tudo é que Eliseu não se afastou de Elias. O autor quer provar Eliseu: se tivesse ficado em Guilgal, Eliseu não seria um discípulo de Elias. “Tão certo como o Senhor e tu vives...” = é um juramento. É como se estivesse dizendo: Eu juro por Deus. Ele jura por Deus e por Elias. Eliseu é um discípulo. Ele sabe que ficar é errado e desobedecer é o certo, pois um discípulo não se afasta do seu mestre. Isso, na história de Israel foi fundamental e ainda o é até hoje. Eles dirão: Sou discípulo de Moisés; Moisés é o rabino, mestre. Então, todo Israel é seu discípulo. “Sabes que hoje o Senhor vai arrebatar teu amo...?” Isto não visa saber o conhecimento dos profetas, mas perguntar para ver se ele (Eliseu) sabe o que vai acontecer. Eliseu tem que saber (e isto é uma prova de que ele tem em si o Espírito Profético. v.6 conclui: “os dois partiram juntos”. Quando andamos a leste em direção ao oriente chegamos ao Jordão. O movimento que eles estão fazendo é contrário ao passado. Josué fora do Oeste para o Leste. Só restou Elias como fiel a Deus no Reino de Israel, o resto se rendeu a Baal. O autor está fazendo Elias sair do Egito (idolatria) e ir para o deserto. . Israel na opressão tinha se transformado no próprio Egito. O manto de Elias é profético, enrolou-o e bateu com ele nas águas do Jordão. Lembra a travessia do mar vermelho. Também a passagem para a terra prometida, Js 3, quando os sacerdotes pisaram na água com a arca da Aliança, a água se abriu e eles entraram na terra. Mas não há ninguém com descrição tão próxima de Elias quanto Moisés. O manto divino nas mãos de Elias “Peça o que quiseres antes de eu ser arrebatado”. Isso é o núcleo do texto. O Espírito de Elias é profético e não é a personalidade de Elias que está se reencarnando. Duas porções: significa testemunho, veracidade. Os discípulos dão testemunho da história que viram (é autêntico). Função do texto: Eliseu é o indivíduo que pode substituir Elias. Eliseu poderia ter pedido outra coisa? Não, em absoluto, pois tudo está sendo escrito em função de ter ou não ter o Espírito de Elias. O autor faz Elias fazer a proposta e Eliseu fazer o pedido do Espírito. O arrebatamento acontece no início da Bíblia (Henoc: Gn 5,24; Moisés, Míriam) O que é o arrebatamento? Não é físico (ver ou não ver) È algo de natureza espiritual. Se me vires nesse arrebatamento espiritual interior, então tens o espírito. E se não vires nesta ordem, então não tens o espírito. Significa, senão fé, vires Elias indo aos céus, pois um homem como ele tem que ir para o céu. Só pode ver quem tem fé, quem tem o espírito. Meu Pai – expressão típica na boca do discípulo na relação com o mestre. v. 12 daí, conclui-se que Eliseu o viu e portanto ele é o profeta, ele tem o Espirito. Eliseu ao rasgar suas vestes em duas partes mostra que até aqui houve um Eliseu a partir daqui ele é outro. Foi discípulo, e doravante é portador do mestre, profeta. v.15 “o espírito repousa sobre Eliseu”. V.16. Esses irmãos profetas querem procurar Elias: eles (50) estão presos no nível físico, pois não acreditaram e não viram teologicamente o arrebatamento. Elias morreu, acabou. Conclusão: quando o autor faz Eliseu ver o arrebatamento. O Espírito profético repousa sobre Eliseu, então ele é o legítimo sucessor de Elias no meio do povo. A propósito - O autor dos Atos dos Apóstolos pega a linguagem: arrebatar e ver = sua relação é que faz o autor em atos construir o seu texto. Os discípulos viram Jesus sendo arrebatado: 1o) Quer dizer que sobre os discípulos repousa o espírito do Senhor ressuscitado. 2o) Que eles são os sucessores do ressuscitado, pois viram o arrebatamento. 3o) Que não adianta procurar o Jesus histórico. O que é ascensão? - História do crente, do que viveu a experiência de fé no que diz respeito à subida. Ser testemunha do ressuscitado. Sucessor do seu mestre, do desaparecido na sua vida histórica. Obs.: Pentecostes - Construção literária construída no Sinai de modo calculado, progressivo, para que tenha continuidade a construção. Por isso a morte e ressurreição pode ser escrita na base desse passado. A relação mestre discípulo no judaísmo Nos evangelhos encontramos Jesus sempre rodeado de discípulos/as e ensinando através de parábolas. Os ensinamentos são passados de forma oral e por isso a assimilação requer a memorização do que foi ouvido. Para isso é preciso repetir sempre os ensinamentos do mestre. É pela força da repetição que suas palavras continuam a cantar no coração do discípulo, mesmo quando este se ocupa com outras coisas. O que mantém viva uma cultura é a capacidade de contar e recontar histórias. A memória é o que mantém vivas a fé, a esperança e, conseqüentemente, a resistência de um povo. Esta é a razão do esforço de tantos grupos, na maioria pequenos, que fazendo a leitura dos textos das Escrituras dentro de suas próprias culturas ressaltam os valores da pedagogia popular. A força do ensinamento oral reside no fato de que o que se escreve em material perecível pode desaparecer, mas o que se guarda na memória e se transmite jamais desaparecerá, enquanto existir o ser humano. O Senhor me deu uma língua de discípulo para que eu soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto. De manhã ele me desperta, sim, desperta o meu ouvido para que eu ouça como discípulo (Is 50,4). A figura do mestre na tradição judaica é estritamente ligada à Torá, á Palavra de Deus. Não existe mestre sem a Escritura, Palavra de Deus. Não pode haver tampouco um mestre sem discípulos e discípulos sem um mestre. É em relação aos seus discípulos que ele é considerado mestre. O mestre transmite os ensinamentos aos discípulos com a palavra e com a própria vida. Como deve ser um discípulo? Deve estar em tudo de acordo com o mestre. Deve observar o mestre como ele fala, anda, se veste, gesticula, se comporta. Um discípulo deve visitar o seu mestre em dia de festa, obedecer às suas ordens, mesmo quanto não está de acordo com elas, deve ganhar a simpatia de seu mestre pela boa conduta. Quem busca um mestre e se une a ele é como se buscasse e se unisse a Deus. Assim sendo o mestre, pela posição que adquire de transmitir a Torá, se torna, aos olhos da comunidade, um representante do próprio Deus. Ao mesmo tempo o mestre deve admoestar o seu discípulo e ser admoestado por ele. A relação que se estabelece entre mestre e discípulo não é somente ligada ao estudo dentro do tempo de preparação, mas a um contado pessoal e há uma verdadeira participação de um na vida do outro. Pode-se dizer que, embora mestre e discípulo se encontrem em uma atmosfera comum de reciprocidade, a postura do discípulo diante do mestre é de escuta e assimilação. Escuta de suas palavras, que são as da Escritura, e imitação de suas ações, que são um reflexo das ações de Deus. Neste sentido, é interessante lembrar as palavras de Isaías citadas no início: “o Senhor me deu uma língua de discípulo... e ouvido ...”, isto é, para falar, repetir as palavra ouvidas da boca do mestre (Deus). O mestre, pelos seus ensinamentos e exemplos, transmite a vida da Palavra de Deus a seus discípulos, que por sua vez vão transmiti-la a outros, como uma força vital. É o ensinamento que atravessa gerações, de boca em boca, de coração a coração. “Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Josué”. Assim a função mestre-discípulo exige uma continuidade. E para que essa continuidade aconteça são necessárias duas exigências: fidelidade ao Mestre e fidelidade à comunidade. Daí se entende a relação de Jesus com seus discípulos. Seguiram o mestre em tudo e depois foram fiéis ao ensinamento do mestre. Somos catequistas, isto é, somos mestres. A pergunta a ser feita é, até que ponto nós fomos discípulos do mestre para que agora tenhamos autoridade para transmitirmos a sua mensagem.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

HANUKKAH חנוכה

Chanucá ou Hanucá (חנכה ḥănukkāh ou חנוכה ḥănūkkāh) é uma festa judaica, também conhecido como o Festival das luzes. "Chanucá" é uma palavra hebraica que significa "dedicação" ou "inauguração". A primeira noite de Chanucá começa após o pôr-do-sol do 24º dia do mês judaico de Kislev e a festa é comemorada por oito dias. Uma vez que na tradição judaica o dia do calendário começa no pôr-do-sol, o Chanucá começa no 25º dia. Por volta do ano de 200 a.C. os judeus viviam como um povo autônomo na terra de Israel, a qual, nessa época, era controlada pelo rei selêucida da Síria. O povo judeu pagava impostos à Síria e aceitava a autoridade dos selêucidas, sendo, em troca, livre para seguir sua própria fé e manter seu modo de vida. Em 180 a.C. Antíoco IV Epifanes ascendeu ao trono selêucida. Braço remanescente do império grego, encontrou barreiras para sua dominação completa sobre o povo judeu, e o modo mais prático para resolver isso era dominar de vez a região de Israel (mais precisamente a Judéia, ao sul) impondo de maneira firme a cultura da Grécia sobre os judeus, eliminado, assim, aquilo que os unificava em qualquer lugar que estivessem: a Torá. O rei Antíoco ordenou que todos aqueles que estavam sob seu domínio (em específico Israel) abandonassem sua religião e seus costumes. No caso dos judeus, isso não funcionou, ao menos em parte. Muitos judeus, principalmente os mais ricos, aderiram ao helenismo (cultura grega) e ficaram odiados e conhecidos pelos judeus mais pobres como "helenizantes", uma vez que ficavam tentando fazer a cabeça do resto dos judeus para também seguirem a cultura grega. Antíoco queria transformar Jerusalém em uma "pólis" (cidade) grega, e conseguiu. Em 167 a.C., após acabar com uma revolta dos judeus de Jerusalém, Antíoco ordenou a construção de um altar para Zeus erguido no Templo, fazendo sacrifícios de animais imundos (não kasher) sobre o altar, e proibiu a Torá de ser lida e praticada, sendo morto todo aquele que descumprisse tal ordem. Na cidade de Modim (sul de Jerusalém), tem início uma ofensiva contra os greco-sírios, liderada por Matatias (Matitiahu) (um sacerdote judeu de família dos Hasmoneus) e seus cinco filhos João, Simão, Eliézer, Jonatas e Judas (Yehudá). Após a morte de Matatias, Yehudá toma à frente da batalha, com um pequeno exército formando em sua maioria por camponeses. Mesmo assim, os judeus lograram vencer o forte exército de Antíoco no ano 164 a.C, e libertaram Jerusalém, purificando o Templo Sagrado. Judas acabou conhecido como Judas Macabeu (Judas, o Martelo). O festival de Chanucá foi instituído por Judas Macabeu e seus irmãos para celebrar esse evento. (Mac. 1 vers. 59). Após terem recuperado Jerusalém e o Templo, Judá ordenou que o Templo fosse limpo, que um novo altar fosse construído no lugar daquele que havia sido profanado e que novos objetos sagrados fossem feitos. Quando o fogo foi devidamente renovado sobre o altar e as lâmpadas dos candelabros foram acesas, a dedicação do altar foi celebrada por oito dias entre sacrifícios e músicas (Mac. 1 vers. 36). Até aqui, viu-se a vitória do pequenino exército judeu, esse foi o primeiro milagre. O segundo milagre é mais sobrenatural e deu origem à festa de Chanuká. Após a purificação da Cidade Santa e da Casa de Deus, foi constatado que só havia um jarrinho de azeite puro no Templo com o selo intacto do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) para que as luzes da Menorá fossem acesas, e isso duraria apenas um dia, mas milagrosamente durou oito dias, tempo suficiente para que um novo azeite puro fosse produzido e levado ao templo para o seu devido fim conforme manda a Torá (Ex 27:20-21). A Judéia ficou independente até a chegada do domínio romano em 63 a.C. A festa é realizada no dia 25 de Kislev (cai normalmente em dezembro), data onde o Templo foi reedificado. É uma festa marcada pelo clima familiar e pela grande alegria. Encontramos os fragmentos históricos de Chanuká nos livros deuterocanônicos de I e II Macabeus e também em escritos talmúdicos. O mandamento principal de Chanuká hoje é o acendimento da Chanukia (Menorá - candelabro - de 9 braços). Oito braços são para lembrar o milagre dos oito dias em que a Menorá ficou acesa com azeite que era para ter durado apenas um dia. O outro braço, que é chamado de "shamash" - servente - é um braço auxiliar para o acendimento das outras velas. Segundo a tradição, somente ele (o shamash) pode ser usado para, se for o caso, iluminar a casa ou para outro fim, sendo que as outras velas só podem servir para o cumprimento do mandamento. A cada noite uma nova vela é acrescentada até que se completem as nove. Outras tradições como brincar com o "sevivon" (pião) onde em cada lado dele estão escritas as iniciais da frase "nes gadol hayá sham" (um grande milagre aconteceu lá - em Israel) são válidas, e para quem está em Israel a última palavra da frase é "pó" (aqui). Também há o costume de servir alimentos como sonho com geléia (sufganyot) e panquecas de batata (latkes). Um grande número de historiadores acreditam que a razão pelos oito dias de comemoração foi que o primeiro Chanucá foi de fato uma tardia comemoração do festival de Sucot, a Festa das Cabanas (Mac. x. 6 e i. 9). Durante a guerra os judeus não puderam celebrar Sucot propriamente. Sucot também dura oito dias, e foi uma festa na qual as lâmpadas tiveram um papel fundamental durante o período do Segundo Templo (Suc.v. 2-4). Luzes também eram acesas nos lares e o nome popular do festival era, portanto, segundoFlávio Josefo ([1] Antiguidades judaicas xii. 7, § 7, #323) o "Festival das Luzes" ("E daquela época até aqui nós celebramos esse festival, e o chamamos de Luzes"). Foi notado que os festivais judaicos estavam ligados à colheita das sete frutas bíblicas na qual Israel ficou famoso. Pessach é a comemoração da colheita da cevada, Shavuot do trigo, Sucot dos figos, tamareiras, romãs e uvas, e Chanucá das olivas. A colheita das olivas é em Novembro e o óleo de oliva ficaria pronto para o Chanucá em Dezembro. O milagre de Chanucá é descrito no Talmud, mas não nos livros dos Macabeus. Esse feriado marca a derrota das forças selêucidas que tentaram proibir Israel de praticar o judaísmo. Judas Macabeu e seus irmãos destruíram forças surpreendentes, e rededicaram o Templo. O festival de oito dias é marcado pelo acendimento de luzes com uma menorá especial, tradicionalmente conhecida entre a maioria dos Sefaradim como chanucá, e entre muitos Sefaradim dos Balcãs e no Hebraico moderno como uma chanukiá. O Talmud (Shabat 21b) diz que após as forças de ocupação terem sido retiradas do Templo, os Macabeus entraram para derrubar as estátuas pagãs e restaurar o Templo. Eles descobriram que a maioria dos itens ritualísticos havia sido profanada. Eles buscaram óleo de oliva purificado por ritual par acender uma Menorá para rededicar o Templo. Contudo, eles encontraram apenas óleo suficiente para um único dia. Eles acenderam isso, e foram atrás de purificar novo óleo. Milagrosamente, aquela pequena quantidade de óleo queimou ao longo dos oito dias que levou para que houvesse novo óleo pronto. É a razão pela qual os judeus acendem uma vela a cada noite do festival. No Talmud dois costumes são apresentados. Era comum tanto ter oito lamparinas na primeira noite do festival, e reduzir o número a cada noite sucessiva; ou começar com uma lamparina na primeira noite, aumentando o número até a oitava noite. Os seguidores do Shamai preferiam o costume anterior; os seguidores do Hilel advogavam o segundo (Talmud, tratado Shabat 21b). Josefo acreditava que as luzes eram um símbolo da liberdade obtida pelos judeus no dia em que Chanucá é comemorado. As fontes talmúdicas (Meg. eodem; Meg. Ta'an. 23; comparar as diferentes versões Pes. R. 2) descrevem a origem do festival de oito dias, com seus costumes de iluminar as casas, até o milagre dito ter acontecido na dedicação do Templo purificado. Isso foi que o pequeno vasilhame de óleo puro que os sacerdotes Hasmoneus encontraram intocados quando eles entraram no Templo, tendo estado vedado e escondido. Esse pequeno montante durou por oito dias até que novo óleo pudesse ser preparado para as lamparinas do candelabro sagrado. Uma lenda similar em características, e obviamente mais antigo, é aquele aludido em Mac. 2 1:18 et seq., de acordo com o qual o reacendimento das luzes do fogo do altar por Nehemias foi devido a um milagre que ocorreu no vigésimo quinto dia de Kislev, e no qual parece ter sido dado como a razão para seleção da mesma data para a rededicação do altar por Judas Macabeu. A história de Chanucá é preservada nos livros de Macabeus 1 e Macabeus 2. Esses livros não são parte da Bíblia Hebraica, mas são parte do material religioso e histórico deuterocanônico da Septuaginta; esse material não foi codificado mais tarde pelos judeus como parte da Bíblia, mas foi codificado pelos católicos e cristãos ortodoxos. Uma outra, provavelmente tardia, fonte é o Megillat Antiokhos— um texto escrito pelos próprios Macabeus por Saadia Gaon, e mais provavelmente escrito por volta do primeiro ou segundo século d.C. A festa de Chanucá é celebrada durante oito dias, do dia 25 de Kislev ao 2 de Tevet (ou o 3 de Tevet, quando Kislev só tem 29 dias). Durante esta festa se acende uma Chanukiá, ou candelabro de 9 braços (incluindo o central e maior, denominado Shamash, ou servente). Na primeira noite acende-se apenas o braço maior e uma vela, e a cada noite se vai acrescentando uma vela, até que no oitavo dia o candelabro está completamente aceso. Este ritual comemora o milagre do azeite que queimou por oito dias no candelabro do Templo de Jerusalém . Antes do século XX, o Chanucá era um feriado relativamente menor. Contudo, com o crescimento do Natal como o maior feriado no Ocidente e o estabelecimento do estado moderno de Israel, o Chanucá começou a servir crescentemente tanto como celebração da restauração da soberania judaica em Israel e, mais importante, como um feriado para se dar presentes voltado para a família em Dezembro que poderia ser um substituo judaico para o feriado cristão. É importante notar que a substituição pelo Natal não é universalmente aceito, e muitos judeus não tomam parte nesta significação extra naquilo que eles consideram um feriado menor. Crianças judias, primariamente entre os Ashkenazim, também jogam um jogo onde eles giram um pião de quatro faces com letras hebraicas chamado de dreidel (סביבון sevivon em hebraico) . O dreidel (סביבון , Sevivon) é um pião de 4 lados jogado durante o feriado judaico de Chanucá. Cada lado do dreidel possui uma letra do alfabeto hebraico: נ (Nun), ג (Gimel), ה (Hei), ש (Shin), que juntas foram o acrônimo para "נסגדול היה שם" (Nes Gadol Haya Sham – "um grande milagre aconteceu lá"). Estas letras também são um mnemônico para as regras do jogo tradicionalmente jogado pelas crianças com o dreidel Nun para a palavra Yiddish "nit" ('nada'), hei para "halb" ('metade'), guímel para "gants" ('tudo'), and shin para "shteln" ('coloque'). Em Israel, ao invés de ש (Shin), a letra פ (Pe) é usada para indicar a localização do milagre — "פה" (Po – "aqui"). Este costume foi adotado depois da captura de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias, mas é rejeitado pela maioria do Haredim. Por isso, nas lojas de brinquedos de Meah Shearim, um enclave ultra-ortodoxo, são os únicos lugares onde podem ser encontrados os dreidels com "Shin". A palavra Yiddish "dreidel" vem da palavra alemã "drehen" ("turn"). A palavra hebraica "sevivon" vem da raiz "sivuv" ("volta") e foi inventada por Itamar Ben-Avi (o filho de Eliezer Ben-Yehuda) quando tinha apenas 5 anos. Antes disso, outras palavras foram usadas por Hayyim Nahman Bialik em seus poemas. Segundo David Golinkin, rabino e professor e reitor do Schechter Institute of Jewish Studies em Jerusalém, a partir do século XIX, muitos rabinos procuraram explicações para o jogo do dreidel. Uma explicação aventada é que o dreidel é jogado em parte para comemorar um jogo que os judeus sob o domínio Grego jogam para camuflar o estudo da Torá. Apesar da lei grega proibir esse estudo, os judeus se reuniam em cavernas para fazê-lo. Um vigia era posto para alerta o grupo da presença de soldados gregos, e caso esses aparecessem os judeus guardavam seus estudos e começavam a rodar piões e jogar com moedas. Outras explicações existem, mas o mais provável, segundo Golinkin, é que o dreidel seja apenas uma variante de outros jogos semelhantes como o totum ou teetotum, jogado na Inglaterra e Irlanda na época do Natal pelo menos desde 1500, ou de um jogo semelhante, da Alemanha, onde aparecem no pião as letras N = Nichts = nada; G = Ganz = tudo; H = Halb = metade; e S = Stell ein = coloque. Parte da tradição é jogar sob a luz da Menorá de Chanucá, para manter as crianças entretidas enquanto as velas queimam. Para começar, cada jogador deve receber a mesma quantidade de moedas iguais (ou o mesmo valor, o que pode ser confuso para crianças pequenas). Dez a quinze moedas é um valor razoável. Também podem ser utilizadas fichas, nozes ou outro marcador. A cada partida, eles devem depositar uma quantia igual na mesa (combinada anteriormente). A cada rodada de uma partida, cada jogador deve girar o sevivon em seqüência, e obedecer o que manda a letra que obtiver: • נ - Nun: não perde nem ganha nada • ג - Guímel: ganha todas as moedas da mesa • ה - Hei: ganha a metade das moedas da mesa • ש - Shin: deposita na mesa o mesmo valor que depositou no início O jogo pode durar até que um jogador tenha ficado com todo o dinheiro, ou simplesmente quando os jogadores quiserem parar.

domingo, 17 de novembro de 2013

Exílio Babilonico

EXÍLIO BABILÔNICO - 587 - 538
A tomada de Jerusalém, a destruição do Templo e a morte de Godolias, governador provisório da judéia em 587, marcam a divisão da história de Israel de maneira irreversível, como antes e depois do exílio. A partir do exílio da Babilonia o povo de Israel se apresentará sempre em duas partes, dois grupos:
Ä  o grupo que ficou na terra, e
Ä  o grupo daqueles que estão em terra estrangeira = Diáspora
Tanto um grupo quanto o outro não possuem mais um Estado e arriscam ser varridos da história como uma nação particular. Esta ameaça é tão real que durante o período do exílio babilônico, a história do povo de Israel, principalmente nos meios cristãos,ficou quase totalmente desconhecida por falta de documentos, um testemunho histórico desta época.
O POVO QUE FICOU NA TERRA
A morte de Godolias foi seguida por um movimento de resistência dos Amonitas e Moabitas aos exércitos babilônicos. Esta resistência foi extinta em 582 com a deportação de numerosos anionitas e moabitas e alguns judeus que haviam se comprometido com a revolta(cf. Jr. 52,30).
Por outro lado, Nabucodonosor conseguiu conquistar Tiro após 13 anos de cerco em 572(cf Ez. 29,17-20; 25-28). Neste período a região de Judá ficou sem nenhuma liderança política, uma região semi abandonada. O desaparecimento de uma entidade política judaica permitiu aos edomitas ocuparem uma parte importante do reino de Judá. Aliados dos caldeus, os edomitas aproveitaram rapidamente esta oportunidade sobretudo porque estavam sendo pressionados pelos árabes do norte, em particular a confederação de Quedar, em plena expansão. Assim os edomitas se apossaram da maior parte do Neguev desde 597. A campanha de Nabucodonosor em 588-587 com a tomada de Laquis, permitiu aos edomitas ocuparem o sul da montanha de Judá e da Sefelá até a fronteira, incluindo Laquis, Hebron e Em Gadi.Os combates mortais ali travados e a deportação massiva deixaram o território de Judá reduzido a um grupo de canponeses ligados à terra da qual tiravam sua sobrevivência.
Quase todas as cidades haviam sido destruídas. Os citadinos que ficaram tiveram de voltar ao trabalho da terra, por necessidade, atribuindo-se os campos dos que haviam sido deportados ou desaparecido durante a guerra. É o que nos dá a entender Jr. 39,8-10. Após a morte de Godolias, provavelmente os babilônios anexaram esta população dispersa nas campanhas à província da Sarnaria. Paradoxalmente recriaram a unidade do povo de Israel, mas num estado calamitoso: um povo humilhado, desorganizado, em território ocupado e controlado pelos babilônios.
O livro das Lamentações expressa admiravelmente a fraqueza do povo de Judá que tinha somente as ruínas do Templo como ponto de referência e sobre as quais continuavam a celebrar os sacrificios não sangrentos: oblação e incenso.(cf. Jr 41,4-5)
O GRUPO DOS EXILADOS
Os judeus exilados em 597,587 e 582 representavam a elite da população, as classes dirigentes - notáveis e altos funcionários, e os operários especializados - artesãos. O número dos deportados de 597, parece ter atingido o número de 10.000 (cf. 2 Rs. 24,14.16). Este número não confere com o que nos diz Jr. 52,28-30. No entanto, podemos supor um total de 20.000 pessoas, incluindo mulheres e crianças entre as 3 deportações. Na leva de 582 estavam também incluídos os pobres da terra.
O estilo de deportação dos babilônios foi diferente da dos assírios. Os assírios misturavam os prisioneiros entre as populações estrangeiras a fim de evitar o reagrupamento dos exilados da mesma nação. Os babilônios não dispersaram os grupos de deportados, permitindo o reagrupamento em campos ou cidades da Babilônia.
O profeta Ezequiel menciona Tel Abib - “Colina da primavera” perto do rio Cobar (Ez 3,15). Isto quer dizer o “Naru Kaburu” um dos grandes canais babílônicos. Pode-se também mencionar Tel Mela, Tel Harsa, Querub, Adon Emer ( Esd. 2,59; Ne 7,61) situadas no coração da Babilônia, não longe das cidades de Nipur e Babilônia.
O reagrupamento dos exilados permitiu-lhes uma certa vida comunitária. Eles podiam se reunir facilmente, se organizar ao redor dos “anciãos”, escutar os profetas e continuar ligados pelo correio com o que se passava na terra, pelo menos até 587. Sendo que o chefe legítimo, rei Joiaquin, estava prisioneiro, foi Ezequiel, o profeta que se revelou como líder espiritual dos exilados, reanimando sua coragem, denunciando as esperanças vãs de um rápido retorno, criticando as faltas passadas e os exortando a voltar para YHWH, misteriosamente presente no meio deles(cf. Ez. 1).
De Jerusalém, Jeremias transmitia através de carta, uma mensagem semelhante. Recomendava aos exilados de não prestar ouvidos a vãs esperanças e sim se preparar para um exílio bastante longo(cf Jr. 29,4-7).
Estas recomendações bastante realistas explicam porque desde a primeira deportação os exilados se mostraram empreendedores. Alguns fizeram fortuna no comércio ou na alta administração. Tendo recebido uma formação que os tornava aptos para ocupar altas funções no comércio ou administração, possuindo mão de obra especializada que era bastante procurada, a maior parte dos primeiros exilados encontraram seu lugar numa sociedade e economia em plena expansão. No entanto guardavam um forte sentimento de pertença nacional e esperavam voltar um dia ao pais, esperança longínqua alimentada pelos profetas(cf. Ez. 37 - a visão dos ossos secos que significa a ressurreição nacional).
O sentimento nacional e a esperança de renovação eram reforçadas pelo reagrupamento dos exilados em torno de seus líderes: o representante da dinastia davídica, os “anciâos de Israel” e os sacerdotes.
Ä  O representante da dinastia davídica. O rei Joiaquin deportado em 597 era considerado um rei legítimo. Os exilados saudaram sua libertação em 560 após a chegada de Evil Merodac (Amil Marduk) que o libertou, como um sinal que anunciava a renovação nacional. Tanto mais que Joiaquin e sua família tiveram lugar na corte babilônica ( cf 2 Rs. 25,27-30). Foi provavelmente em reconhecimento desta libertação que Joiaquin deu nomes babilômcos a alguns de seus descendentes.
Ä  Os “Anciãos de Israel”. Os anciãos eram os chefes tradicionais dos exilados. Estes conservavam a organização da família ampliada, clã e tribo, com referência particular ao lugar de origem.
Ä  Os sacerdotes de Jerusalém. Como dissemos anteriormente, quase a totalidade dos sacerdotes foi deportada na primeira leva. Eles se revelaram naturalmente como autoridades religiosas depositárias das tradições israelitas. Não é por acaso que um deles, Ezequiel seja “filho de Buzi”(Ez; 1,3) que ficou para sempre chefe espiritual dos exilados. Não tendo mais que se ocupar do Templo e dos sacrifícios os sacerdotes tornaram-se guardiões do ensino e da tradição israelita junto aos exilados. Com este objetivo redigiram a história e a lei sacerdotal. Eles insistiram particularmente nos ritos que diferenciavam os exilados daqueles que os cercavam: a clrcuncisão, os tabus alimentares (puro- impuro) e as festas. O contato com os babilônios e sua astrologia permitiu uma reforma do tradicional calendário lunar, com a proposta de um novo calendário, o “calendário sacerdotal”, mais preciso que o anterior. Talvez foi na ocasião desta reforma que transpuseram a data do “shabat” tradicionalinente ligado à lua cheia, para uma festa de cessar o trabalho de 7 em 7 dias, inspirados no calendário mesopotânico dos “dias perigosos”.
Embora a maior parte dos exilados tenha sido levada para a Babilônia, esta não foi a única região a receber o povo de Israel disperso. Eles se refugiaram também nos países limítrofes: Amon, Moab, Fenícia, Filistéia e Egito. O exemplo dos oficiais que se salvaram da mão de Ismael (cf. Jr. 41,11-18) mostra bem como o Egito, antigo aliado, tornou-se terra de asilo, especialmente para militares que perderam o emprego. Muitos grupos de israelitas foram empregados como mercenários nas diversas cidades de guarnição militar egípcia: Migdol, Tafnes, Menfis e Elefantina(segundo Jr 44,1 “país do sul”). A colônia judaica de Elefantina tornou-se conhecida recentemente pelas ostracas e papiros aramaicos que foram descobertos na região.
O contexto internacional dos exilados - diáspora - e daqueles que permaneceram na terra mudou rapidamente. Depois de Evil Merodac ou Amil Marduk – 561-560, e Neriglissar -559 - 556, Nabonide tomou o poder - 556 -539. Ele realizou uma política religiosa original, favorável ao deus lunar Sîn. Isto suscitou reação dos sacerdotes de Marduk. Nabonide se apossou do oásis Teima, na Arábia, one ficou por dez anos, deixando seu filho Baltazar (Bel- shar- usur) governando a Babilônia. Durante sua ausência o rei da Pérsia, Ciro, tomou Ecbatána em 550, após ter vencido o rei da Líbia, Cresus, ele conquistou sua capital Sardes em 547/546. Voltando à Babilônia, Nabonide não conseguiu uma resistência eficaz e o governador de Gutium, Gobrias, passou para o lado de Ciro.
Junto com Gobrias, uma parte da população sustentada pelos sacerdotes de Marduk acolheram Ciro como libertador, celebrado pelos oráculos do Deutero Isaías - Is. 40-55. Em 539, Baltazar foi assassinado e Nabonide feito prisioneiro. Ciro entrou triunfante na Babilônia. Uma nova fase e um novo império se apossava de todo o Oriente.
O período da história do exílio da Babilônia e a continuidade da vida dos israelitas na diáspora foi um momento de aprofundamento da fé javista e ao mesmo tempo um momento de ampliar a revelação. O povo de Israel havia perdido o Estado, o Templo, e todas as seguranças externasque poderiam fazê-lo pensar na impossibilidade de que uma catástrofe pudesse se abater sobre o povo. No exílio, sem terra, sem rei, sem Templo, foi o momento do confronto e da busca do Deus verdadeiro. A descoberta de civilizações bem mais avançadas com a multiplicidade de deuses fez com que o povo procurasse definir sua identidade a partir do Deus UM. Os meios encontrados foram novos, dinamizados e sustentados pela tradição israelita, pelo codigo da Aliança, pela Palavra de Deus no meio do povo. A vida dos exilados passou a se organizar em torno da Palavra de Deus, a Torá revelada no Sinal.
Assim foi nascendo a identidade no modo de viver de Israel no meio das nações, a partir dos sinais e símbolos visíveis que identificavam o fiel da Aliança
O sábado — “Shabat” - tornou-se cada vez mais o sinal distintivo do judeu fiel. cf Jr. 17,19-27; Is. 56, 1-8; 58, l3-14. Um sinal perpétuo instituído na criação.(cf (Gn 2,2ss), dizendo que Israel era Israel. Ez. 20,12-14. Na tradição judaica os mestres dirão: Mais do que Israel guardou o sábado, o sábado guardou Israel”
A circuncisão — sinal da Aliança, marca distintiva da pertença ao povo judeu cf.Gn 17,9-14
Leis rituais e alimentares - símbolos de uma religião que procurava ser vivida nos atos mais simples do dia a dia, dando vida e lembrando a presença Shekiná de Deus no seio da comunidade .
A grande esperança - A volta à SION - JERUSALÉM - a restauração do país, a volta e o ideal utópico de um estado no padrão tribal, uma teocracia
VOLTA DO EXILIO NO IMPÉRIO PERSA - 538 - 332
Em 538 Ciro promulgou um edito permitindo a volta dos exilados ao seu país de origem. Ordenou a reconstrução do Templo de Jerusalém às custas do tesouro real. Mais do que isto, ele devolveu “os objetos de ouro e prata que Nabucodonosor havia tirado do Templo de Jerusalém e levado para a Babilônia”. cf. Esd. 1,2-4; 6,5. O Edito de Ciro aparece como resultado da prática política adotada pelos Aquimedes e seus sucessores em relação aos exilados. A tolerância religiosa e cultural dava aos povos dominados uma certa autonomia sob o controle centralizado e burocrático bastante complexo e eficiente dos persas, através do seu sistema de comunicações.
Sassabasar, corruptela de Sin-Ab-Assur, “príncipe de Judá”, recebeu a missão de reconstruir o Templo e Ciro lhe confiou os vasos sagrados. Para desempenhar com eficácia sua tarefa, parece ter recebido o título de “péa”, prefeito ou governador da província de Judá que em aramaico se diz “yehud medînata” cf.Esd. 5,8-17.
A identidade de Sasabassar não é muito segura, mas provavelmente trata-se do filho caçula de Joiaquin chamado Senasser em 1 Cr. 3,18. Sua missão foi quase um fracasso. Se ele recolheu contribuições importantes em dinheiro, o mesmo não se deu com a iniciativa de reunir pessoal para voltar. O número de exilados que voltaram foi pouco numeroso. Chegando a Jerusalém, ele colocou as fundações do Templo (cf. Esd. 5,16) mas os trabalhos foram interrompidos rapidamente e talvez totalmente abandonados com a morte de Ciro. O sucessor de Ciro, Câmbises(530-522), concentrou todas as suas energias para conquistar o Egito em 525.
Após a morte de Câmbises e uma guerra de sucessão, a chegada de Dario (521-486) parece ter sido ocasião para uma nova volta de exilados para Jerusalém, sob a direção de Zorobabel, filho de Salatiel, o primogênito de Joiaquin, nomeado “governador de Judá” e de Josué, filho de Josedec, o sumo sacerdote(cf. Ag.1,1; Esd.2,2). Zorobabel e Josué restabeleceram o altar sob as fundações e desenvolveram a regularidade dos sacrificios e festas. Encorajados pelo profeta Ageu(520) e Zacarias (520-518), testemunhos de agitação religiosa e do zelo do Templo, animam os repatriados à reconstrução do Templo(cf. Esd.3). Como o tesouro nacional participava nesta reconstrução, o governador da província Transeufratena fez uma pesquisa e exigiu a confirmação da ordem de reconstrução de Dario.
Conforme sua política geral, Dario confirma o edito de Ciro(cf.Esd. 6,3-12). Os trabalhos avançaram rapidamente utilizando cedros do Líbano e mão de obra especializada fenícia. Bem mais modesto do que o Templo inaugurado por Salomão, este “segundo Templo” foi terminado em 515 e inaugurado por ocasião da Páscoa deste mesmo ano(cf.Esd. 6,13-22).
O período que segue à inauguração do Templo é um pouco obscuro. Com a construção do Templo havia se desenvolvido a esperança de uma restauração do reino de Judá, tendo à frente os descendente davídico Zorobabel e o sumo sacerdote sadoquita Josué(Zac. 3,1-7). Provavelmente as autoridades persas cuidaram para que esta visão não se realizasse.
As escavações arqueológicas trouxeram ao conhecimento estampilhas e selos desta época. Parece que Hananias sucedeu seu pai Zorobabel na função de governador. Em seguida, Elnatan casado com Salomit, genro de Zorobabel foi quem o sucedeu (cf. 1 Cr. 3,19). A partir deste momento o cargo de “governador de Judá” escapou da linha davídica. As estampilhas aramaicas “yeud” indicam que dois outros governadores (Yeózer e Alsay) haviam organizado muito bem os impostos para os produtos em espécie: trigo, vinho e óleo, na primeira metada do século V(cf Ml. 3,8ss). As arrecadações tornaram-se cada vez mais pesadas pois o governador e seus servidores guardavam uma parte chamada “pão do governador”, costume que será denunciado por Neemias (cf. Ne. 5,15).
Em princípio, estes impostos deveriam permitir a continuação dos trabalhos de renovação e fortificação de Jerusalém, mas no início do reinado de Artaxerxes I (464-424), os trabalhos foram suspensos pela intervenção dos altos funcionários da província Transeufratena, o chanceler Rehoum e seu secretário Samsai, com o pretexto de interditar uma rebelião(cf Esd. 4,6-22).
Para tentar desbloquear a situação Neemias(445), filho de Hacalias, funcionário do rei Artaxerxes, consegue ser enviado como governador de Judá com plenos poderes para reconstruir as muralhas de Jerusalém (cf. Ne 1-2). Com a ajuda do sumo sacerdote Eliasib e apesar das ameaças ciumentas dos governadores vizinhos, Neemias reconstruiu a muralha em 52 dias( cf. Ne. 6,15). Em seguida, Neemias organizou o repovoamento de Jerusalém pedindo às cidades vizinhas que um homem em dez fosse designado como voluntário para morar na capital (cf. Ne. 7,4-72). Assim foi possível realizar a inauguração da nova muralha(Ne. 12,27-29).
Para diminuir o pesado clima social que se criou pelas más colheitas e pelos impostos, empréstimo a juros elevados que rapidamente levava as pessoas a serem vendidas por dívidas, Neemias fez os credores aceitarem o perdão geral das dívidas e diminuiu os impostos renunciando pedir o “pão do governador” (cf. Ne. 5).
Neemias foi convocado a voltar para junto do rei Artaxerxes em 433. Voltando à Jerusalém algum tempo depois, ele se esforçou para fazer o povo aceitar a lei deuteronomista em todo o seu rigor. Ele denunciou as agitações promovidas pelo sacerdote Eliasib em favor de seu parentes, o governador amonita, Tobias. Ele será excluído da assembléia israelita a partir de Dt 23,4. Neemias reorganizou ainda o serviço do dízimo em favor dos levitas(cf. Ne. 13). Ele se opôs aos casamentos mistos, prática que vinha do exemplo da família do sumo sacerdote Eliasib cujo neto havia casado com a filha de Sanbala, governador de Samaria. É nesta época que devemos localizar a novela de Rute, a moabita, como sinal de recusa à política de Neemias. Ele impôs também o respeito ao sábado, fechando as portas de a Jerusalém a fim de impedir o comércio da cidade durante este dia(cf. Dt. 5,12-15). Também nesta época podemos localizar o livro do Cântico dos Cânticos onde a protagonista é uma mulher amada e amante, questionando as estruturas patriarcais da época ao fazer da mulher a principal protagonista, mesmo se o livro é atribuido a Salomão pode-se ver que a Sulamita tem a maior parte da fala em todo o livro.
O fim do governo de Neemias e a história posterior continuam obscuras. Pelo papiro 30 de Elefantina chegou-se ao conhecimento de que o governador de Judá em 407 se chamava Bagoas. A troca de correspondência ligadas à destruição do templo de Elefantina nos revelam que o sumo sacerdote de Jerusalém se chamava Yohanan(cf. Ne. 12,22) e que o governador da Samria era Dalaia, filho de Sanbala. A correspondência civil e religiosa entre Judá e Samaria revelam os problemas colocados pelos diferentes costumes judaicos divergentes no que se refere ao culto, calendários e sacrificios. Neste contexto se situa a missão de Esdras. A data de sua missão continua a ser discutida. Alguns a situam em 458, outros em 398 no tempo de Artaxerxes II. Esta última parece ser a mais provável. No contexto geral parece que a missão de Esdras foi posterior ao governo de Neemias.
Segundo a terminologia oficial firmando a missão de Esdras por Artaxerxes, ele era “sacerdote Esdras, escriba da Lei de Deus dos Céus” (cf. Esd. 7,12) e é como sacerdote especializado nos textos da tradição judaica que Artaxerxes lhe pediu para reunir, harmonizar e unificar as diversas tradições, e de um modo particular o culto. A partir deste momento as autoridades persas disporiam de uma referência escrita oficial em suas relações com a comunidade judaica, tanto na terra de Judá como na Babilônia e em todo o império persa. Tal missão era de acordo com a política geral das autoridades persas e paralela à atitude de Dario em relação às tradições religiosas egípcias. A tarefa era tanto mais urgente pois Artaxerxes desejava poder se apoiar em uma população estável, fiel, na terra de Israel, pois o Egito tinha se tornado independente em 401 e o império persa havia revelado sua fraqueza diante da marcha dos “dez mil” gregos.
Qual seria o conteúdo da Lei do Deus dos Céus que Esdras estava encarregado de promulgar como tendo valor também no plano civil? (Esd. 7,26) Muitos indícios levam a pensar que se trata do atual Pentateuco, a Torá unificada pela redação sacerdotal que harmonizou as tradições mais antigas com o código de Santidade e sobretudo com o calendário sacerdotal.
Para melhor desempenhar sua delicada missão de unificação jurídica, Esdras se fez acompanhar por um número importante de repatriados, em particular de sacerdotes e levitas. Trouxe consigo 650 talentos de prata e 100 talentos de ouro e objetos preciosos(cf. Esd. 8). Graças aos presentes e aos acompanhantes ele foi favoravelmente acolhido. Ele promulgou a nova Lei durante uma assembléia solene no primeiro dia do sétimo mês, isto é na festa de Rosh-ha-shana - Cabeça do ano ou simplesmente início do ano, festa do ano novo. Em seguida o povo celebrou a festa das cabanas(Ne. 8). Mas foi preciso passar à aplicação concreta da Lei: após o jejum da confissão dos pecados, decidiu-se pelo reenvio das mulheres estrangeiras”, o que foi feito clã por clã, com a supervisão dos chefes tradicionais(Esd. 9-10). Apesar de não termos mais informações nos textos bíblicos sobre o sucesso de Esdras como ministro de Estado encarregado das questões judaicas o que sab emos é a que, de fato, a Torá foi aceita nas províncias da Judéia e a importância dada à sua missão se faz perceber pelo lugar de honra que o Pentateuco no desenvolvimento da história, tanto na tradição judaica como samaritana.
O fim do período persa na terra de Israel resta obscuro. O contexto internacional evoluiu rapidametne e foi marcado pela revotla dos sátrapas do oeste com o apoio do Egito em 367. Esta revotla foi severamente punida. Contudo, em 332 Alexadre oo grande será o novo dono de toda a região.
Para a terra de Israel, a dominação persa pode ser considerada globalmente como um período de paz que trouxe uma crescente prosperidade como testemunham as descobertas arqueológicas. O território da Judéia obteve um crescimento demográfico bastante importante. Além do crescimento normal da população que havia ficado, as sucessivas vagas de volta dos exilados se juntaram à população local. Pelo status social e riqueza dos que voltaram, provavelmente se instalaram nas cidades e particularmente em Jerusalém e seus arredores. O recenseamento da província da Judéia relatados em Esd. 2,1 e Ne. 7,6 podem corresponder a um recenseamento real realizado no governo de Zorobabel. A partir dos nomes das cidades que são citadas, a província da Judéia não representava nada mais do que uma faixa de terra em volta de Jerusalém, depois de Jericó até Lod à oeste e Belém e Netofa ao sul, até Betel e Ai ao norte, com uma população de 50 mil habitantes.
Segundo Ne. 3,9.12-18, a província da Judéia era dividida em setores ou cantões que rebiam o nome de “pelek”e a escala administrativa superior, após Dario, era ligada à quinta satrápia Transeufratena ou Além Eufrates. As estampilhas aramaicas “yehud”, seguidas ou não do nome próprio, indicam os impostos “in natura ligados à arrecadação feita pela administração provincial. As estampilhas com o nome do governador indicam a parte de imposto reservada ao governador, “pão do governador. Se o governo persa era tolerante quanto aos costumes e práticas religiosas, no caso dos impostos era bastante inflexível. O governador de cada província devia enviar anualmente uma soma fixa ao governo central. Em troca, o tesouro nacional devia ajudar o financiamento de obras públicas, especialmente a reconstrução do Templo. Esta proteção do culto nacional reforçava o prestígio do sumo sacerdote de Jerusalém. Este, após o afastamento da dinastia davídica do cargo de governador, aparece como o único representante legitimo das tradições nacionais e seu papel político-religioso era reforçado pelas alianças matrimoniais com as famílais dos governadores das províncias vizinhas.
O aramaico era a língua oficial da administração persa nas províncias do Oeste, a escrita e a língua aramaica progrediram rapidamente na província da Judéia porque  a administração estava nas mãos dos exilados vindos da Babilônia, para os quais o aramaico já era a língua usual. As inscrições deste período encontrada pela arquologia são feitas em aramaico e uma escritura paleo hebraica, tanto na Judéia como na Samaria. No entanto, o hebraico continuava a ser falado nas aldeias pelo povo simples. E mais, o hebraico continuou a ser utilizado para a cópia dos textos antigos. Foi somente a partir da missão de Esdras em 398 e para facilitar a leitura da Lei aos funcionários do Império Persa que se começou a utilizar a escritura aramaica para copiar textos bíblicos, escritos que se chamarão mais tarde de “hebraico quadrado”.
A diferença linguística recobre em parte uma diferença de classe social. Os repatriados, mais ou menos aramaizados, desprezavam e por vezes exploravam o povo simples que havia ficado no país(cf. Ne. 5,15) bem como a população samaritana suspeita, por ser de origem mestiça. Estas tensões sociais foram particularmente vivas durante o governo de Neemias. Entretanto a oposição entre judeus e samaritanos nesta época não deve ser exagerada: tanto quanto as cartas de Elefantina como a adoção do Pentateuco como lei na província de Samaria mostram que as duas populações tinham o sentimento nítido de fazer parte da mesma comunidade étnica religiosa, a obediência à mesma Lei, ajuntava-se de agora em diante ao critério de pertença a um clã ou tribo israelita.
Apesar do grande número de exilados que voltou, sabemos que um importante número de judeus permaneceu na Babilônia onde ocupavam cargos e funções administrativas e econômicas. A missão de Esdras e Neemias mostra bem que certos judeus ocupavam altas funções na corte persa sem conrtar as relações com aterra de origem. Não é de admirar que a Babilônia será o local em que se realizará a fusão das diversas tradições do Pentateuco numa só tradição, a Torá, que assegurou a unidade e identidade do povo judeu na diáspora e na terra de Israel no decorrer de toda a sua história.
Além da Babilônia, o Egito foi uma das regiões que reuniu o maior número de exilados(Is. 19,16-25), em particulare no baixo Egito. Durante a dominação grega uma importante comunidade judaica irá se desenvolver em Alexandria. Para o alto Egito temos o testemunho da comunidade de mercenários judeus de elefantina atestada pelos papiros e ostracas do V século(514-398), falando dos problemas ocncretos do cotidiano: alimentação, compra, venda, casameno, divórcio,etc... No “tempo dos reis do Egito”(VI século) esta comunidade cosntruiu um templo dedic ado a Yahô no qual eram celebrados sacrifícios. Em 410, este templo foi saqueado e destruído pelos egípcios, foi então que a comunidade escreveu aos governadore da Judéia e da Samaria para lhes pedir apoioe estes responderam favoravelmente. Eles especificaram que doravane eles não ofereceriam mais incenso e sacrifícios neste tremplo. Provavelmente por serem estes reservados ao Templo de Jersualém.
A importância das comunidades judaicas na Babilônia e no Egito não nos devem fazer esquecer os outros judeus dispersos um pouco em toda parte do Império como faz ver Abdias 20 e provavelmente na Arábia do norte como atestam as inscrições arqueológicas destes lugares.


NB:Tradução livre feita por Ir. Judite Paulina Mayer nds, do livro de André LEMAIRE Histoire du peuple hébreu Paris: Presses universitaires, 1981, p. 70-79.                                                                                                        Fevereiro - 2007