segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ATOS DOS APÓSTOLOS

1ª Aula (08/02/2010)

Ementa:
O curso oferece uma introdução ao estudo do texto a partir de uma interpretação da historia cultural das primeiras comunidades cristãs, prestando atenção à maneira como as práticas e representações religiosas são construidas sócio-culturalmente.

Conteudo Programático:

1- Uma preparação para o entendimento do livro de Atos como literatura religiosa
2- Introdução ao livro de Atos: autor, mensagem central, lugar, data, por que se escreve?
3- Estrutura do livro, chaves hermenêuticas.
4- Igreja de Jerusalém.
5- O sentido do Espirito Santo para as comunidades primitivas.
6- Comunidade depois do acontecimento de Pentecostes.
7- Afirmação e temores da comunidade.
8- Repressão e libertação miraculosa de Pedro.
9- Preparo para missão fora de Jerusalem.
10- Missão dos helenistas.
11- Confronto cultural
12- Concilio de Jerusalém.
13- Mulher, casa e familia.

Bibliografia:
CEBI. Comentários aos Atos dos Apostolos. São Paulo, Paulinas, 1983.
CEBI. No caminho das comunidades. Atos dos Apostolos (roteiros e subsídios para encontros, São Paulo, Paulus, 2000.
COMBLIN, J. Atos dos Apostolos. Vol. 1 e 2. Petrópolis, Vozes, 1988.
FABRIS, R. Atos dos Apostolos. São Paulo, Paulinas, 1984.
GOURGUES, M. Atos 1-12. missão e comunidade. caderno Biblico 49. São Paulo, Paulinas, 1980.
GOURGUES,M. Atos 13-28. Cadernos Bíblicos 60.
MOSCONI, L. Atos dos Apostolos. Como ser Igreja no inicio do terceiro milênio? São Paulo, Paulinas, 2001.
RIMER, I. R. Vida de las mujeres en la sociedad y en la iglesia. una exegésis feminista de los hechos de los apostoles. quito, centro verbo divino, 2001.
CENTRO DE ESTUDOS BÍBLICOS. Comentário aos Atos dos Apóstolos. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983. Col. Por trás das Palavras.
RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. 3ª ed.. São Paulo: Paulinas, 1999.
SARAVIA, Javier. O Caminho da Igreja segundo os Atos. São Paulo: Paulinas, 1990.
STORNIOLO, Ivo. Como ler os Atos dos Apóstolos: o caminho do Evangelho. São Paulo: Paulus, 1993. Série: “Como ler a Bíblia”


INTRODUÇÃO
1 - O momento histórico

Nos tempos da redação dos At (80-90) Roma domina a Palestina e todas as regiões circunvizinhas. Israel está sob o jugo romano desde 66 a.C.

O poder político era assim exercido na Palestina:
a) Sinédrio: conselho de judeus presidido pelo sumo sacerdote (papa judeu). Este governava religiosa e politicamente. Era assistido por 71 membros da nobreza e do sacerdócio. Resolvia assuntos internos.


b) Procurador (Judéia), reis vassalos (Galiléia e outros). Mantinham a ordem, proferiam sentenças capitais e cobravam tributo. Fora isto deixavam aos judeus resolver seus próprios assuntos, mas intervinham em épocas de crise, depunham sumo sacerdotes e nomeavam outros.

Devido à firmeza monoteísta dos judeus o todo-poderoso império romano teve de fazer concessões a eles:
a) Isenção do culto ao imperador.
b) Isenção do serviço militar.
c) Judeu não podia ser intimado a julgamento durante o sábado.
d) Os militares romanos não podiam usar insígnias com figuras proibidas para os judeus.
e) Os judeus podiam receber tributos para o templo.

Em síntese, o Império Romano tolerava o judaísmo como Religio Licita "religião lícita".
O povo estava insatisfeito e esperava a restauração da realeza de Israel (At 1,6). Alguns judeus se organizaram em lutas de resistência e levantes (66 d.C.). Roma reagiu violentamente, em 67 d.C matou 40 mil judeus.(este mesmo ano de 67 d.C é considerado ano da morte de Paulo). João de Giscala (67-68 d.C.) e Simão Bar Quiora (69) comandaram a resistência em Jerusalém. Em 70 Tito, general romano ataca Jerusalém arrasa tudo, cidade e templo. Os judeus se reorganizam nos anos 90 em Jâmnia a partir do farisaísmo, ou seja, o judaísmo rabínico.

2ª aula dia 22/02/10


2 - O livro dos Atos

O livro dos Atos foi escrito nos anos 80-90 e reflete o seguinte quadro:
a) A maioria dos apóstolos já estava morta.

b) Muitos pagãos aderiram à fé provocando crise de identidade.

c) O cristianismo começa a se distanciar do judaísmo.

d) Os judeus perseguem os cristãos, tachando-os de hereges e traidores. Os romanos os perseguem, vendo-os como subversivos. (revolucionários)

e) Alguns se perguntam: as comunidades cristãs são ainda a continuação do antigo povo escolhido (AT)? Outros questionam: as comunidades continuam a caminhada de Jesus?

O autor quer provar a fidelidade das comunidades a Jesus e ao AT, bem como contornar os problemas com judeus e romanos. O autor não é historiador, mas teólogo. Desta forma pinta um Paulo bem mais adocicado do que o real que se conhece pelas cartas. O autor quer legitimar a missão paulina, para isto apela a Pedro. Até o Pedro dos Atos é Paulino (prega aos gentios - comparar Atos 10 com Gl 2,7-10. Ele vincula suas comunidades paulinas com a comunidade de Jerusalém.

O autor do livro de Atos tem intenção específica; (não é livro histórico) é um livro de uma releitura da história. Escreveu a partir de seu ponto de vista. NÃO É UM RELATÓRIO. O que está se fazendo invisível? No que o autor quer que acreditemos? Não podemos nos deixar manipular pelas intenções do autor.

O livro de Atos dos Apóstolos
Como surgiu? Quem o escreveu? Para quem?

A bíblia não “apareceu”, mas foi constituída a partir de uma vivência dentro de uma História. Grupos de pessoas escreveram com intenção própria, com metas específicas. Elas nos passam suas experiências de vida dentro de sua história.

Para escrever Atos, seu autor fez uso da língua grega, esforçando-se para escrever bem, com qualidade (seu grego é dos melhores do Novo testamento). No seu estilo de narrar, o autor de Atos apresenta um vai e vem de episódios, uma historia dentro da outra, que dão muito dinamismo e dramaticidade ao texto. Assim, por exemplo, a primeira narrativa da conversão de Paulo está em Atos 9,1-14; mas Paulo já aparece na cena do martírio de Estevão em Atos 7,58 e 8,1.3.

Não podemos dizer com certeza que o autor de Atos tivesse sido companheiro de Paulo. Mas podemos afirmar com garantia total que o autor de Atos dos Apóstolos foi o mesmo que escreveu o terceiro evangelho: (Lucas, ou a mesma comunidade). A partir de agora diremos ter sido Lucas.
O autor não deu título à sua obra, apenas lhe dá um destinatário (At 1,1-2; Lc 1,1-4): Teófilo. Isto é comum na literatura grega da época, portanto, o destinatário são comunidades, não uma pessoa. O autor não assina, Desde o séc. II ele é atribuído a Lucas. Era comum atribuir livros a pessoas importantes.

Quem é Lucas?
Colossensses 4,14 = “Saúda-vos Lucas, o caríssimo médico, e Demas”.
Atos 16, 10-17 = era companheiro de Paulo em suas missões.

Lucas escreve após a destruição do templo (ano 70 d.C.). Escreve para comunidades paulinas uns 10 ou 20 anos após a morte de Paulo. Sua mensagem é que Jesus é o LIBERTADOR.. Escreve numa comunidade que depois de uns 30 anos da morte de Jesus, vive a sua realidade. Lucas sente que a comunidade está fria e não vive a realidade JESUS. Tenta reanima-la com seus escritos.
O lugar de onde Lucas escreve, não está especificado. Sabemos que foi dentro do Império Romano.

O título não faz jus ao conteúdo, pois não conta os atos dos apóstolos, mas somente os de Pedro e os de Paulo. Deveria se chamar corretamente de Atos de Paulo, pois tudo gira em volta dele. O que vem antes prepara o caminho de Paulo.

Três linhas dentro de Atos:

• Aspecto histórico – muitos conflitos. Lucas quer mostrar a continuidade de uma comunidade.

• A espiritualidade é a mesma que o povo de Israel tinha. É uma continuidade.

• Continuidade do mesmo Cristo do antigo Testamento. É o mesmo motivo que animou outras comunidades anteriores. São raízes comuns, espiritualidade comum.

Chaves de leitura
1- Ler a partir do Espírito Santo.
2- Ler a partir da Perspectiva da MISSÃO (até os confins da terra).
3- Ler a partir das pequenas comunidades – a casa – o templo era da comunidade judaica.
4- Ler a partir da inter-culturalidade.
5- A partir das mulheres.
6- Dimensão sócio-político

Os principais problemas que ele enfrenta, são:

a) O desafio da comunidade de mesa

Nas comunidades cristãs conviviam cristãos-judeus e não-judeus (Prosélitos e tementes a Deus). Os judeus não podem aceitar que pagãos sentem com eles à mesa para a refeição ou eucaristia (At 11,1ss; 15,19ss). Até Pedro é vítima deste preconceito (At 10,16-18.28; Gl 2,11-14). Lc, para resolver este problema que diminuía os pagãos, vendo ameaçado seu espírito missionário, mostra que Paulo comia com os pagãos: Lídia (16,14-15), carcereiro (16,34), Justo (18,6b), no navio (27,33-38). Até Pedro já comia com eles (10,16ss; 11,1ss). No entanto, At 10,16ss; 11,1ss e 15,7ss não combinam bem com Gl 2,1-14. Se Paulo é acusado de ter introduzido pagãos no templo (21,29), Lc o defende dizendo que isto já Pedro e Tiago o permitiram antes dele (At 10;11;15,20.29). Lc faz com que a prática de Paulo seja legitimada por Pedro e Tiago.
Os At se referem muito aos prosélitos e adoradores de Deus (ver Bíblia de Jerusalém, nota a At 2,11). Estes se sentiam excluídos do templo e do convívio com os judeus.
Agora, no cristianismo, se verificava o mesmo. Lc que também é prosélito quer resolver este problema, obstáculo da evangelização.


b) Judeus se distanciando de Israel
Os cristãos vindos do judaísmo se sentem expulsos das sinagogas. Não conseguem conciliar judaísmo e cristianismo.
Depois da tragédia de 70 os judeus (fariseus) se reorganizam em Jâmnia, uma cidadezinha a 50 quilômetros de Jerusalém. O centro da vida religiosa será, de agora em diante, não mais o templo nem as funções sacerdotais, mas a Tora escrita e sua interpretação oral. Acentua-se desta forma a ortodoxia e os Judeus pressionam os cristãos a voltarem ou seriam traidores. Lucas quer encorajar estes cristãos judeus. Os traidores do AT são os chefes de Israel, os doutores e sacerdotes e não Jesus e seus seguidores.
Ele pinta negativamente os líderes judeus. Neste tempo a igreja está em fase de transição. Já não é bem judaísmo, mas também ainda não tem estrutura de igreja. Quase só se fala da fundação das igrejas, mas nunca de sua estrutura.
Tem resquício de Israel (Os Doze), mas já tem estrutura helênica (Os sete At 6, e os cinco At 13).

c) Os gregos e sua fidelidade ao Império
Muitos funcionários do Império aderiram à fé. Será possível ser fiel a Jesus e ao Império? Como aderir a Jesus e ter Paulo por missionário importante se os dois foram eliminados pelo Império? Lucas é muito simpático ao Império Romano.
Assim ele sempre empurra a culpa pela morte de Jesus e de Paulo aos chefes dos judeus, enquanto os romanos são bonzinhos (Lc 23,22; At 3,13), o centurião romano reconhece que Jesus é justo (Lc 23,47), os chefes romanos protegem a Paulo (13,13; 16,30-34; 18,16). Paulo é perseguido pelos judeus e salvo pelos romanos (21,27ss; 23,10ss; 24,25; 26,31s). Os culpados sempre são os judeus. Lc nem sequer menciona o martírio de Pedro e Paulo em Roma, pois quer atrair as benesses do Império.

d) Convivência de ricos e pobres
Nas comunidades lucanas convivem ricos e pobres. No mundo grego isto era inimaginável. Havia os bem ricos e os quase mendigos (+ de 50% são escravos). Lc mostra a convivência
(2,42ss; 4,32ss e 5,12ss), insiste em acabar com a escravidão ao dinheiro (Lc 3,13s; 12,33; 14,14). Em At o dinheiro é visto de forma negativa (Judas 1,18; Ananias e Safira 5,1-11; Simão, o mago 8,20; Os amos da moça possuída 16,19; o lucro dos ourives 19,24). Os apóstolos não têm dinheiro (3,5), Paulo não quer prata (20,33). Lc tem mensagem concreta para os pobres: Magnificat (Lc 1,46-55), Discurso inaugural em Nazaré (Lc 4,18) e na parábola do banquete (Lc 14,12-24). At realiza este programa do Magnificat e do discurso de Nazaré nas comunidades de Jerusalém. Não há necessitados entre eles.

Conclusão
Em meio a todos estes problemas, Lc quer mostrar que a Palavra de Jesus, movida pelo Espírito Santo, avança. O número de fiéis aumenta (2,41.47; 6,7, etc. Se o evangelho de Lc é o livro de Jesus, o dos At é o livro do Espírito Santo.
O Espírito produz a Palavra (2,4.17; 4,31; 19,6). Existem muitos obstáculos, mas a Palavra vence.

2.2 - Período de transição
At reflete um período em que a Igreja ainda não é bem definida, mas já se distingue do judaísmo. Ela quer ser o verdadeiro Israel, não se pensa como separação do judaísmo, mas pensa que o judaísmo se separou da antiga tradição. Não tem ainda estrutura formada, tudo é muito carismático. O livro fala muito da fundação das comunidades, mas pouco de sua estrutura. O fato de colocar a base da Igreja em Jerusalém (At 1-5) mostra que o cordão umbilical da Igreja não está totalmente cortado.
"A obra de Lucas aparece como representando uma fase de transição entre dois estados sociológicos. O ponto de partida é um cristianismo que constitui apenas um movimento religioso dentro do judaísmo, não muito diferente do partido dos fariseus, dos essênios, dos zelotes, dos saduceus."
2.3 - O projeto de Lucas
Lucas quer animar comunidades paulinas dos anos 80-90 onde o evangelho foi anunciado a judeus e a pagãos (tarefa de Paulo). Os judeus olham com desprezo para Paulo (morto há
uns 20 anos) por ter misturado tudo. Lc quer justificar Paulo, por isto ele olha para trás e escreve os At. Ou melhor, Lc escreve os atos de Paulo (At 13-28) justificando os pelo Espírito Santo. Paulo anunciou o evangelho aos pagãos movido pelo Espírito Santo. Para justificar melhor a atitude de Paulo, ele escreve os capítulos 1-12 como preparação à missão de Paulo. Assim, em 1-5 temos a comunidade referência, de Jerusalém (comunidade ideal que mais reflete os desejos das comunidades lucanas dos anos 80 do que as comunidades de Jerusalém), temos em 6-8 um novo modelo de igreja emergente (helenista) e a partir de então Pedro é o preparador do caminho de Paulo. Pedro vai aos pagãos (10).
Os apóstolos legitimam a missão (15). Isto na prática não foi bem assim.

Lucas não conheceu bem a Palestina, o judaísmo nem a teologia de Paulo. Muito do que diz sobre Paulo não concorda com o Paulo das cartas. Pinta um Paulo bastante adocicado, bem diferente do auto-retrato que Paulo faz nas epístolas. Conhece a LXX. Conhece bem o mundo grego e romano. Despreza a religião popular grega como magia e idolatria.
Fala muito de prosélitos (2,11; 6,5; 13,43 etc. Alguns têm destaque: Nicolau (6,5), Cornélio (10), Lídia (16,14), Justo (18,7). Cita também muitas mulheres que têm papel importante (1,14; 2,17; 12,12; 21,9).
Lucas reflete missionários carismáticos ambulantes (At 13,1-5) que andam de cidade em cidade anunciando o evangelho, igualmente a Paulo. Tempo em que ainda não se tem muitos líderes locais.


2.4 - Estrutura literária.

• Introdução 1,1-11

• I - Jerusalém, comunidade de referência 1,12-7,60
- Os Doze (judaica) 1,12-5,42
- Os Sete (helenista) 6,1-7,60

• II - Rumo a Antioquia, abertura aos pagãos 8,1-15,35
- De Jerusalém a Antioquia 8,1- 12,25
- Antioquia inaugura a missão 13,1-15,35

• III - A grande Missão de Paulo 15,36-19,20

• IV - O Processo de Paulo 19,21-28,31
- Viagem para Jerusalém 19,21-21-14
- Jerusalém 21,15-26,32
- Roma 27,1-28,31

Não é livro histórico, mas nos Atos temos algumas informações Históricas, sociológicas, antropológicas e religiosas.

A ênfase é a missão fora de Jerusalém (da nova Igreja). (grandes figuras; Paulo, Pedro, Silas, mas de outras pessoas menores (figurinhas) que são de muita importância. Estes pequenos nos dão chaves importantes.

PONTOS CHAVES

Atos 1,1-11 nos apresentam:
• Conexão com o Evangelho
• Dedicação (Teófilo)
• Ascensão + Ressurreição = manifestação Histórica
• Presença do Espírito Santo.

1, 12 = Reunião dos discípulos
1, 15 = Eleição de Matias.

O prólogo 1,1-11

At 1,1-11 repete Lc 24,13-53 em perspectiva diferente:
Lc 24 é coroamento At 1 é abertura, portanto, há diferenças, já que não é história. Inicia-se nova fase da missão, a fase do Espírito Santo. No início da missão de Jesus está o batismo de João, no início da missão dos apóstolos está o batismo do Espírito, pois ele é, doravante o movedor da missão. A missão parte de Jerusalém (Mt 28,16ss e Mc 16,7 relatam estes acontecimentos na Galiléia). Com isto Lc quer ligar a missão de suas comunidades (anos 80) com Jesus e com o AT. Lc sempre parte de Jerusalém (apresentação do menino no templo: Lc 2,22sss; o menino entre os doutores: Lc 2,41ss; a tentação é em Jerusalém: Lc 4,9). Isto tudo indica que Jesus continua o Antigo Testamento. Também a missão dos apóstolos, movida pelo Espírito Santo, parte de Jerusalém, pois continua Jesus e o AT. De lá vai para os confins. Pode-se dizer, Lc 1-2 coloca Jesus em continuidade com Israel.
At 1,1-11 coloca as comunidades em continuação com Jesus.

Síntese:
A ascensão não é fato histórico na maneira atual de entender. É testemunho de que Jesus está vivo, que sua obra continua nos apóstolos movidos pelo Espírito Santo. Os cristãos das comunidades lucanas se espelham neste relato:
Vêem Jesus vivo, mas não podem esperar dele uma ação mágica de instauração do Reino, nem devem imaginar que agora está tudo perdido, pois Jesus já não está fisicamente presente. Tudo o que se esperava desde o AT se realiza em Jesus, mas agora são os cristãos, movidos pelo ES que farão o que Jesus fazia. A realeza (v.6-8) não cairá do céu, mas os discípulos, movidos pelo ES o anunciarão até os confins da terra. A ascensão é um marco, um relato, um mito que quer mostrar que Jesus é muito mais que um homem comum.

No Atos mostra que não temos Jesus, mas temos o Espírito Santo, o enviado. Lucas é o que mais fala do Espírito Santo (51) vezes.

Os v.6-8 são como o programa de todo livro dos At. A missão sai de Jerusalém e se expande até os confins do mundo.
Os v.9-11 representam o espaço de ação dos discípulos, isto é, entre a subida e a volta de Jesus.


3ª Aula (01/03/2010)


I - PRIMEIRA PARTE - JERUSALÉM (At 1-7)
A primeira parte se divide em dois blocos:

1 - Os apóstolos (1,12-5,42)
2 - Os Sete ou os helenistas (6-7).


1 - OS APÓSTOLOS (1,12-5,42).
Neste bloco, antes de se ver um retrato da comunidade de Jerusalém, deve-se ver os sonhos das comunidades lucanas.
Jerusalém, que nos anos da redação (80) já não existe mais como centro do judaísmo, é idealizada e se torna a experiência fundante para as igrejas lucanas.
• "Em primeiro lugar temos aqui uma utopia, uma visão de sociedade humana projetada como um ideal, uma meta."
Jerusalém é o ponto de referência para todas as igrejas, ela é sinal de continuidade e por isto também modelo.

a) koinonia /koinonia "mesa comum" (partilha). A comunidade de Jerusalém, idealizada, realiza Lc 1,46ss; 4,18; 6,20-21. At 1-5 é crítica a todos os modelos econômicos, mas principalmente uma crítica as comunidades lucanas que esqueceram a partilha. É uma reatualização do jubileu: redistribuição.

b) A comunidade de Jerusalém (idealizada) é fermento. Seus membros são poucos, mas despertam entusiasmo (2,47; 3,9-10, etc.). Estão no meio do povo, não separados.

c) Seu testemunho se expressa em sinais. Eles anunciam o nome de Jesus. Testemunham a paixão, morte e ressurreição e ascensão. Os fenômenos carismáticos são a materialização da ação do Espírito Santo. São a cobertura da missão e não satisfação pessoal.

d) A comunidade de Jerusalém e os Doze são paradigmas da firmeza nas perseguições. O conflito é entre os cristãos e os judeus. Os chefes judeus estão errados, pois mataram Jesus, o povo adere.

1.1 - Os Doze esperando em Jerusalém 1,12-26
Os destinatários deste texto são os fiéis lucanos e não os de Jerusalém. Lc quer animar seus fiéis, por isto, em Jerusalém são mencionados os Doze. O discurso de Pedro (v.16-22) é claramente para os lucanos. Para Jerusalém ele não precisaria dizer o caso de Judas nem mesmo explicar o termo hacéldama "na língua deles, campo de sangue".
Por que Lc faz este relato? Ele tem a resolver dois problemas comunitários do seu tempo:

a) A tradição:
Com a morte dos apóstolos surgem novos missionários que deturpam a mensagem de Jesus. Lc quer colocar balizas. Então, a igreja de Jerusalém se torna a referência. Lá estão os Doze, eles têm autoridade para definir, pois eles testemunharam "Desde o batismo de João
até o dia em que foi levado ao céu" (At 1,22). Mais tarde também Paulo precisa do aval deles (At 15). A igreja de Jerusalém (dos Doze) será norma para todas as demais. Só ela tem autoridade, pois os Doze são testemunhas oculares. Se bem que nenhum deles esteve com Jesus desde o batismo de João até a ascensão, pois ele os chamou mais tarde e, ainda mais, Matias não podia ter estado com eles, pois os evangelhos nos dizem que Jesus levou os Doze a um lugar afastado e os instruiu.

b) Sucessão apostólica (At 20,17-38):
Nas comunidades lucanas surge a necessidade da institucionalização. Os líderes carismáticos e ambulantes como Pedro e Paulo desapareceram e as comunidades cresceram muito e não podem depender sempre de líderes itinerantes. Formam-se líderes locais (anciãos = presbíteros). Estes devem ser confirmados pelos Doze. Por isto Lc dá tanta ênfase aos Doze e aos anciãos de Jerusalém, formando um conselho (At 15,2ss). Os anciãos (presbíteros) receberam sua missão dos Doze.

Conclusão:
Percebe-se a intenção de Lc que quer prevenir os membros de suas comunidades:
• Caminhada de um sábado (1 v.12) = O cristianismo se enquadra no judaísmo.
• Piso superior = lugar preferido dos rabinos (1Rs 17,19s).
• 120 pessoas = 10 por apóstolo lembra Ex 18,21.
• Pedro = tem papel preponderante, é o cabeça.
• O testemunho ocular = luta contra a gnose ou uma religião apenas espiritual.
• Matias = reflete as eleições dos tempos lucanos.
Para Lc os quesitos do apostolo são: testemunha ocular de Jesus, da ressurreição, escolhido por Jesus (sorte) e que tenha recebido o Espírito Santo.


4ª Aula (08/03/2010)
O ESPÍRITO SANTO
Pentecostes, ou “festa das semanas”, (Dt 16,9-12) era a festa judaica que acontecia cinqüenta dias após a Páscoa e comemorava o término da colheita dos cereais (Ex 34,22; Nm 28,26). Depois do exílio (acontecido no ano de 587 a.C), na medida em que cada vez menos judeus trabalhavam a terra, começou-se a celebrar Pentecostes como sendo a celebração da Aliança e da doação por Deus da Lei a Moisés no Monte Sinai.

• Colocando o dom do Espírito em Pentecostes, Lucas sugere a plenitude da aliança, não mais com o dom da Lei, mas com o dom do Espírito, que faz compreender em profundidade a vontade de Deus, o seu projeto. Cumpre-se assim, o que os profetas anunciavam: não mais um lei escrita, mas uma lei interiorizada, o próprio Espírito de Deus, capaz de produzir transformações radicais e levar à vida plena (Jr 31,31-34; Ex 36,25-28).
O Espírito, sinal de vida:

Gn 6, 17 = “Eis que vou fazer cair o dilúvio sobre a terra, uma inundação que exterminará todo o ser que tenha sopro de vida debaixo do céu. Tudo que está sobre a terra morrerá”.

Ecle 3, 21= “Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?” (12,7= “Antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu.”). (Is 42,5 = “Eis o que diz o senhor Deus que criou os céus e os desdobrou, que firmou a terra e toda a sua vegetação, que dá respiração a seus habitantes, e o sopro vital àqueles que pisam o solo”). (Jó 34, 14s = Se lhe retomasse o sopro, toda carne expiraria no mesmo instante, o homem voltaria ao pó”). (Sl 103, 29s = “Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram. Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra”). (a doutrina da imortalidade da alma só aparece claramente no livro da Sabedoria, ou seja, um século, pelo menos, depois da redação do Eclesiastes).

TERCEIRA PESSOA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Mt.28,19 = “Ide, pois ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

PROCEDE DO PAI

Jo 15, 26 = “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, o qual procede do Pai, dará testemunho de mim”.

ENVIADO DO PAI PARA QUE PERMANEÇA ENTRE OS DISCÍPULOS

Jo 14, 16 = “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco”.

Jo 16, 13 = “Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciar-vos-á as coisas que virão”.

Jo 20, 22 = “Depois destas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes:Recebei o Espírito Santo”.

Conhece tudo

I Cor 2, 10 = “Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus”

DARÁ TESTEMUNHO DE CRISTO

Jo 14, 26 = “disse-vos estas coisas enquanto estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito”.

É O ESPÍRITO QUE CONSTITUI E SANTIFICA A IGREJA

At 2 = “Ficaram todos cheios do Espírito Santo – profetizarão vossos filhos e vossas filhas. – vosso jovens terão visões – os anciãos sonharão – naqueles dias derramarei meu Espírito e profetizarão.



Espírito Santo = hebraico - Ruah = força, vento, aquilo que não se pega mas que age. Em outras passagens temos o significado de sopro, ar, vento ou força, vida.

No grego = Pneuma = nos séculos 1 e 2 o pensar popular era muito forte o raciocínio sobre os “espíritos” e o Espírito Santo foi bem aceito. Era o contexto histórico próprio para todos os espíritos, tanto bons como maus. Lucas se firma neste modo de pensar e fala abundantemente sobre o Espírito Santo.

Antes de Pentecostes:

• Quando vai acontecer a restauração do Reino de Israel? (Esperam a vinda do Messias e seu Reinado). A mentalidade é a volta do Reino de Davi e o de Salomão. – quando Jesus é questionado, ele desconversa e escapa da resposta – não compete a mim, mas a meu Pai.

• A questão da inatividade do grupo. Ver versículos 8-11 – (olham para o céu) = inativos.

• Reunião dos Discípulos/as (o movimento de Jesus com a participação das mulheres que eram, nessa época, excluídas. Mesmo assim elas não participam da eleição. (O texto colocou antes, pois o Pentecostes é uma renovação, uma mudança). Os discípulos não estão agindo conforme Jesus. “Esperem o Espírito Santo”. Ele critica, o autor, a mentalidade desses discípulos.


Para começar, vamos ler At 2, 1-13
A narrativa da vinda do Espírito Santo é muito simples. Estão presentes os seguidores de Jesus: não somente os apóstolos, mais os discípulos em número de 120, as mulheres e os parentes de Jesus. Ha uma típica teofania, um típico sinal da manifestação de Deus. Estão presentes os sinais teofânicos: o barulho, o fogo e o vento. Isso quer significar que quem está agindo é o próprio Deus. Em outras palavras, “o dinamismo da palavra e da ação dos cristãos não vem deles mesmo, mas do próprio Deus e de Jesus”.

O Espírito se manifesta simbolicamente como “línguas de fogo”.
Neste capítulo II vemos que também estão reunidos em uma CASA (novo espaço de reunião, de convivência).

Já não é o espaço do templo, mas uma Casa. As grandes maravilhas já não acontecem somente no templo.

Lucas quer animar a comunidade. Há pessoas de diferentes nações e línguas (12 povos). 12 povos significam todos os povos.

Todos falam e se entendem. O Espírito Santo é para todos os Povos. Com este Espírito todos se entendem.

Veja a diferença em Gn. 11, 1-9 = a Torre de Babel. É uma oposição ao fato de Atos 2.

Cada um fala em sua própria língua e todos se entendem.

O novo Pentecostes é uma Babel ao contrário. Em Babel, um espírito contrário ao projeto de Deus acabou planejando a construção idolátrica com a conseqüente dispersão dos homens. Em Pentecostes, o Espírito Santo protagoniza um projeto que é capaz de unir a todos.

Pentecostes não é só uma vez. São experiências que acontecem dentro da comunidade. E lá também acontece o Pentecostes. – ver Atos 4, 31 //10, 44-48 //19,1-7.
Pentecostes é a festa das Universalidades. Cada grupo entende em sua própria língua. Nas diferenças o povo se entende. Lucas Oferece um exemplo de como todos os povos podem se entender. É um exemplo forte desta proposta, onde todos se entendem. Cada um pode respeitar as culturas diferentes, línguas diferentes e se entender. O livro de Atos, mostra em Lucas esta mensagem de compreensão entre os povos. As diferenças têm que serem respeitadas.

Para conversar:

1-Como os judeus "recebiam" a dominação romana e a cultura do helenismo?
2-Qual era a idéia de Reino de Deus que Jesus anunciava?
3-Como era exercida a autoridade dentro da comunidade judaica?
4-Que fatores influenciaram no rompimento entre cristãos e judeus?
5-Quais são as afirmações fundamentais do querigma cristão primitivo?
6-Que significa dizer que os evangelhos não são historia de Jesus?
7-Em que sentido o livro de Atos dos Apostolos é "evangelho de Jesus Cristo?
8-Qual o sentido dos "40 dias" e dos "Doze Apóstolos", no inicio do livro de Atos?
9-Quais são os Pilares da vida em comunidade? segundo Atos 2,42-47
Obs: Não é necessário entregar as respostas destas perguntas, entretanto pode ser matéria de prova.
Resposta às questões levantadas.1ª. a mentalidade grega tinha invadido tudo; a vida familiar, o nome das pessoas, os costumes, os valores, a lingua, a politica. Estar dentro desse espirito da cultura grega era questão de não sentir-se excluido da sociedade. Helenizar-se significava ser cidadão do mundo. Muitos recebiam este jeito de colonizar dos gregos de braços abertos. O imperio romano fez questão de manter vivo e difundir ainda mais o espirito da cultura grega. Os judeus possuiam uma antiga tradição religiosa, cujas raízes brotavam dos Patriarcas e Profetas. Sobre essa tradição, estava constituida a identidade do judaismo como nação que se considerava “povo eleito” ou povo de Deus. A situação politica internacional ameaçava essa identidade. Por isso, enfrentar os romanos, expulsá-los de sua terra, não pagar o tributo ao imperador era o que queriam os judeus.

2ª Jesus falou e mostrou um Reino de Deus que é dos simples, dos pobres, dos pequenos. Jesus radicalmente se tornou um deles; renunciou a ter casa, riquezas e propriedades, renunciou até mesmo a ter familia. Jesus nunca definiu o que é o reino de Deus, falou dele com a vida, toda a vida de Jesus por, si, era sinal mais evidente de que o Reino de Deus estava aí, proximo, presente. Jesus encarnava o projeto de Deus, o modo de Deus agir, o Espirito de Deus.

3ª No tempo de Jesus, a autoridade era exercida pela família dos herodes e pelos procuradores romanos. Mas dentro do judaismo havia também instituições, grupos e partidos que exerciam, cada qual a seu modo, a autoridade perante a comunidade.

A medida que se espalhava por toda parte, o movimento dos seguidores de jesus ia também demarcando sua própria identidade e rompendo com suas raizes judaicas. Ai pelos anos 40, já eram chamados de “cristãos” (cf Atos 11,26). Um acontecimento dramático para a comunidade judaica da Palestina acabou, indiretamente, jogando mais lenha no processo desse rompimento: a gerra judaica contra os romanos. Grupos de judeus nacionalistas começaram, pelo ano 66, um movimento de guerrilha contra a dominação romana. Despreparados e sem o apoio de boa parcela da população, os judeus levaram a pior. No ano 70, o exercito romano tomou a capital Jerusalem, destruiu o templo,matou, escravizou e dispersou os rebeldes. Os seguidores de Jesus não aderiram a luta contra os romanos. Isso levou os judeus a se reorganizarem na cidade de YAVINE (jamnia), fechando-se no rigorismo da Lei farisaica, foi aí então que se deu o rompimento entre os judeus fariseus e os judeus cristãos.

5ª R. o querigma cristão primitivo testemunhava basicamente que:



Jesus, judeu, era um enviado de Deus para libertar o homem de todo jugo;
Foi, no entanto, condenado à morte pelos chefes de seu povo;
Deus, todavia, o reconduziu da morte à gloria; de pedra rejeitada tornou-se pedra angular;
Isso fazia parte dos planos divinos, conforme se podia ler na Lei e nos Profetas, as escrituras judaicas;
Ele voltaria para julgar e restaurar o mundo, na linha de um Reino de Deus definitivo;
Tudo isso, finalmente constituia um convite e um desafio a associar-se no Espírito de Jesus, batizando-se em seu nome.
Esse nucleo central da fé cristã nasceu na forma de uma proclamação oral e foi preservado no culto e em outras reuniões comunitárias, ainda antes de os cristãos romperem com o judaismo.


6ª Que significa dizer que os evangelhos não são historia de Jesus?


Os evangelhos nasceram como resposta aos desafios que as comunidades viviam. Certamente podemos encontrar nos evangelhos informações de valor histórico sobre a vida de Jesus e o contexto em que ele viveu. Mas os evangelhos não são a historia de Jesus. Não são a biografia de Jesus, real ou fictícia. Também não são escritos éticos ou edificantes, que buscam em Jesus um modelo a ser imitado. Os evangelhos são antes de tudo, um testemunho cristão. Nasceram interessados não simplesmente no passado histórico do mestre de Nazaré, mas no sentido que a vida e a morte daquele homem tinha para o momento presente da comunidade.


As comunidades cristãs daquele tempo não se perguntavam: quem foi Jesus? Mas: quem é Jesus para nós? Olhar para Jesus era o jeito de a comunidade encontrar respostas para si mesma, para seus próprios desafios, no seu presente.


7ª Em que sentido o livro de Atos dos Apostolos é "evangelho de Jesus Cristo?
Os evangelhos foram elaborados a partir da organização ou montagem de documentos mais antigos e soltos. Lá na raiz desses documentos fragmentários estava o anuncio oral sobre Jesus. Antes, pois, de existirem os quatro evangelhos, já existia o evangelho único de Jesus Cristo, a sua boa nova, a centralidade de sua pessoa. É por isso que costumamos dizer: evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, ou Lucas, etc... A palavra “evangelho” refere-se, portanto, a mensagem de Jesus e ao texto escrito. Quando, por exemplo, dizemos “evangelho de Lucas”, estamos nos referindo ao texto escrito elaborado por Lucas. O que está na base desse escrito, contudo, é sempre o evangelho de Jesus Cristo.


8ª Qual o sentido dos "40 dias" e dos "Doze Apóstolos", no inicio do livro de Atos?
Na Bíblia, o numero 40 está quase sempre relacionado com a idéia de preparação para o novo. Assim:
Os 40 anos no deserto preparam a novidade da terra prometida;
Moisés fica com Deus na montanha 40 dias e 40 noites, antes de dar as palavras da alinça ao povo (Ex 34,27-28);
Durante 40 dias o dilúvio se abate sobre a terra, para que a criação de Deus seja renovada (Gn 7,12);
40 dias é o tempo do jejum e da tentação de Jesus antes que comece a anunciar o Reino de Deus (Mc 1,12-13);
Entre os mestres judeus, 40 dias era o tempo minimo para a iniciação dos discipulos.
O numero 40 simboliza, pois, a idéia de estágio que antecede o irrompimento do novo. Nessa linha, em Atos dos Apostolos, a afirmação de que o ressuscitado aparece aos apostolos durante 40 dias sugere a idéia de preparação para a missão, que se iniciará com a vinda do Espírito Santo.

9ª Quais são os Pilares da vida em comunidade? segundo Atos 2,42-47


1º pilar: Perseverança no ensinamento dos apóstolos.
2º pilar: Comunhão fraterna.
3º pilar: Fração do pão.
4º pilar: A oração.


Seminário em grupos:

1- Dividir a sala em 3 grupos de trabalho
2- Cada grupo de trabalho aprofundará um estudo sobre determinado partido (grupos religiosos e sociais), no tempo de Jesus
3- Uma fez feito o estudo, cada grupo apresentará o resultado em sala de aula (tempo de apresentação: 20 minutos)
4- Antes da apresentação, entregar ao professor um resumo da mesma com os nomes dos participantes do grupo.
5- A nota do grupo (que pode ser de 0 a 10), dependerá da participação de todos os membros na explanação do tema

Grupos religiosos e sociais

Ao lermos o Evangelho deparamos continuamente com vários grupos religiosos com os quais Jesus entra em conflito. Entre eles sobressaem os fariseus, os saduceus e os escribas, mas é preciso, contarmos também com os essénios, herodianos, baptistas, samaritanos e zelotas. Este estudo dos grupos religiosos ajudam-nos a perceber, pelo confronto e polémica gerados, a própria pessoa que é Jesus de Nazaré.

Este estudo dos diferentes grupos religiosos e sociais (que frequentemente tinham conotações políticas) é um elemento essencial da história do povo bíblico. É difícil dizer, em cada caso concreto, se foi a motivação religiosa ou política que foi a força inicial que confirmou um determinado grupo. Para entender esta dificuldade temos de saber, desde logo, que para Israel e para Judá o político e o religioso não são mais do que aspectos diferentes da mesma realidade.

Apesar de não se saber ao certo quando é que os fariseus apareceram, sabe-se que estão ligados aos Macabeus e Asmoneus, por volta do ano de 173 a.C. A decisão de Simão Macabeu se auto-nomear, em 142 a.C., Rei e Sumo Sacerdote teve consequências graves junto dos judeus crentes. Por isso, no princípio, os fariseus eram apenas um movimento piedoso que protesta contra a mundanização profana do sacerdócio e monarquia dos Asmoneus.

Os fariseus são «santos» (o sentido etimológico da palavra ‘fariseu’ é «separar» que tem origem na palavra hebraica parash) separaram-se dos Asmoneus, julgados infiéis. Índigos sobretudo por causa do sangue que, necessariamente, derramavam nas suas guerras contra os inimigos. Desta maneira tornavam-se impuros perante a Lei e não podiam, de modo nenhum, exercer a função de Sumo Sacerdote.

Assim, os fariseus são pessoas piedosas que vivem dependentes do cumprimento escrupuloso da Lei (até aos mínimos detalhes). Foi precisamente este formalismo que Jesus não se cansou de denunciar (Mt. 23). Nesta perspectiva religiosa foi um grupo radical. Viviam entre as pessoas (enquanto os essénios se refugiaram na comunidade de Qumrân) e acabaram por se tornar numa espécie de ‘directores de consciência moral’.
Politicamente foi um grupo oportunista, pelo menos no tempo de Jesus, quando aceitaram serem fiéis ao Imperador Augusto, por imposição de Herodes Magno. Foi assim que perderam bastante da sua autoridade moral e política junto do povo. Só depois do ano de 70, após a derrocada de Jerusalém, e terminado o poder dos saduceus e dos sacerdotes, é que os fariseus voltaram a dominar o mundo judaico e a salvar Israel de perder a sua identidade religiosa, em confronto com algumas das primeiras comunidades cristãs.

Os Saduceus são um grupo dentro do judaísmo. Apesar de, por vezes, se designar o «partido dos saduceus» não podemos considerar tanto um grupo político mas muito mais religioso. Não sabemos desde quando existe esse grupo, sendo que a sua origem está no período persa ou helenístico (536-170 a.C). O nome dos saduceus deriva de Sadoq, (não da palavra saddîq que significa o justo como muitos pensavam) referindo-se provavelmente a Sadoq que, junto com Abiatar (2 Sam. 8, 17) - sacerdote do tempo de David.

Sadoq foi considerado como pertencente a legítima família pontifical. Deste modo, os saduceus têm a pretensão de ser a legítima casa sacerdotal. Por muitos motivos, ao longo da história, o nome «saduceus» foi perdendo parte do sentido originário. O característico dos saduceus já não foi o serem filhos legítimos de Sadoq, mas a disposição espiritual contrária à línea farisaica.

A doutrina dos Saduceus, da casta aristocrática, sobretudo sacerdotal, é mal conhecida. Eram um grupo pequeno – um grupo sacerdotal em torno do Sumo Sacerdote. Parecem não reconhecer outra lei que o Pentateuco (e não os Profetas); ao contrário dos fariseus não crêem na ressurreição nem nos anjos (Act. 23,8). Religiosamente são tradicionalistas e politicamente colaboram com os romanos para manterem o seu poder. Controlam o Templo e a sua economia e dominam o Sinédrio (Supremo tribunal de Israel).

Serão muito duros com Jesus e com o cristianismo nascente. Foram eles que entregaram Jesus a Pilatos, para ser morto, por motivos religiosos e políticos. Viram nele um blasfemo e um homem de ideias messiânicas capaz de arrastar multidões e pôr em perigo a estabilidade religiosa e política que sempre defenderam. Todavia, não tinham vitalidade religiosa bastante para sobreviverem ao desastre do ano 70 e desaparecem então da história.

Os Essénios são uma espécie de monges que viviam em comunidade nas margens do Mar Morto (a sua doutrina passou a ser mais conhecida depois da descoberta dos manuscritos de Qumrân, por um jovem pastor beduíno – Muhammad edh-Dhib - em 1947). Foram um grupo que protestaram contra o sacerdócio mundano e imoral do templo de Jerusalém, assim como contra o culto vigente no mesmo templo. Assim, criticam, mordazmente, os Sumos Sacerdotes de Jerusalém como usurpadores do verdadeiro sacerdócio.
Sob a direcção de um sacerdote, chamado Mestre de Justiça, separaram-se dos outros judeus que julgam muito pouco fervorosos. Em vez de sacrifícios reuniam-se para participar em banquetes sagrados comunitários. Não se casavam e viviam do trabalho manual. Todas as propriedades eram comuns, fomentando assim um espírito de fraternidade. Vivem na oração e na meditação das Escrituras, preparando activamente a vinda do Reino de Deus. O seu mosteiro será destruído pelos Romanos em 70. São «fanáticos» e tradicionalistas.

Os Samaritanos, como o próprio nome indica, eram habitantes da Samaria, descendentes da população mista (israelita e pagã). Não formam uma seita propriamente dita. Os Samaritanos afastaram-se do judaísmo oficial. Têm o Pentateuco em comum com os Judeus, mas construíram o seu próprio Templo no monte Garizim (2Rs. 17, 24-28), por este motivo os Judeus (habitantes da Judeia – ao sul) consideravam-nos pagãos. Por isso, as relações entre eles e os Judeus são muito tensas (Cf. Lc. 9,52; Jo. 4,9; 8,48). O comportamento de Jesus a seu respeito vai escandalizar os Seus contemporâneos (Jo. 4,5-.40; Lc. 10,13; 17,10-17). A missão cristã desenvolver-se-á primeiro entre eles (Act. 1,8: 8,5-25; 9,31;15,3).

Outros grupos com menor expressão: Zelotas (zelavam pela independência de Israel); Herodianos (partidários da dinastia de Herodes) e Movimentos Baptistas (Baptismo como rito de iniciação).

O clero é um grupo bastante hierarquizado. No cume da hierarquia encontra-se o Sumo Sacerdote. Os restantes sacerdotes do Templo fazem igualmente parte aristocracia e todos são saduceus. Os sacerdotes rurais andam à volta de 7000. Muito próximos do povo, partilham a sua vida, ofício e pobreza. Repartidos em 24 secções ou classes, exercem a sua função no Templo, cada um por sua vez, durante uma semana por ano, assim como nas três festas de peregrinação. Os levitas, espécie de baixo clero que perdeu todo o poder, são os parentes pobres do clero. Cerca de 10.000, repartidos também por 24 secções, exercem, uma semana por ano, no Templo, funções subalternas: preparação dos sacrifícios, recebimento dos dízimos, música, policiamento do Templo.

Os anciãos são uma espécie de aristocracia laica, de contornos mal definidos. Aqui há também uma grande diferença entre os chefes de aldeia e o pequeno grupo de ricos comerciantes ou rendeiros que se senta no Sinédrio de Jerusalém. Estão agarrados ao seu poder e, por isso, inclinam-se ora para os ocupantes romanos, ora para o Sumo Sacerdote. Parecem ser saduceus.

Os escribas ou doutores de Lei (a nossa palavra escriba deriva do latim scribere) são um grupo de Judeus que liam, escreviam e interpretavam as Escrituras Sagradas. Ao princípio, este múnus estava ao encargo dos sacerdotes mas, depois do Exílio, os sacerdotes tornaram-se nos senhores do Templo e do poder, na dependência do Sumo Sacerdote, que era o chefe da nação, uma vez que não existia rei. No século III a.C., os escribas são sobretudo leigos, mas no tempo de Jesus há escribas leigos, juntamente com sacerdotes e levitas.

Por volta dos 40 anos, o mestre ou doutor ordenava-se escriba através da imposição das mãos e ficava com o direito de fazer parte do Sinédrio. Com toda a sua importância, o escriba acabava por se manifestar como alguém superior e a quem se deviam honras e uma certa veneração por parte do povo. (cf. diatribe – Mt 23, 6-7) Têm uma grande influência na sua qualidade de intérpretes oficiais das Escrituras, tanto na vida corrente como perante os tribunais. Verdadeiros mestres do pensamento, saídos do povo, partilham muitas vezes a sua pobreza.

Os publicanos são cobradores de impostos mas não são os ricos rendeiros gerais, antes os seus auxiliares. Contudo, não podemos identificar sem mais como uma ‘espécie’ de funcionários das finanças do tempo de Jesus. No Império pagavam-se muitos impostos: nas fronteiras, nas estradas e saídas das cidades, nas pontes, no comércio de mercadorias, nos portos… E os publicanos procuravam cobrar os impostos por conta do ocupante romano; por esta razão e porque têm tendência para aumentar os impostos por sua própria conta, são mal vistos e tidos por pecadores públicos. Não só enganavam as pessoas, como também estavam ao serviço do Império – duas razões que alimentavam o ódio e o desprezo da população. Cada província, ou parte dela, era administrada por um publicano, que pagava uma grande soma anual ao procurador ou tetrarca para poder cobrar todos os impostos do seu distrito.


5ª Aula, continuação capitulo II

Capitulo II, 42-47
A vida em comunidade e seus pilares:

Vida dos primeiros Cristãos. Que beleza! Tudo ótimo! Tudo perfeito?

• Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos

• Na comunhão fraterna

• Na fração do pão

• Nas orações



Tudo é um projeto que Lucas indicia à sua comunidade. É um como deveria ser. “é assim que deveríamos ser. Temos que conseguir isso”. Os pilares de sustentação da vida em comunidade nos ajudam a conseguir.


1º pilar: Perseverança no ensinamento dos apóstolos.

Esse ensinamento é aquele manifesto pelas palavras (discursos) dos apóstolos, apontando Jesus como o centro de sua devoção; pelos milagres operados em nome de Jesus; e pela experiência de perseguição por causa de seu nome. Por conseguinte, ser fiel ao ensinamento dos apóstolos é ser fiel a Jesus.
2º pilar: Comunhão fraterna.

Isto é a partilha de bens; não se trata só de ajudar os necessitados, entre os irmãos a comunhão fraterna chega ao ponto de partilhar os bens e as propriedades, de tal modo que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). Comparar com (At 6, 1-7)
3º pilar: Fração do pão.

Também neste ponto, a base da prática cristã é a tradição judaica: o costume cotidiano segundo o qual o pai de família repartia o pão entre os membros da família, os empregados e alguns hóspedes, na refeição do inicio da noite (cf. Lc 15,17). No gesto de partir o pão, o pai de família dizia algum “bendito”, agradecendo a Deus o alimento (daí é que vem Eucaristia, palavra grega que significa boas graças, agradecimento).

Entre os cristão, a fração do pão adquire um novo sentido: é celebração da Páscoa de Jesus, em que ele se entrega como cordeiro pascal. É portanto, refeição comida em memória de Jesus (Lc 22,19).

Mas também no âmbito dessa experiência de fé podem acontecer abusos (cf. 1Cor 11,17-34).

4º pilar: A oração.

Em estreita ligação com os anteriores, está o quarto pilar que sustenta a comunidade. As orações cotidianas em casa, nas sinagogas e no templo faziam parte da piedade do povo judeu. Os primeiros cristãos continuaram a freqüentar o templo e as sinagogas e a ler a Torá.

Jesus, homem de oração, não ensinou rezas. Ensinou a rezar: santificar o nome do Pai, pedir o Reino, pedir o necessário, perdoar, reconhecer os próprios limites, mas pedir com insistência, com confiança (cf. Lc 11,1-13).
No versículo 43 vemos que é um sonho de nossa comunidade, mas o TEMOR se apodera de todos. Como este temor? Por que? = podemos interpretar pelo lado teológico.
• A proposta de Lucas é contra Cultura, pois é totalmente desligada da cultura dominante. É uma maneira, de vida, totalmente diferente. No entanto a cultura geral está sempre ameaçando este modo diferente de vida e projeto que ele dá para a sua comunidade. É uma meta, um exemplo de como se deveria viver. Ele sabe que somos humanos, mas temos uma proposta de idealismo.
No versículo 43 Há muito temos em relação àquilo que os Apóstolos fazem.

Capitulo III, 1-10
Um dos sinais, prodígios que geram temor.

• Indo para o templo.

• Aleijado trazido para mendigar na porta do templo

• Pedro não tem dinheiro

• Pedro lhe dá a cura :
Onde está a chave da Cura?

• Restaura a dignidade.

• Aleijado entra no templo com eles; participa.

• A grande cura é esta dignidade de participar, ser um igual (ele não pediu a cura) (com Jesus também algumas vezes a cura não era pedida).
O Templo para Lucas é sinal de Importância e de Poder. O papel de Pedro é a conscientização, é levar a pessoa à participação no lugar de importância. Oferece o que tem. Que se levante, dá-lhe a sua mão e faz com que o aleijado se levante, ande e entre no Templo.

No sentido Teológico, ele encontra a fé e no Sociológico ele encontra a dignidade. Pedro e João entraram com ele. Agora tem o mesmo nível. Podem entrar juntos e recobrar a dignidade.

Dá Temor porque se pode rever esta cultura dominante. As Pessoas já não são diferentes, objeto, mas podem todos entrar juntos. (Ver o texto da “mão seca” Lc 6,6-11 - ele vai até o centro...).
Em Lucas, quando se fala “O Templo, entende-se o Templo de Jerusalém”, mas o templo nessa época em que foi escrito Atos, já fora destruído pelos Romanos, pois os escritos dos foram lá pelos anos 80.
Capitulo IV, 32-37
Este texto reflete um pouco a filosofia de Platão (República), mas também reflete Dt 15,4.

Certamente tem algo de concreto nisto, pois os apóstolos e discípulos vindos da Galiléia não podiam subsistir em Jerusalém, pois lá não tem pesca nem agricultura. E os companheiros de Jesus eram, na sua maioria, pobres. Certamente este grupo de miseráveis foi amparado por alguns ricos de Jerusalém.

Nem todos partilhavam tudo (5,1-11).

Lc quer motivar a partilha em suas comunidades à partilha.

Por isto se refere a Jerusalém, ou seja, as comunidades realizam o que Jesus ordenara (Lc 1,46ss; 12,33; 18,22).

Resta uma dúvida: se Barnabé era levita (v.36), então não podia ter propriedades (Nm 18,20; Dt 10,9).
Capitulo V, 1-11
Lucas faz crítica aos judeus de Jerusalém. O casal é caracterizado como violadores das normas, pois o projeto é compartilhar os bens e isto não acontece com perfeição. Uma parte é boa e outra é falha. Ananias e Safira, juntos, fazem o ato: vendem, escondem o dinheiro. A mulher também faz parte do ato econômico e social. Antes, no mundo judaico, a mulher não tem vez, não tem direito algum. Aqui, ela é participante no lado bom e no falho; ela é proprietária. A venda se dá com seu consentimento.

A 1ª intenção é participar da comunidade. Vender a propriedade = ou colocar em comum sem perder o direito de propriedade. O problema é a mentira de ambos. Aí está a transgressão do projeto da comunidade; deram só a metade. Se prometer, tem que cumprir. A morte é a frustração de não poder entrar no grupo. Acabou o projeto para eles. Não podem fazer parte do grupo.
A partir da fraude financeira contra a comunidade tudo pode acontecer. A lenda de Ananias era um remédio assustador para cortar o mal pela raiz. O maior pecado é o que se faz contra a comunidade, pois Lc quer que suas comunidades sejam autênticas. Mentir para a comunidade em assuntos financeiros destrói a comunidade. Ananias e sua mulher pecaram contra a comunidade, isto é, contra o Esp. Santo, pois a comunidade (igreja) é obra dele. Havia crença de que a morte era castigo (At 12,23; 1Cor 5,5; 11,30).

2 - OS SETE (HELENISTAS) (At 6-7)


Os cap.6-7 ainda refletem Jerusalém. No entanto, a eleição dos Sete reflete algo diferente:

• a passagem do cristianismo de cultura hebraica para a cultura grega.

Este foi o fator determinante para a ocidentalização da Igreja e o primeiro passo para a missão de Paulo.

Com os helenistas (judeus de fala grega) surgiu a universalização da Igreja. Eles, os Sete passam a ter uma estrutura própria. Não são dirigidos diretamente pelos Doze.

Ainda que Lc diga que os Doze impuseram as mãos aos Sete, estes certamente têm outra orientação e, provavelmente geraram conflitos na comunidade, tanto com a Igreja nascente,


como também com os judeus. O primeiro mártir é o helenista Estêvão (At 7).

• Os Doze lembram os patriarcas das 12 tribos de Israel.

• Os Sete lembram os dirigentes das sinagogas (conselho).

Logo, estão aqui dois modelos de igreja que têm visão diferente. A igreja dos helenistas começa a questionar as instituições judaicas (discurso de Estêvão -7,48). Os Doze iam ao templo e lá rezavam, mas os helenistas dão um passo à frente. Dos helenistas saem as primeiras missões para o estrangeiro: Samaria (At 8,5ss), Etiópia (8,26ss), Antioquia (11,19ss). A igreja dos helenistas está separada até financeiramente da igreja dos Doze. Aqui Lc, com mão hábil, coloca os Sete sob a tutela dos Doze. Eles é que os ordenam, lhes impõem as mãos.

Lc os submete aos Doze para mostrar a continuidade apostólica, questão dos anos 80. A Palavra avança a partir de Jerusalém (esquema lucano). Lc não demonstra o conflito, parece que tudo se deu pacificamente, o que parece pouco provável.

Lc coloca todo problema numa questão de mesa, mas parece que a questão é mais doutrinal. Os helenistas desprezam a lei e o templo (7,48). Os helenistas são perseguidos ao passo que os Doze nada sofrem.



"Naquele dia explodiu contra a igreja de Jerusalém violenta perseguição.Todos, com exceção dos apóstolos, se dispersaram nas regiões da Judéia e da Samaria" (At 8,1b).

Estêvão é o primeiro mártir e é helenista. Isto mostra que a diferença não é só financeira, mas doutrinal. Além do mais, os Sete não aparecem cuidando da mesa, mas pregam como os Doze.

O grande conflito é o templo e a Lei (6,13). Junto com os helenistas vinham os prosélitos e estes eram excluídos do templo (At 21,28-30). Isto desagradava profundamente aos pagãos. Outro problema era a mesa. Um judeu não sentava à mesa com um incircunciso. Tais exclusões preocupavam os helenistas que levavam seus amigos pagãos e suas viúvas. Vendo estas excluídas pelos hebreus, sentiam emperrado seu processo de evangelização. Por isto lutam contra esta injustiça (Estêvão).

Desta forma os Sete, por meio de uma crise, desafiaram a igreja a se abrir aos povos pagãos. Os hebreus teriam deixado a Igreja eternamente como seita judaica, pois barravam o processo de evangelização dos pagãos. As comunidades helenistas, devido ao fato de conviverem com os pagãos, eram mais abertas e bem mais proféticas, enquanto os hebreus se atinham à instituição.

Os Sete não se fixam na continuidade de Israel, como o fazem os Doze. Sua novidade é Jesus. Jesus supera o templo e a Lei: os dois grandes obstáculos para os pagãos. Os helenistas supõem um Israel sem templo e sem lei. Estêvão faz aparecer a diferença entre cristianismo e judaísmo. Enfatiza Jesus e relativiza a Lei. Desta forma acelera a separaçãodo judaísmo.

O discurso de Estêvão provoca a ira dos sacerdotes, pois mexendo no templo, tira seu chão debaixo dos pés. Acaba com o lucro da religião. A cena do apedrejamento de Estêvão (7,54-60) é artificial. Lc cita o processo, mas não a sentença, mostra a responsabilidade dos chefes. Não parece lógico que num linchamento houvesse tempo para o condenado proferir um discurso e terminá-lo, só depois ser morto. Estêvão olha para o céu. Seria este tribunal ao ar livre?

II - SEGUNDA PARTE - RUMO À ANTIOQUIA (At 8-15)


Esta unidade pode ser entendida como o prelúdio da missão de Paulo. Fala-se da:

a) Dispersão dos helenistas (8,1ss). A evangelização se expande até a Antioquia (11,19ss). Neste processo de expansão se evangeliza povos pagãos.
b) Vocação de Paulo (9,1ss). Paulo é o grande fruto do modelo de igreja dos Sete, ou melhor, de Antioquia.

c) Intervenção de Pedro (10,1ss). Este gesto prepara a missão de Paulo aos gentios.

d) Fundação da comunidade de Antioquia (11,19ss). Esta cidade será a base da missão de Paulo e foco da expansão missionária.

Todos estes elementos preparam a missão universal de Paulo. Mesmo descrevendo gestos de Pedro, Lc quer descrever e legitimar Paulo.


A segunda parte se divide em duas partes:


1 - De Jerusalém a Antioquia (8,12)

2 - Antioquia inaugura a missão (13,1-15,35).

1 - De Jerusalém a Antioquia (8-12).

Os capítulos que compõem esta transição têm o claro objetivo de mostrar como a Palavra vai vencendo os obstáculos e vai se abrindo para os povos. Nestes capítulos a abertura ainda é bastante tímida, mas já acontece.

1.1 - Transição 8,1-4)

A perseguição contra todos, menos contra os apóstolos indica para o fato de que os helenistas incomodavam tanto aos judeus como aos romanos. Por isto os Doze não entram nesta perseguição. 8,1 é continuação de 1,8. É o avanço pela Judéia e Samaria até os confins. Os Doze evangelizam na Judéia, Filipe foi à Samaria e agora levam o evangelho até os confins da terra. Etiópia era conhecida por este título.

A segunda parte se divide em duas partes:


1 - De Jerusalém a Antioquia (8,12)

2 - Antioquia inaugura a missão (13,1-15,35).



1 - De Jerusalém a Antioquia (8-12).

Os capítulos que compõem esta transição têm o claro objetivo de mostrar como a Palavra vai vencendo os obstáculos e vai se abrindo para os povos. Nestes capítulos a abertura ainda é bastante tímida, mas já acontece.


1.1 - Transição 8,1-4)

A perseguição contra todos, menos contra os apóstolos indica para o fato de que os helenistas incomodavam tanto aos judeus como aos romanos. Por isto os Doze não entram nesta perseguição. 8,1 é continuação de 1,8. É o avanço pela Judéia e Samaria até os confins. Os Doze evangelizam na Judéia, Filipe foi à Samaria e agora levam o evangelho até os confins da terra. Etiópia era conhecida por este título. A confirmação é lucana dos anos 80. Os Doze aparecem como autoridade e referência para as Igrejas lucanas, por isto eles legitimam a missão dos Sete que está na raiz de Paulo.


Aqui o Espírito Santo sucede o Batismo. Em Jerusalém ele antecede (2,38). Mas aqui a questão é outra, os apóstolos confirmam a missão dos diáconos. Isto é uma artifício literário de Lc.

A figura de Simão é a imagem que Lc faz da religião popular grega. Tudo aí gira em torno do dinheiro. Lc mostra o contraste entre a religião cristã e a pagã. Os cristãos não agem pelo dinheiro (3,6; 8,20). Daí vem simonia. Tanto Simão como Ananias são amaldiçoados por dinheiro. Simão recebe admoestação e pode invocar perdão, Ananias não teve esta chance. É a primeira vez que se fala de perdão depois do batismo.

Versículos 5 a 15: Aparece a figura de Simão e Felipe.

Felipe = anuncia o Evangelho, cura, faz prodígios, expulsa demônios e batizava  causou alegria, admiração e muitos o seguiam.

A questão da alegria era importante, pois dentro do contexto histórico, a pobreza era grande e a dominação era cruel. Não havia alegria. Com o trabalho missionário, o ensinamento, somado as benécias de curas, brota a alegria, pois surgiu a esperança. E uma esperança na prática concreta. Uma vivência que a comunidade podia experimentar. Era um novo modo de vida. As palavras e ensinamentos passam a uma prática de vida. Já não eram só palavras espirituais, mas palavras que se estruturava , eram concretas, dentro da vivência diária.

O mesmo que acontecera com Jesus, que pega o barro e cura o cego, dando-lhe vida digna, a mulher que o toca e este partilha sua energia dando cura e vida saudável.

Nesta época, a cura era feita por curandeiros e quando esta cura provém de um pregador que traz a boa nova e com ela uma nova postura de vida e vida saudável, isto é pura admiração e isto conquista seguidores.

Simão = Samaritano, mago, libertava, admirado pelo povo, acreditou em Felipe, sendo chamado de Grande (poder de Deus) – note o que diz: “pretendia ser importante”.


Pretendia = não era, era intenção para o futuro, para o devir. (ver Mc 9,38-41)- [alguém está expulsando demônios em nome de Cristo]. – Alguém está expulsando demônios e cria conflitos entre os discípulos. Jesus diz: “Deixa fazer. Se é para o bem, tudo certo”. É uma prática que o povo precisa, o governo nada faz e estes então atendendo o povo em suas necessidades. Os discípulos não estão entendendo e Jesus vê a necessidade do povo e não recrimina o que fez prodígios em seu nome; a magia é coisa comum. Não estão fazendo coisas diferentes de nós, mas coisas necessárias ao povo. É uma maneira de tratar as necessidades do povo que sofre.

Simão ao ver Felipe, acredita nele e com ele participa no atendimento ao povo. Esta magia era a forma de ver da época. Nada tem a ver com a “Magia” de hoje, que é um atributo às forças cósmicas ou alheias à natureza real.

Simão é mago, da Samaria, conhecido como alguém que tem poder de Deus. Quando conhece a Boa Nova, se admira, gosta, se batiza e quer continuar na missão. – quanto mais entendemos e pesquisarmos, melhor será nossa fé, pois do contrário será uma fé pré-concebida e incapaz de ver outros ângulos.

No capitulo 8, 14 a 25 – aparece Pedro, João, Simão, Espírito Santo.


PEDRO E JOÃO = São enviados pela comunidade de Jerusalém (11,22 e 15,22 ), era uma prática das comunidades.

Em Jerusalém se tinha a idéia de serem o Centro do saber. (11,22). Barnabé é enviado à comunidade de Antioquia e 15,22 . Paulo e Barnabé e alguns enviados à Antioquia.

Pedro e João – então vão para Samaria. Já estão quebrando aquela barreira de impureza aos povos gentios. (seguem a prática de Jesus, quando ele fala com a Samaritana – do exemplo do Samaritano que socorre o assaltado).

Simão é interesseiro e quer comprar o Espírito Santo. Já é outra figura diferente. É a outra face de Simão. “Agora sim, estes têm mais poder. Preciso pagar-lhes e ter este poder também”. Parece ser outra pessoa. Será que a conversa era superficial? Agora ele quer só o poder? Ou ele (v.11) ficara ultrapassado e quer correr atrás do prejuízo, corre atrás de Felipe e depois dos Apóstolos, ou... se os Judeus (comunidade) colocam este “dinheiro” como forma de dizer que os HELENOS, os Samaritanos, os gentios são interesseiros e impróprios para serem os portadores do Evangelho, pois eles seriam os escolhidos? – Muitas interpretações podem surgir. Cada comunidade pensa ter a “Verdade absoluta” e talvez aí achem que outras comunidades não têm a verdade e por isso são incapazes.

1.3 - A conversão de Paulo 9,1-21


Este texto apresenta problemas:

- Paulo diz ter recebido uma visão (1Cor 15,8). Em At 9 não se fala de visão, apenas de intervenção.

- Paulo diz que a visão lhe deu vocação de apóstolo (Gl 1,16). At não fala de vocação, mas de conversão.

Lc se inspira nos grandes personagens do AT. Antes de assumirem sua missão, aparecem com algum sinal na história, depois desaparecem, para mais tarde reaparecer: Moisés, Samuel, Saul, Davi, etc. Paulo também age assim, depois da conversão desaparece e mais tarde volta a todo vapor.

Com Paulo a Palavra tem mais uma vitória. Lembra Ex 3 e 2Mc 3. Tanto Paulo como Moisés sentem o apelo de Deus em elementos comuns:

Fogo                                                               Luz

Cobre o rosto                                                 Cegueira (divindade)

Aarão                                                             Ananias



Por que Paulo se converte? Paulo era fariseu e os fariseus eram populares, acreditavam na ressurreição. Ele foi aluno de Gamaliel (22,3), homem aberto e liberal. Paulo certamente se comoveu diante a persistência dos cristão diante do martírio de (Estêvão). Esta persistência mexeu com a consciência de Paulo.

1.4 - Paulo em Jerusalém 9,23-31


Texto problemático, não fecha com Gl 1,16-24. Gl deveter mais valor histórico, pois vem da mão do próprio Paulo.

Mas Lc não quer fazer história, se não colocar Paulo em comunhão com os Doze.

Em todas as viagens paulinas, a mensagem antes é destinada aos judeus, mas diante da rejeição destes, Paulo se dirige aos gentios.

"Paulo ensinou primeiro em Jerusalém e depois foi para as nações porque foi expulso de Jerusalém."

Esta viagem certamente é forjada para ilustrar a intenção de Lc que quer mostrar aos seus fiéis dos anos 80 que Paulo também anunciava o evangelho aos judeus. Parece que isto não é verdade (Gl 2,7-8).

1.5 - Pedro em Cesaréia 9,32-43

Lida (v.32-35) e Jope (v.36-43) são a ante-sala de Cesaréia (At 10). Temos aqui duas lições:

1º) A continuidade da ação dos apóstolos em relação a de Jesus. Jesus continua agindo por meio de Pedro. Enéas (9,32-35) = Mc 2,1-12 Tabita (Gazela) (9,36-43) = Talita (ovelinha) Mc 5,36- 43; 1Rs 17,17ss.

2º) Pedro, em nome dos apóstolos visita as comunidades como o faz Paulo mais tarde e além disto entra na casa do curtidor e da tecelã. Entrar na casa do curtidor quebra a lei da pureza. Lc habilmente coloca esta missão paulina em Pedro, pois os judeus tinham mais consideração com ele. Deste curtidor (impuro) até os pagãos só havia um passo.

1.6 - Pedro e Cornélio 10,1-11,18


O batismo de Cornélio (pagão) ocupa lugar de destaque em At. Interrompe o curso normal. É uma antecipação do Concílio de Jerusalém (At 15) e da missão de Paulo.

Lc faz com que Pedro abra a missão de Paulo. Em outras palavras, a missão de Paulo ainda é continuação dos Doze.

Cornélio prepara a missão de Paulo.

Objetivos:

1º) Lc vê com simpatia os chefes romanos em todo livro de At, por isto destaca sua benevolência e conversão. Porém, Pedro não se submete a ele, mas ele se submete a Pedro.

É um caminho para conquistar autoridades.

2º) Cornélio é prosélito. Em Lc quase todos os que aderem à fé já são prosélitos. Lc detesta as religiões gregas.

Aprecia a cultura grega e a religião judaica, pois a religiões gregas eram demais fantasiosas.

3º) Na origem deste ato de Pedro está a o Espírito de Deus (10,2-6; 10,9-16; 10,44-45).

4º) Os gentios também podem ser salvos, também eles recebem o Espírito (10,45).

5º) Pode-se comer junto (10,14-15; 11,2-18), nada é impuro. Na realidade, este gesto de Pedro reflete os problemas originados por Paulo e que Lc agora quer resolver.

Comparando este texto com Gl 2,12 e com At 15, nota-se certa dificuldade.

Por que fazer o Concílio de Jerusalém se Pedro já tinha resolvido o problema? Por que Paulo diz ser ele apóstolo dos gentios e Pedro dos circuncisos?

O caso Cornélio certamente reflete a conversão de tantos oficiais romanos que de fato aconteceram, mas Lc retoca o fato para ilustrar a prática paulina.


1.7 - Fundação da igreja de Antioquia 11,19,30


A igreja de Antioquia foi fundada por helenistas expulsos de Jerusalém (8,1-2), logo obedece ao esquema de At 1,8.

A visita de Barnabé (At 11,22) é mais um artifício literário para dizer que há legitimação pelos Doze da nova missão. Barnabé não era dos Doze e nem volta a eles para prestar conta. Para Lc toda nova igreja precisa legitimação dos Doze. Lc coloca Antioquia pacificamente dentro do processo de evangelização que parte de Jerusalém, no entanto,

deve ter havido problemas (Gl 2). Talvez em Antioquia tenha-se batizado os primeiros pagãos não circuncidados. Lc não o cita, pois já colocou Cornélio como modelo. Por causa

disto Lc cala sobre a reação de Barnabé (At 15,36-39; Gl 2,13), já que para ele isto tudo estava resolvido desde Cornélio (At 10). Na realidade, tem-se a impressão de que em Antioquia houve conflitos (Gl 2). Lc não faz menção disto.

Paulo trabalhou um ano em Antioquia (11,26). Provavelmente foi aí que ele formou sua mentalidade anti circuncisão Encontram-se, neste bloco referências a profetas (11,27; 13,1ss). Isto lembra um cristianismo mais carismático, sem muitas estruturas. Este tipo de igreja espontânea, aos poucos perde seu espaço, pois os apóstolos e presbíteros aos poucos ocupam seu lugar, isto é, a igreja se institucionaliza no fim do 1º século. Assim, pode-se falar em:

Apóstolos como fundadores e referência das comunidades, Presbíteros como organizadores das comunidades, Profetas como a parte espontânea da comunidade.

Aos poucos, os profetas perdem seu lugar, pois os presbíteros se declaram herdeiros da tradição apostólica. Assim o papel dos profetas vai se empalidecendo, sua função aparece

como prever o futuro (11,28). Isto é depreciação do papel dos profetas (13,1-5).

1.8 – Fuga miraculosa de Pedro e morte de Angripa - 12

É a última narração sobre Pedro. Ele reaparece no Concílio (15), mas só para legitimar os trabalhos de Paulo. Também este relato sobre Pedro prepara a missão de Paulo.

Paulo foi preso (16,16ss), mas já Pedro passou por isto, ou seja, Lc coloca Paulo em continuidade com Pedro. A marcha da Palavra avança, ninguém a pode barrar, os apóstolos são presos, mas isto não significa derrota.

O presente relato parece uma costura de três antigos textos: a morte de Tiago (12,2), a prisão de Pedro (12,3-19) e a morte de Agripa (12,20-23).

Chama a atenção como Lc só dedica um versículo para descrever o martírio do primeiro apóstolo aí pelos anos 43-44 (12,2), quando ele dedicou um capítulo inteiro para narrar o martírio de Estêvão (7). Isto já mostra que, com Lc estamos num outro modelo de Igreja.

No relato da libertação de Pedro, Lc deve ter usado uma velha tradição de Jerusalém que mostra como Deus interveio nos momentos difíceis. A prisão de Pedro lembra a de Jesus.

Também ela aconteceu na Páscoa (ázimos). Jesus foi vigiado na sepultura; Pedro, na prisão. Jesus ressuscita e os guardas ficam; Pedro escapa e os guardas nem percebem. Pedro vai e encontra a mulher que não consegue comunicar; Jesus ressuscita, mas os apóstolos pensam que as mulheres deliram (Lc 24,1). Jesus pede que avisem os irmãos (Jo 20,17b; Mc 16,7); Pedro também diz: "Contem isto a Tiago e aos irmãos" (12,17b). A fuga de Pedro na Páscoa lembra também a fuga do Egito, quando Deus interveio na libertação. Assim, a libertação de Pedro é continuidade do povo de Israel e de Jesus, mais tarde Paulo continua sua obra.

O relato sobre a morte de Agripa certamente vem do mundo judaico. Herodes morre, não por ter perseguido Pedro, mas por não ter dado glória a Deus, e por ter aceito honras divinas. Flávio Josefo fala de Agripa I que se sentiu mal numa festa e cinco dias depois morreu. Lc fez uma costura e aplicou à morte de Agripa a punição de Deus.

Em suma, o capítulo é uma advertência aos perseguidores:



Não conseguem parar a Palavra e ainda correm o risco de serem castigados. Esta advertência se dirige aos judeus que são ameaça aos cristãos. Ainda há bem mais judeus do que cristãos, e apesar da destruição dos anos 70, eles ainda têm certo poder. Lc anima os cristãos vindos do judaísmo a não temer seus antigos companheiros, agora perseguidores, pois Deus os protege.


Neste texto transparece a Igreja doméstica, isto é, a Igreja se reunia na casa da mãe de Marcos (12,12). Isto indica que as Igrejas eram domésticas e que as mulheres, tinham nelas, papel preponderante.

1.9 - Antioquia inaugura a missão - Os Atos de Paulo 13,1-15,35

No capítulo 13 começa o verdadeiro tema do livro: os atos de Paulo.

"Tudo o que foi narrado até aqui tinha por finalidade mostrar a continuidade entre Paulo e a Igreja de Jerusalém, a Igreja dos apóstolos e, por intermédio desta, a história de Israel, o povo de Deus"10.

"O objeto do livro dos At consiste em mostrar que Paulo, e, com ele, as comunidades de fundação paulina, constituem a continuação e a realização acabada do povo de Deus preparado através de toda a história de Israel, da história de Jesus e da comunidade de Jerusalém”.

Paulo não é bem visto pelos judeus. Conseqüentemente suas comunidades são vistas como abortivas. Paulo é visto como traidor do judaísmo por sua abertura aos pagãos. Os judeus de Jâmnia pressionavam os judeu-cristãos a voltarem para o redil.

“Lucas escreve a sua obra para persuadi-los a permanecer no cristianismo. Longe de trair o seu povo Israel, encontrarão o seu perfeito acabamento”.

Lucas tinha que provar que Paulo era fiel ao judaísmo, apesar de vê-lo expulso das sinagogas e rejeitado pelas autoridades judaicas.

Lc vê dois grupos em questão:

a) Judeu - cristãos;


b) Prosélitos - gentios apegados ao judaísmo.

Como manter fiéis os cristãos vindos destas duas correntes se elas sabem que o cristianismo de Paulo é uma traição ao judaísmo? Lc mostra que os traidores são as autoridades judaicas e não Paulo.

Lucas pintou um Paulo aceitável aos judeus que o detestavam. O Paulo de Lc, isto é, dos At, é bem mais judaico que o Paulo das epístolas. Em At ele é bem açucarado. Enquanto o Paulo real era quase violento.

O Paulo de Lc é bem fariseu, acredita na ressurreição e com isto não fere os fariseus. Sempre se dirige por primeiro aos judeus e só depois aos tementes. Quase sempre as conversões são de prosélitos e de tementes, e raramente de pagãos. Quando Paulo vai aos gentios, ele o faz por obra do Espírito Santo (16,9). Além do mais, quando Paulo vai aos gentios ele simplesmente segue a Pedro e a Igreja de Jerusalém. Antecipando o Concílio, Lc inocenta Paulo: Ele só fez o que foi aprovado por Pedro e por Jerusalém. Isto dava ânimo aos judeus assustados com a fama de Paulo.

Lc coloca Paulo na esteira de Pedro, mas não menciona o conflito entre os dois (cf. Gl 2,11-14). Para Lc este problema já foi superado (At 10 e 15). Mas para não irritar os judeus, fez um aparte: 15,20.29. Alegrou a gregos e troianos.

Lc também silencia o conflito entre Paulo e Barnabé (Gl 2,13). Diz que a causa do desentendimento entre os dois foi Marcos (At 15,39), isto seria um problema puramente organizacional e não doutrinal. O que parece pouco verossímil.

O centro dos At é o processo de Paulo. Como nos evangelhos, tudo se orienta para o processo final. Paulo, como Jesus, são executados pelos romanos, mas o interesse de Lc

é outro: os culpados são as autoridades judaicas. Lc não condena Roma, mas os chefes judeus. O que conta não é a morte real sofrida em Roma, mas o processo levantado em Jerusalém.

Os v.1-3 refletem novo modelo de igreja, diferente da dos Doze, bem com da dos Sete. Agora são os Cinco. Ali existem doutores e profetas. Isto representa um caráter carismático

que aos poucos desaparece, dando lugar à estrutura institucionalizada. A estrutura dos cinco parece não ter propriamente um líder, ou seja, os cinco são líderes animados pelo Espírito. Os cinco formam um colégio. Não são ainda itinerantes.

- Profetas exortam e fortalecem

- Doutores ensinam

Agora a missão começa organizada, antes era acidental e individual.

 2. A conferência de Jerusalém 15.1-35


Melhor do que o termo Concílio fica o termo Conferência, pois não se trata da reunião de muitas igrejas, mas somente de duas, a de Antioquia e a de Jerusalém.

Lc coloca esta narração no centro do livro para lhe dar destaque e importância. A conferência estabelece a unidade entre a igreja Antioquia e a de Jerusalém. A conferência dá

legitimidade e continuidade a Paulo. Ele continua a história de Israel, de Jesus e dos Doze. Paulo não fundou nova religião.

O capítulo 15 é todo de Lc. Ele descreve admiravelmente, porém, 30 ou 40 anos depois. O discurso de Pedro reflete a prática das comunidades lucanas, mas faz concessão aos judeu-cristãos (15,19.29).



O texto apresenta problemas:



a) Problemas históricos: há divergências históricas entre At 15 e Gl 1,16-2,14. Porém há mais convergências do que divergência. Estas últimas são relativas.



B) Problemas de conteúdo: Gl 2,10 diz que os apóstolos pediram que Paulo se lembrasse dos pobres. At 15 não fala disso. O decreto apostólico (At 15,20.29) faz exigências, mas Paulo (Gl 2,6) diz explicitamente que os notáveis nada acrescentaram.

Lc escreveu tarde, introduziu 15,20.29 que ele colheu alhures. Não fazia parte do original. Certamente acréscimo da ala judaizante que não podia assimilar a conferência na prática. O decreto apostólico (15,20.29) não tinha razão de ser no tempo da conferência. Este problema da mesa comum não existia em Jerusalém. O problema era a circuncisão. Jerusalém podia admitir à distância que não mais se circuncidasse, mas com o passar do tempo, quando em sua própria comunidade surgiam incircuncisos, aí a questão da mesa se acendeu.

Nasceu então o decreto apostólico, que foi acrescentado à conferência. Lc o recebeu assim.



Talvez o choque de Antioquia (Gl 2,11-14) explique algo.

O decreto apostólico era coisa recente. A igreja de Jerusalém o inseriu em At 15, tendo à frente Tiago. Estando Pedro em Antioquia, manda Tiago seus emissários para receber

o apoio de Pedro. Pedro, diante da pressão aceitou tal decreto. Paulo não aceitou o mesmo. Provavelmente Paulo é derrotado, e, para amainar o problema, o decreto entrou na igreja de Antioquia.

Com esta tese também se poderia explicar a questão com Barnabé (At 15,39-40). Valeria a pena brigar por Marcos?

Parece que o problema é outro (Gl 2,13). Barnabé aceita o decreto apostólico que Paulo rejeitou. Isto provocou a separação dos dois. Barnabé desaparece do cenário, pois um judaizante não faz sucesso missionário.

Nos tempos de Lc este problema devia estar superado (At 10), por isto Lc nem se refere à briga apostólica. Aliás, Lc não quer apresentar um Pedro inconveniente às suas comunidades.

3. Mulher, casa e família


Na cultura do século I d.C., a mulher não podia participar da vida pública. A sua função restringia-se à vida familiar, onde exercia sua influência, na organização interna da casa (oikia). Como funcionava no interior das casas, a mulher tinha um papel eclesial ativo. A criação de “Igrejas domésticas” possibilitou maior influência e participação da mulher. Desde as origens até hoje, as mulheres chegam para ficar. Mesmo sem serem notadas, sem serem contadas, muitas vezes silenciadas, as mulheres são atuantes nas comunidades. É preciso vasculhar os textos, perceber sua presença e descobri-las atuantes, ontem e hoje.

Os textos bíblicos falam pouco das mulheres, quem sabe, por ser tão evidente a participação delas no dia-a-dia das comunidades. A herança desse primeiro século foi desviada de nós pela corrente que prevaleceu na história — a que “unificou” o cristianismo, considerando-o “ortodoxo”, e descartou a influência e a liderança das mulheres, excluindo-as da plena participação nos ministérios da Igreja.

Lucas menciona diversas mulheres nos Atos dos Apóstolos. Elas animam e lideram comunidades, cheias da força do Espírito Santo. Além de Maria, a mãe de Jesus, Safira foi a primeira mulher citada como membro efetivo e participante nas decisões da comunidade. Ela se solidarizou com a comunidade ao consentir em vender seus bens e colocá-los a serviço da comunidade. Lucas ressalta que o pecado de Safira não foi o mesmo do seu marido Ananias. Safira pecou pelo fato de não ter reagido em público, na assembléia, ao sistema que regia o casamento patriarcal, segundo o qual era muito difícil a mulher agir de modo diferente do modo do marido. Safira acabou sendo conivente e co-autora da traição feita à comunidade e conseqüente traição ao Espírito Santo.

No tradicional texto da instituição da diaconia, nos Atos dos Apóstolos (At 6,1-7), viúvas helenistas, pobres e estrangeiras, aparecem reagindo contra a discriminação (At 6,1s). Lucas não diz que todas as viúvas estavam sendo relegadas na assistência social, mas apenas as viúvas de origem grega. Foi com base no clamor delas que a comunidade se abriu para os helenistas, com a diaconia sendo exercida por homens escolhidos em uma assembléia geral, todos do meio dos excluídos. Com esse relato, Lucas enraizou as comunidades na rica experiência da libertação do Egito, em que mulheres parteiras uniram-se, organizaram-se, rebelaram-se contra um decreto lei que visava controlar a natalidade, e acabaram contribuindo decisivamente para o nascimento de Moisés, abrindo assim o caminho para o processo de libertação que emergia entre os escravos hebreus no Império Egípcio.

Outra mulher que exerceu liderança libertadora nas primeiras comunidades cristãs foi Tabita. Ela é apresentada como discípula atuante na comunidade (At 9,36-43). “Notável pelas boas obras e esmolas que fazia”, efetivou a inclusão de viúvas pobres e estrangeiras na comunidade, trabalhando manualmente (tecendo túnicas e mantos). Semelhante ao apóstolo Paulo, Tabita questionou, na prática, a cultura helenística que desvalorizava o trabalho manual.

Maria, a mãe de João Marcos, descrita em At 12,12-17, aparece como ponto de referência para a reunião da comunidade. Abrir a casa para reunião de pessoas ligadas a um movimento que questionava radicalmente o Império Romano e a cultura helenística poderia desencadear perseguição. Dar guarida a presos políticos, como o apóstolo Pedro, poderia atiçar ainda mais a ira do império e seus sustentadores. A mãe de João Marcos aparece assim como pessoa corajosa que assumiu a responsabilidade do seu compromisso no seguimento de Jesus.

A escrava Rode, citada nominalmente em At 12,12-17, movimentava-se com toda liberdade e participava intensamente dos acontecimentos da comunidade, especificamente do episódio da libertação de Pedro. Ela reconheceu Pedro, de longe, ecoando assim a postura sensível do Pai do filho pródigo. Rode foi a primeira a anunciar a libertação de Pedro, assim como Maria Madalena foi a primeira a anunciar a ressurreição de Jesus. Estaria Lucas querendo insinuar que a escrava Rode tinha a mesma dignidade de Maria Madalena?

Lucas nos fala de Lídia (At 16,13-15.40), uma líder de comunidade. Ela era comerciante de púrpura e liderava um grupo de mulheres trabalhadoras que produzia um tipo de tinta com base na mistura da planta chamada púrpura com urina de animais. Tingiam lãs e roupas e as vendiam. Lídia colocou sua casa à disposição dos missionários, em um sinal de conversão, insistindo para que fossem seus hóspedes.

Lucas enfatiza a presença de uma jovem escrava que fez um contundente anúncio profético: “Paulo, Silas e demais companheiros são servos do Deus Altíssimo e anunciam a todos vocês o caminho da salvação” (At 16,16-18). Aquela jovem escrava captou que Paulo, Silas e companheiros eram enviados de Deus para prestarem um serviço à comunidade de Filipos: apresentar a proposta do evangelho de Jesus. A jovem escrava clamou também por socorro, revelando seu desejo ardente de ser libertada.

Priscila, uma trabalhadora missionária, ocupa um espaço relevante nos Atos dos Apóstolos (At 18,18.26-27). Ela aparece sempre ao lado do seu companheiro Áquila e, provavelmente, aderiu à fé cristã antes de conhecer Paulo. Deve ter sido expulsa de Roma pelo edito do imperador Cláudio, em 49 E.C. Como exilada política, Priscila chegou em Corinto, onde acolheu o apóstolo Paulo em sua casa por um ano e meio. A casa de Priscila se tornou uma “igreja” cristã. Tanto Lucas como o apóstolo Paulo colocam o nome de Priscila sempre antes do nome do seu marido, Áquila. Isso pode indicar sua liderança. Priscila conciliava com destreza o trabalho do lar com o trabalho missionário e a fabricação de tendas.

Lucas se refere, em Atos, de passagem, às quatro filhas de Filipe, dizendo que eram profetisas. Em At 13,1 e 11,27 temos notícia da existência de profetas nas primeiras comunidades cristãs, mas somente em At 21,9 se faz menção à profecia exercida por mulheres. O fato de o cristianismo ter sido, no início, a religião das casas, facilitou a atuação das mulheres nas Igrejas. Lamentavelmente com a institucionalização e a conseqüente hierarquização das Igrejas as mulheres foram sendo marginalizadas.

A teologia lucana ajuda na superação da discriminação das mulheres nas Igrejas. “Urge superar todos os dualismos. A começar pelos dualismos entre as próprias mulheres: judias versus cristãs; ativas versus contemplativas; protestantes versus católicas; leigas versus religiosas; do lar versus profissionais; casadas versus solteiras; heterossexuais versus lésbicas.

Comunidades lucanas revelam um contexto patriarcal e machista. As mulheres, de uma forma geral, eram desprezadas e marginalizadas na sociedade. Mas no Evangelho “de” Lucas, Jesus dá atenção à mulher, valoriza sua presença e atuação na comunidade. “Na narração do nascimento de João Batista e de Jesus (Lc 1,5–2,52) rompe-se o padrão que colocava o homem em primeiro plano e que deixava à margem tanto a mulher como a criança. Nessas narrativas, as crianças são apresentadas junto com a presença atuante de suas mães. Elas é que são protagonistas da novidade, anunciadoras das “grandes coisas que o Poderoso fez” (Lc 1,49), mesmo vivendo em um contexto patriarcal e machista.
Concluindo nosso trabalho


Na Conclusão dos Atos dos Apóstolos vemos que Paulo é testemunha até os confins da Terra ( 28,16-31 cf. 1,8).

Conclusão da obra de Lc (v 16,31). Assim como Jesus (Lc 4,16-30) apresenta o evangelho aos judeus, mas privilegia os pagãos, assim também Paulo anuncia aos judeus, mas acaba indo aos gentios.

“O grande problema de Lc foi explicar como a Igreja, que doravante toma apoio cada vez mais os convertidos dos gentios, constitui a continuação do povo de Israel”.

Depois de Lc, o conceito de igreja pode nascer.

“Na época de Lc os judeus excomungam os cristãos. Trata-se de mostrar que, apesar desta rejeição, o verdadeiro Israel são os cristãos”.

5 comentários:

  1. Olá!
    Sou professora de Teologia do Novo Testamento na STADRJ - Seminário Teológico da Assembléia de Deus do Rio de Janeiro. Achei maravilhoso o estudo e a forma organizada por aula. Parabens!

    Sabrina
    Email: sabrina.br@terra.com.br
    MSN: sabrinarj@hotmail.com
    Orkut: Sabrina Barros

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  2. Oi sou estudante do 4º paríodo de Teologia do stja/BENETT e achei lindo o seu estudo e me ajudou muito numa aula que teria que dar no seminário.
    Parabéns!!!!
    Janaina

    Orkut: Janaina tavares

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  3. Todos os comentários postados neste Blog, ajuda-me a aprimorar o material postado.
    obrigado.

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  4. sou pastora,
    gostei muito do estudo, te-lo encontrado foi uma grande benção. Deus continue te capacitando a compreeder e a transmitir com genorosidade o conhecimento, como o fez agora. "Saber que não compartilhado, não é saber socializado" (PF)

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  5. Parabéns Luciano pela organização dos textos e por ter disponibilizado na internet. Sou Gilvander L. Moreira, professor de Lc e At no ISTA, em Belo Horizonte, MG, e em Mariana. Abraço terno. Frei Gilvander Moreira - gilvander@igrejadocarmo.com.br

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