1. Considerações
Deus não é um presente ausente. “muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora a nossos pais, nos profetas; nestes últimos tempos, falou a nós no Filho” (Hebr 1,1). “A Deus ninguém jamais o viu; manifestou-no-lo o Unigênito de Deus, que está no seio do Pai” (Jo 1,18). Rompeu Deus o silêncio: saiu de seu mistério, dirigiu-se ao homem e desvendou-lhe os segredos de sua vida pessoal; comunicou-lhe seu desígnio inaudito de uma aliança que levasse a uma participação de vida. Deus, o Deus vivo, falou à humanidade. Esse fato imenso que domina ambos os Testamentos. Essa palavra, inicialmente longínqua, confusa, intermitente, como que numa série de sons destacados cujo nexo os ouvidos mal percebiam, entrega-se toda inteira em Jesus Cristo, Filho do Pai, Verbo do Pai, torna-se Evangelho e ressoa, clara e distinta como uma mensagem: a “palavra da Boa-nova” (At 15,7), a “palavra do Senhor” (1Tes 1,8; 2Tes 3,1), a “palavra de Deus” (1Tes 2,13), a “palavra de verdade” (2Cor 6,7; Ef 1,13; Col 1,5; 2Tm 2,15), a “palavra de vida” (Flp 2,16), a “mensagem de salvação” (At 13,26), “o Evangelho da graça” (At 20,24).
A revelação ou palavra de Deus à humanidade é a primeira realidade cristã: o primeiro fato, o primeiro mistério, a primeira categoria. Toda a economia da salvação, na ordem do conhecimento, repousa sobre esse mistério da automanifestação de Deus numa confidencia de amor. A revelação é o mistério primordial, o que nos comunica todos os outros, pois é a manifestação do desígnio salvífico de Deus, premeditado desde toda a eternidade e que ele realizou em Jesus Cristo (Ef 1,9-10; Rm 16,25-27). Pela revelação conhecemos os dons da salvação e os meios que nos levam à sua consecução. A Revelação é o acontecimento decisivo e primeiro do cristianismo, condicionante da opção de fé, pois, se Deus falou à humanidade e se isso for solidamente comprovado, a opção de fé não será uma opção às cegas, mas uma opção de homem, de acordo com sua natureza de ser inteligente e livre. A revelação, finalmente, é a primeira das categorias que fundamentam toda pesquisa teológica. Revelação, inspiração, tradição, significam para a ciência teológica o mesmo que as noções básicas para as ciências humanas. Implicadas em todos os passos, essas categorias são as primeiras que se devem conhecer, definir, explicar.
2. A revelação no antigo Testamento
Caracteriza-se a religião do Antigo Testamento pela afirmação de uma intervenção de Deus na história, intervenção devida unicamente à sua livre decisão. É concebida essa intervenção como o encontro de alguém com alguém: de alguém que fala com alguém que ouve e responde. Dirige-se Deus ao homem como um senhor a seu servo, interpela-o, e o homem, que ouve a Deus, responde pela fé e pela obediência. O fato e o conteúdo dessa comunicação, nós o chamamos de revelação.
Tomada em sua totalidade, como um fenômeno complexo que compreende uma multiplicidade de formas e de meios, essa revelação apresenta-se, antes de mais nada, como a experiência da ação de uma potencia soberana que modifica o curso normal da historia e da existência individual. Ação que não é, porém, uma manifestação violenta de poder, emoldurada sempre e amoldada por palavras: é uma potencia que dialoga, anuncia, explica, manifesta um plano. Deus não fala à massa, mas escolhe inicialmente um povo e, nesse povo, intermediários que transmitirão sua palavra e exigirão, em seu nome, uma resposta.
Ainda que o Antigo Testamento não tenha um termo técnico para traduzir a idéia de revelação, a expressão “palavra de Javé” permanece a expressão privilegiada, a mais freqüente e significativa para exprimir a comunicação divina. Nas teofanias, a manifestação sensível está a serviço da palavra. O mais importante não é ver a divindade, mas ouvir sua palavra. O chamado de Deus a Abraão apresenta-se-lhe como simples falar divino (Gen 12,1ss). É igualmente significativo o fato de Moisés, que podia conversar com Deus, como um amigo com seu amigo (ÊX 33,11), não pode ver sua face (Ex 33,21-23). Na revelação do Sinai, a força da narrativa recai na palavra de Deus. Quanto aos profetas, “é de se notar, que as palavras são o essencial mesmo nas visões”. A revelação por visões é também revelação pela palavra. É por sua palavra que Deus, progressivamente, introduz o homem no conhecimento de seu íntimo. “A palavra de Deus, no Antigo Testamento, dirige e inspira uma historia que se inicia pela palavra divina pronunciada na criação e que termina com a palavra feita carne”. Traçar, pois, a historia da palavra de Deus é traçar ao mesmo tempo a historia da revelação.
2.1. As etapas da historia da revelação
1º. Ainda é hesitante a pesquisa quanto à fase mais antiga da revelação, fase que parece centrada nos fatos teofânicos e nas manifestações de tipo oracular.
O Gênesis narra que Javé apareceu sob formas humanas a Abraão, junto aos terebintos de Mamré (Gen 18,1ss), anunciando-lhe o nascimento de Isaac e a destruição de Sodoma. Aparece-lhe ainda Javé para concluir uma aliança e mudar seu nome de Abrão em Abraão (Gen 26,2;32, 25-31; 35,9). Impossível, contudo, determinar a natureza exata dessas manifestações, que poderiam ter sido visões sensíveis, afetando os sentidos exteriores, ou apenas visões interiores, apresentadas de forma antropomórfica apta a indicar o caráter intenso e direto da experiência interior. Não há duvida de que essas tradições patriarcais foram conservadas em textos que a pesquisa contemporânea atribui aproximadamente ao século décimo ou ao nono-oitavo; textos porem, que transmitem tradições muito mais antigas. Pode-se admitir, contudo, que essas experiências foram retocadas pelos narradores.
O ambiente oriental usava algumas técnicas para tentar penetrar os segredos dos deuses: adivinhações, sonhos, sortilégios, agouros etc. o Antigo Testamento, durante muito tempo, conservou algumas dessas técnicas, purificando-as de suas aderências politeísticas ou mágicas (Lev 19,26; Dt 18,10s; 1Sam 15,23; 28,3), atribuindo-lhes, contudo, certo valor. Nos momentos importantes ou difíceis, por exemplo, antes de uma guerra ou aliança, Israel interroga, consulta Javé, seu Deus, que ele sabe estar presente a todas as suas ações (1Sam 9,1-10; Jos 7,6-15; 1Sam 10,20-21). Mas, enquanto entre seus vizinhos semitas ou egípcios o adivinho procura coagir os deuses mediante ritos considerados infalivelmente eficazes, Israel espera uma resposta que depende do bel-prazer de Javé. Essas consultas, quase sempre em favor dos chefes da nação, são feitas pelos videntes e principalmente pelos sacerdotes )1Sam 14,36; 22,15). Nos oráculos, o sacerdote usa os Urim e Thummim, guardados no ephod; as respostas são dadas em fórmulas breves, sim ou não (Dt 33,8; Ex 28,30; Lev 8,8; Num 27,21; 1Sam 14,41; 23,10ss). Significativo também que Israel tenha sempre recusado aceitar certas formas clássicas da técnica de adivinhação, por exemplo, a hepatoscopia, muito usada nos sacrifícios divinatórios do antigo oriente.
Como a maioria dos povos antigos, admitiam os hebreus que Deus se pudesse servir de sonhos para dar a conhecer suas vontades (Gen 20,3;28,12-15;37,5-10; Jz 7,13ss; 1Sam 28,6; 1Rs3,5-14). José tem uma taça de adivinhação (Gen 44,2.5) e é perito na interpretação de sonhos (Gen 40-41). Progressivamente, porém, distinguem-se os sonhos que Deus envia aos profetas autênticos (Num 12,6; Dt 13,2) e os dos adivinhos profissionais que apregoam sonhos mentirosos (Jer 23,25-32; Is 28,7-13).
Nos profetas, essas técnicas arcaicas tendem a desaparecer, dando lugar à experiência da palavra que prevalece[1].
2º. A aliança do Sinai é um momento decisivo na historia da revelação. Não pode ser compreendida a não ser à luz de todo o processo histórico, cuja meta e acabamento ela constitui. Javé, que provara a Israel o seu poder e sua fidelidade livrando-o do domínio egípcio, pela Aliança faz desse povo sua propriedade e torna-se chefe da nação. Todas as tradições ligam à Aliança certas leis que são as condições de Javé, as cláusulas Poe ele impostas a Israel. Leis que são as “palavras” da aliança (Ex 20,1-17). O característico dessas debarim, que originalmente poderiam ter existido de forma muito mais simples e não decalógica, é o estilo apodítico, que não encontramos senão em Israel e em alguns tratados hititas do segundo milênio. As palavras da Aliança são a revelação da vontade divina, que respeitada ou transgredida trará a benção ou a maldição; exprimem o exclusivismo do Deus de Israel e suas exigências morais. A Aliança transformou em comunidade as tribos que tinham saído do Egito, dando-lhes uma lei, um culto, um Deus, uma consciência religiosa. Torna-se Israel um povo governado por Javé. Todo seu destino, de agora em diante, está ligado a essa vontade divina historicamente manifestada e alicerçada no acontecimento da libertação. Os mishpatim ou costumes do Código da aliança (Ex 20,22-23;19), se bem que sejam de uma fase ulterior que supõe uma canonização das leis consuetudinárias dos antepassados também como expressão da vontade de Deus. Por suas fórmulas imperativas, já, porém, mais circunstanciadas ou casuísticas, são um prolongamento do Decálogo.
3º. O profetismo constitui uma nova etapa na historia da palavra. Já o eloísta ou o javista, quando narram a historia das origens da nação, tomam um ponto de vista profético. Consideram certos fatos como “julgamentos” e vêem nos patriarcas seres carismáticos, dirigidos pela palavra de Javé (Gen 12;13;15;16;18;26;28). Balaão, apesar de pagão, tem papel de um profeta inspirado (Num 22-23). Principalmente Moisés é considerado como o protótipo dos profetas (Dt 34,10-12; 18,15.18). se bem que Josué já apareça como confidente e porta-voz de Javé, foi somente a partir de Samuel (1Sam 3,1-21) que o profetismo se tornou freqüente; parece quase permanente até o século quinto, mesmo sendo sem,pré antes carismático que institucional.
No tempo dos profetas escritores, a palavra de Javé impõe-se cada vez mais como a expressão da vontade divina e como poder decisivo na historia de Israel. Os profetas anteriores ao exílio (Amós, Oséias, Miquéias, Isaías) são os guardiões e defensores da ordem moral imposta pela Aliança. Sua pregação é um chamamento à justiça, à fidelidade, ao serviço do Deus todo-poderoso e três vezes santo. Como, porém, Israel é infiel às condições da Aliança, as mais das vezes o dabar divino condena e anuncia castigos (Am 4,1;5,1;7,10-11; Os 8,7-14;13,15; Mq 6-7; Is 1,10-20; 16,13;28,13-14;30,12-14;37,22;39,5-8). Castigos que não serão revogados. O tema da irreversibilidade e do dinamismo da palavra divina afirma-se claramente em Is 31,2; Os 6,5, e ainda mais explicitamente em Is 9,7: “Lança o Senhor uma palavra contra Jacó e ela cai sobre Israel”. Aqui aparece a palavra como puro dinamismo. Cai como flecha e desenvolve seus efeitos por etapas sucessivas.
Jeremias ocupa lugar importante na reflexão teológica sobre a revelação, pois tentou determinar os critérios da autentica palavra de Deus. Tais critérios são: a realização da palavra do profeta (Jer 28,9;32,6-8; Dt 18,21-22), a fidelidade a Javé e à religião tradicional (Jer 12,13-32), o testemunho enfim, tantas vezes heróico, do próprio profeta sobre a sua vocação (Jer 1,4-6;26,12-15). Jeremias foi consagrado profeta como que num rito: colocou-lhe Deus na boca sua palavra como um objeto material (Jer 1,9). Alimento saboroso (Jer 15,16), ou fonte de tormentos (Jer 20,9.14), a palavra de Deus escraviza-o e coage-o como uma realidade objetiva e superior. A palavra, da qual é o destinatário ou o órgão, está geralmente relacionada com a fidelidade que Israel deve à Aliança de Javé. Jeremias é o defensor da Lei e da Aliança. Como os outros profetas, exorta, promete, ameaça (Jer 2,4;7,2;17,20;22,2.19;34,4;22,5;26,12-13;19,2;20,1). Também apresenta a palavra como uma entidade independente, de dinamismo irresistível (Jer 5,14;23,29;25,13;26,12).
4º. O Deuteronômio, originário dos ambientes do norte trabalhados pela pregação profética dos séculos nono e oitavo (segundo Welch, Alt, von Rad), encontra-se na confluência de duas correntes: a legalista, expressão do sacerdócio, e a profética. Aprofunda-se, sob essa dupla influencia, a teologia da Lei. O Deuteronômio, procurando corrigir o presente à luz do passado, relaciona mais que nunca a Lei ao tema da Aliança. A historia de Israel, com suas desgraças, aparece como a conseqüência lógica duma infidelidade constante e renovada. Javé, revelando sua vontade prometera sua benção à obediência: o castigo de Israel é o julgamento de Deus sobre a desobediência de seu povo[2].
Israel, pois, se quiser viver, deve pôr em pratica todas as palavras da Lei (Dt 29,28) que, saída da boca de Javé, é fonte de vida (Dt 32,47). O Deuteronômio amplia em diversos sentidos o dabar divino. Os relatos do Sinai empregam o termo debarim para designar o Decálogo (Ex 20). O Deuteronômio, que também chama o Decálogo de: as “dez palavras” (Dt 4,13;10,4) estende a expressão a todas as cláusulas da Aliança (Dt 28,69), isto é: ao conjunto das leis morais, civis, religiosas e criminais. Firma-se de tal modo a coesão de todas essas prescrições que “palavra” acaba sendo a designação de toda a Lei mosaica (Dt 28,69; 30,14;32,47). Nas leis do Sinai, o dabar divino era simples mandamento, sem comentários. No Deuteronômio, pelo contrário, os preceitos são acompanhados de evocações históricas, promessas e ameaças (Dt 4,32), que devem inspirar o amor e o respeito pela lei. Finalmente, interioriza-se a palavra da lei. Os “mandamentos e as leis” que Javé prescrevera (Dt 27,10) já não se concebem como simples imperativos, mas como uma realidade íntima no coração do homem: “A palavra está perto de ti, tu a tens em tua boca e no coração, para poder cumpri-la” (Dt 30,11-14). Consiste a Lei em amar a Deus de todo o coração e de toda a alma (Dt 4,29).
5º. Paralelamente às correntes proféticas e deuteronômicas, forma-se uma literatura histórica (Juizes, Samuel, Reis) que abarca fontes e documentos muito mais antigos. Essa literatura histórica é em realidade uma historia de salvação e uma teologia da historia. Nas desgraças e nos sucessos de Israel, o livro dos Juízes vê uma ilustração do regime da Aliança. Principalmente no livro dos Reis desenvolve-se a concepção do dabar divino presente na historia para dirigi-la. A Alinça concluída por Javé e as condições por ele impostas, supõem que o curso dos acontecimentos é regulado pela vontade divina, levadas em conta as atitudes do povo eleito. Desde então Israel sempre pensou sua religião em categorias históricas. E a torna compreensível. Ao longo de toda a historia dos Reis, as palavras de Javé vão escandindo o curso dos acontecimentos, manifestando seu sentido religioso (1Rs 2,4;3,11-14;6,11-13;8,46-52;9,3-9;11,31-39;12,15;14,6-16;15,29-30;16,1-4; 2Rs 9,7-10;21,10-15;22,16-20;24,2-4).
Importante nessa literatura histórica é o texto da profecia de Natan (2Sam 7) que dá à Aliança conexões com a realeza e inicia o messianismo real. Com essa profecia a dinastia de Davi torna-se para sempre a aliada direta de Javé (2Sam 7,16;23,5), ponto central na historia da salvação. De agora em diante, repousa sobre o rei a esperança de Israel: primeiro o rei presente, depois um rei futuro, escatológico, à medida que as infidelidades dos reis históricos tornam mais remota a esperança de um rei conforme ao ideal davídico. Essa profecia é o inicio de uma teologia, elaborada pelos profetas. Teologia eminentemente de promessa, voltada sempre para o futuro, mais que a teologia da Aliança do Sinai, cujas exigências são principalmente cotidianas.
6º. Quando do exílio, a palavra profética, sem deixar de ser uma palavra viva, torna-se sempre mais uma palavra escrita. Significativo que a palavra confiada a Ezequiel está escrita num rolo que o profeta deve comer para depois anunciar seu conteúdo (Ez 3,1ss). Suas mensagens ganharão, escritas, a estabilidade dos decretos divinos. Ezequiel é o ministro duma palavra irrevogável, que anuncia os acontecimentos dando-lhes um desenrolar infalível (Ez 12,25-28; 24,14). Com ele, as vezes, o dabar não é apenas uma mensagem, mas uma ordem formal e veemente, um poder que opera efeitos físicos. Uma primeira característica da profecia de Ezequiel é o número e a amplitude das visões (Ez 1;2,8-3,9;8-11;37;40,1-48,35). Há palavras que comentam essas visões que, por si mesmas, são um ensinamento. Uma segunda característica é o tom pastoral da palavra de Ezequiel. Após a queda de Jerusalém (Ez 33,1-21), já não existe Israel como nação. Torna-se então a palavra de Javé uma palavra de conforto e esperança para os exilados abatidos. Ezequiel começa a formar o novo Israel, como o faria um diretor espiritual (Ez 33,1-9). Deixando entrever que a palavra que decreta e infligira o castigo continua sendo uma promessa, Ezequiel, contudo, preocupa-se que não haja engano quanto a sua natureza e exigências: não basta ouvir a palavra, é preciso dela viver (Ez 33,31). Ezequiel, “pela importância dada ao mashal, ao ensinamento moral e individual, orienta-nos claramente para uma noção sapiencial da palavra, para uma reflexão fria”.
Deutero-Isaías (Is 40-55), que devemos ler no contexto do exílio, considera o dabar divino em seu dinamismo a uma só vez cósmico e histórico. Manifesta-se a transcendência de Javé primeiramente em a natureza. O exercito dos céus obedece ao Criador: Javé chama pelo nome os astros, os quais obedecem (Is 40,26;45,12;48,13). Sua absoluta soberania sobre a criação é o fundamento e a garantia de sua ação onipotente na historia: porque Javé, pela sua palavra, fez do nada tudo surgir, por isso é o senhor das nações como das forças da natureza. O aspecto histórico do dabar inspira toda a primeira parte da coleção (Is 40,1-48,22). A palavra domina a historia e de antemão lhe revela o curso (Is 45,19;48,16). Está no início e no termo dos acontecimentos: ela que os prediz, suscita, realiza. Em Is 48,3-8, a realização das profecias anteriores aparece como garantia das coisas futuras também anunciadas: da libertação, da volta, da restauração, do universalismo escatológico. Nas mãos de Deus estão os pólos extremos da historia (Is 41,4;44,6;48,12). Historia que é inteligível porque se desenvolvendo segundo um plano que a palavra revela progressivamente aos homens. Finalmente, em Is 55, o autor canta a eficácia infalível da palavra que executa as vontades divinas com a mesma fidelidade dos elementos da natureza: “Assim como a chuva e a neve do céu descem e não voltam para lá sem terem antes irrigado a terra e a terem fecundado e feito germinar... assim será da palavra que sai da minha boca: não voltará a mim vazia, mas, antes, operará tudo o que agrada, e obterá o escopo para o qual a mandei” (Is 55,10-12). Audaciosa personificação, que apresenta a palavra como realidade dinâmica, criadora da história.
7º. A literatura sapiencial é testemunha de uma tradição muito antiga em Israel (1Rs 5,9-14;10,1-13.23-25); na época persa e helenista, porém, é que está mais em voga: às coleções existentes (por exemplo, Prov 10,1-22,16;25-29) juntam-se numerosas criações (Jó, Eclesiastes, Eclesiástico, Sabedoria). Ainda que a literatura sapiencial do Antigo Testamento pertença a uma corrente de pensamento internacional (Grécia, Egito, Babilônia, Fenícia) presente desde o segundo milênio, contudo, em Israel essa corrente transformou-se bem cedo num instrumento de revelação.
O mesmo Deus, que ilumina os profetas, usou a experiência humana para dar o homem a conhecer-se a si mesmo (Prov 2,6;20,27). Inicialmente essa sabedoria é simples reflexão, positiva e realista, sobre o homem e seu comportamento, para ajuda-lo a se orientar na vida com prudência e discrição (Prov 1,1-6). Na Grécia essa reflexão será mais especulativa e se transformará em filosofia. Em Israel, muito cedo o tesouro de experiência dos sábios foi vivificado pelo sopro da religião de Javé. Assumindo a experiência humana, Israel interpreta-a e aprofunda à luz de sua fé em Javé, senhor dos homens e da vida. E até mais: muitas vezes pertencem à revelação os dados sob os quais se inclina a reflexão sapiencial: a criação (Eclo 43), a história que torna patentes os caminhos de Deus (Eclo 44 – 50), os livros históricos, a Lei e os profetas (Eclo 3921ss). Sob a influencia dessa fé em Javé, a antítese sabedoria – loucura torna-se progressivamente uma oposição entre justiça e iniqüidade, piedade e impiedade. Sábio é quem cumpre a lei de Deus (Eclo 15,1;19,20;24,23; Eclo 12,13), pois toda sabedoria provém de Deus (Prov 2,6). Somente ele a possui plenamente; manifesta-a em suas obras e comunica-a aos que o amam )Eclo 1,8-10; Sab 9,4; Jó 28,12-27). A sabedoria, como a palavra, saiu da boca do Altíssimo; agia nas origens da criação e veio estabelecer-se em Israel (Eclo 24,3-31). Assim a sabedoria se identifica finalmente com a palavra de Deus, criadora e reveladora (Sab 7-9).
8º. O saltério, formado aos poucos, ao longo de toda uma historia, é principalmente uma resposta à revelação; mas é também revelação, pois a oração dos homens, pelos sentimentos que manifesta, dá à revelação toda a sua dimensão. A grandeza, a majestade, a potencia, a fidelidade, a santidade de Javé reveladas pelos profetas, refletem-se nas atitudes do crente e na intensidade de sua oração. Espelhos da revelação, os salmos são também sua reatualização cotidiana no culto do templo. Não nos admiremos, pois, se ali reencontramos os diferentes aspectos da palavra já indicados. Muitas vezes a palavra de Javé indica os preceitos impostos por Deus a seu povo (Sl 17,4;107,11). O salmo 119 amplia essa visão celebrando a torá como a encarnação de toda a revelação divina, que às vezes ordena, ameaça às vezes ou faz promessas. Há também no saltério oráculos que são recordação dos compromissos anteriormente assumidos por Javé (Sl 99,7; 85,9; 89,20; 12,6; 62,12; 60,8; 105,11; 68,23). O salmista põe ainda em evidencia a veracidade, a fidelidade da palavra de Javé, segura e sem mescla. Mesmo quando o dabar não é proferido em forma oracular, tem muitas vezes o valor de uma promessa. Assim, no salmo 56, põe o fiel sua esperança na palavra de Javé cuja veracidade jamais falha. Finalmente, muitos salmos celebram a palavra criadora de Javé: o mundo surge do nada ao som da palavra que produz, organiza e governa (Sl 33,6.9). os elementos naturais, mesmo o tufão, obedecem à ordens de Deus (Sl 147,15-18; 107,25; 148,8). Em resumo: para os salmistas a palavra de Deus é ao mesmo tempo promessa e potencia que se exerce em a natureza e na história.
9º. Concluindo este esboço, ponhamos em evidencia o papel da escritura na história da revelação. O processo que levou à fixação da palavra foi inicialmente muito lento. Até ao fim da época dos reis, foi principalmente de forma ocasional que se escreveram as antigas tradições e os oráculos proféticos. Nem parece que pretendesse formar um cânon. Após o exílio somente é que se constituíram essas grandes compilações, redigidas em camadas sucessivas, com dados muito antigos, chamadas código deuterocanônico e código sacerdotal. Assim fixada, foi possível ler e meditar a palavra de Deus e contemplar a fiel realização de suas promessas. Reveste-se a palavra de Deus de caráter duradouro de eternidade: ela permanece irrevogável e infalível. Por outro lado, fixando-se, corre o risco de perder um tanto do dinamismo que tivera nos profetas; será preciso também atualiza-la sempre, aplicando-a à novas situações históricas,numa releitura constante que por si mesma será um aprofundamento.
3. Valor Noético e dinamismo da palavra de Deus
O esboço de historia da revelação já nos dá uma idéia sobre o sentido e o valor da palavra de Deus em Israel. Se é contestada a etimologia do termo dabar[3], seu uso dá-nos a conhecer seu alcance preciso. Dabar é “o que sai da boca” (Num 30,13) ou “dos lábios” (Jer 17,16) do homem, mas que tem sua fonte no coração. O dabar exprime, exterioriza o que o homem já proferiu em seu coração (Gen 17,17; Sl 14,1) ou que lhe vem ao coração (Jer 3,16; Is 65,17), ou ao seu espírito (Ez 11,5;20,32). A palavra não é, pois, a simples expressão de idéias abstratas; está carregada de sentido, tem um conteúdo noético que vem da concentração do coração sobre um objeto ou de pensamentos que dele se apossam, traduzindo ao mesmo tempo um estado de alma, que de algum modo impregna a palavra pronunciada, articulada. Pedersen tem razão quando afirma que “a palavra... é a expressão corporal do conteúdo da alma...; por detrás da palavra subsiste a totalidade da alma que a criou. Se quem proferiu a palavra é uma alma enérgica, então sua palavra exprimirá mais realidade que a de uma alma fraca. Quem dirige uma palavra a outro, faz nascer um pouco de sua própria alma na alma do outro”[4]. Por isso a palavra é eficaz, agindo como um prolongamento da energia física de quem a proferiu.
Para Israel a palavra tem duplo valor: noético e dinâmico. É expressão de pensamento, intenções, projetos, decisões; é discurso inteligível; esclarece o sentido dos acontecimentos; ela “nomeia” as coisas, pois o nome é a realidade enquanto inteligível. Por outro lado, é uma força ativa, um poder que realiza o que significa; opera o que o homem medita e decide em seu coração. Palavra de desejo, de promessa, de preceito, permanece sua ação enquanto dura o processo que desencadeou. Sua eficácia é tanto maior, quanto mais potente a vontade que lhe deu origem (como a dos reis, de Deus) ou mais profunda a fonte de que jorrou (amor, ódio). A palavra libera uma energia que não poderá ser recuperada: sua eficácia aparece principalmente nas mudanças de nome que determinam uma nova atribuição ou vocação (Gen 27; Jz 17,1-2; 2Sam 12,1-8; Num 5,12-13). O realismo da palavra é confirmado ainda pelo fato de dabar designar não apenas a palavra, mas também a coisa, a realidade, o acontecimento que ela suscita (Gen 22,1;24,66; 2Rs 11,41). Em resumo, a palavra é uma força atuante cujo dinamismo se fundamenta no dinamismo mesmo de quem a pronunciou. Mal se distingue da pessoa, cujo modo de ser e de agir ela é. Por isso é reveladora. Ninguém fala sem se revelar.
Assim a palavra de Javé, é ao mesmo tempo noética e dinâmica; discurso do Deus de verdade e ato salvador do Deus vivo; anúncio e realização da salvação; luz e poder. A palavra de Deus cria o mundo, impõe a lei, suscita a historia; a mesma palavra manifesta ao homem a vontade de Deus, seu desígnio salvífico. A palavra de Deus realiza infalivelmente o que ela diz. Envia-a Deus como se envia um mensageiro vivo e está atento para que se cumpra. A palavra de Deus permanece para sempre, fiel e eficaz.
4. Revelação cósmica e revelação histórica
Só tardiamente a reflexão teológica de Israel se ocupa com a palavra criadora (se bem que a idéia da criação possa ter surgido e circulado muito antes de aparecer nos textos sagrados). Principalmente através da historia é que Israel conhece Javé, quando no Egito experimentou seu poder libertador. Meditando continuamente sobre esse poder ilimitado de Javé, que utilizava os elementos naturais na salvação de seu povo (pragas do Egito, travessia do mar, teofania do Sinai), chegou à crença na criação, após maturação orgânica e homogênea influenciada pelo meio ambiente. Compreendeu Israel que o mesmo Deus que o suscitara do nada da escravidão, também do nada fizera surgir o cosmos. Sua soberania é universal. Gen 1 afirma que Deus tudo criou por sua palavra: dá nome aos seres, e a seu chamado eles surgem do nada; a palavra de Deus dá-lhe existência e subsistência. O salmo 33 é ainda mais expressivo: “Uma palavra do Senhor criou os céus, e um alento de sua boca a todos ornou... porque ele diz, e é criado, ele ordena e tudo existe” (Sl 33,6.9). uma vez que a criação é o que foi dito por Deus, ela é também revelação. Os seres são um eco da palavra daquele que os nomeou, manifestam sua presença, sua majestade, sua sabedoria (Sl 19,2-5; Jó 25,7-14; Prov 8,22-31; Eclo 42,15-43, 33, Sab 13,1-9). Deus aparece como que velado numa nuvem (Ex 13,21), abrasador como fogo ardente (Ex 3,2; Gen 15,17), atroante na tempestade (Ex 19,16; Sl 29,2ss), suave como a brisa leve (1Rs 19,12ss)[5]. E ainda mais: a fonte sacerdotal, que repensa a criação em termos litúrgicos, vê o universo como a expressão da vontade de Deus que, pelos astros e estações, regula os tempos litúrgicos, os sábados e as festas (Gen 2,2-3). Também por sua palavra governa Deus os fenômenos da natureza: a neve, a geada, os ventos (Sl 107,25; 147,15-18; 148,8; Jó 37,5-13), as águas do abismo (Is 44,27; 50,2). As suas ordens astros e elementos combatem por Israel (Sl 46,7; 106,9-12; 107,25). Afora a revelação primitiva narrada nos primeiros capítulos do Gênesis, a revelação histórica (para distingui-la da cósmica) começa com Abraão, Moisés e os profetas. Torna-se então a palavra plenamente inteligível. Dirige-se Deus ao homem, interpela-o, torna-o participante de seu desígnio, fala-lhe. Torna-se a revelação mistério de um encontro pessoal entre o Deus vivo e o homem. A Lei e a palavra profética são as formas privilegiadas dessa revelação.
A palavra, quando se impõe às coisas, é criadora; quando se impõe aos homens, torna-se lei. As “dez palavras” do Sinai (Ex 34,28; Dt 4,13;10,4), pronunciadas por Javé sobre a montanha, por entre fogo, constituem uma revelação da vontade do Deus da Aliança; Javé afirma-se então como o Senhor. O termo palavra aplicada aos costumes do Código da aliança (Ex 20,22-23,19), significa que tudo na vida cotidiana dos hebreus está submetido à vontade de Javé e se passa na sua presença. O Deuteronômio depois aplica o termo palavra a todas as prescrições da Aliança, de tal modo que a palavra serve para designar toda a Lei mosaica (Dt 28,69). Por fim, o conjunto dos livros sagrados, principalmente a Lei, serão considerados como palavra de Deus. nesse estágio, a Lei absorve tudo: lei, sabedoria, profecia. Expressão da vontade divina, é o caminho de vida e de salvação (Dt 30,14;32,47;8,3). Conforme for aceita ou recusada será perdão ou julgamento, vida ou morte.
A revelação profética é a outra forma da revelação histórica. A expressão “palavra de Javé”, em 225 casos num total de 241, serve para designar a palavra recebida ou proferida pelo profeta. Devido à sua importância, essa forma de revelação exige um tratamento especial.
4.1. A revelação profética
A revelação do Sinai constitui sempre o bloco central da revelação; mas, se perdurou no Antigo Testamento, principalmente através da época dos reis e do exílio, se foi aprofundada e desenvolvida, foi mérito principalmente dos profetas. Quando retornam as leis e exigências da aliança, fazem-no de maneira tão vigorosa que nos dão a impressão de criar coisas inteiramente novas, como se fossem arautos de uma religião que transcende e quase se opõe à da Lei. É que eles têm uma fonte secreta. De fato, a autoridade e originalidade do profeta vêm de sua experiência privilegiada: ele conhece Javé, pois Javé lhe falou e confiou sua palavra. Foi admitido a uma intimidade toda especial junto de Deus: chamado a partilhar do seu conhecimento, seus desígnios, suas vontades, para interpreta-los junto aos homens. Semelhante aos anjos que participam do conselho divino (Jó 1,6;2,1; Zac 1,11ss), o profeta “assiste ao conselho de Javé” (Jer 23,18.22; 1Rs 22,19-23) que lhe revelou seus desígnios (Am 3,7). Conhece os segredos do altíssimo (Num 24,16-17), pois ouviu as palavras de Javé (1Sam 15,16). Possui a palavra de Javé que lhe falou.
Essa é a experiência fundamental do profeta. Nele está a palavra de Javé (Jer 5,13). Foi colocada em sua boca (Jer 1,9;5,14), ele a engoliu como um alimento (Ez 3,1-3). Diversas vezes repete Jeremias que na posse da palavra reside a diferença decisiva entre o verdadeiro e o falso profeta (Jer 23,16-31). “Assim fala Javé” é habitualmente a introdução da mensagem profética, ou: “ouvi a voz do Senhor” (Is 6,8), ou “assim me falou Javé” (Is 8,11; Jer 11,21;15,1), ou “meus ouvidos receberam esta revelação” (Is 22,14), ou: “veio a mim a palavra de Javé”[6]. Que essa palavra seja no profeta um pensamento como que repentino ou uma idéia lentamente formada, ela sempre lhe “é dada”, “veio a ele”. Vinda que é um acontecimento sobrenatural. A experiência da palavra produz no profeta a firme convicção de que está ouvindo uma palavra divina e não humana. Tem consciência de não ter criado essa palavra que nele está, mas dele não vem (Jer 1,4-10), e que tantas vezes, aliás, vai contra seus instintos e sentimentos naturais[7]. Diz Mowinckel: “O conhecimento especial de Deus, próprio aos profetas, consiste em terem recebido a palavra de Javé, conhecendo-lhe a vontade e os desígnios, e, portanto, a faceta de seu ser voltada para o mundo”.
O profeta recebeu a palavra não para guardá-la, mas para publicar e anunciar. É a boca de Javé (Jer 15,19; Ex7,1-2), como Aarão era profeta de Moisés cujas palavras proclamava (Ex 4,16). Jeremias é constituído profeta porque Deus o enviou e lhe pôs na boca suas palavras. O profeta é o arauto de Javé, escolhido, chamado para proclamar as palavras que dele recebeu e ouviu. É o homem da palavra (Jer 18,18). Está entre os homens como intérprete, autorizado por Deus, de tudo que acontece no mundo (Tempestades, cataclismos, penúria, prosperidades), na humanidade (pecados, mortes, obstinações) e na historia (derrotas, vitórias, sucessão de impérios). É preciso sublinhar o caráter objetivo e dinâmico da palavra. Javé dirige a palavra ao profeta: chega-lhe esta como realidade ativa, carregada da força que o próprio Deus lhe comunica. O primeiro efeito dessa palavra manifesta-se no próprio profeta que a recebe: é tomado por uma força de alegria extrema que o acomete de opróbrio (Jer 20,7-9), a palavra age como fogo devorador (Jer 20,8-9), como uma força irreprimível (Jer 6,11). Impossível escapar-lhe. Javé falou, o profeta deve testemunhar. Nele a palavra é como uma luz e uma energia. Foi essa a experiência de Amós (Am 3,8), de Jeremias (Jer 20,7-9), de Isaías (Is 8,11), de Ezequiel (Ez 3,14), de Elias (1Rs 18,46), de Eliseu (2Rs 3,15). O profeta está ligado a Deus por sua palavra.
A palavra de Deus, além da ação sobre o profeta, tem uma eficácia própria, independendo do profeta: um valor sacramental. Quando Javé lança sua palavra nada lhe pode barrar o movimento: segue seu caminho e realiza sua obra. Destruição, morte, fome, salvação, fuga de exércitos: tudo acontece segundo a palavra que é verdade (1Rs 15,29;16,12; 2Rs 1,17;7,16;9,26;10,17). A palavra do profeta, que é palavra de Deus em palavras humanas, participa dessa eficácia. Recebe Jeremias poder “sobre as nações e sobre os reis, para extirpar e abater, para destruir e demolir, para construir e plantar” (Jer 1,9-10; 1Sam 16,4; 2Rs 2,24). A palavra de Deus é como o martelo que despedaça as pedras (Jer 5,14;23,29), ou como a espada que mata (Os 6,5). Não é jamais estéril (Is 45,23;31,2). “Permanece perene” como o próprio Javé (Is 40,6-8). Não que seja uma força indomável. Deus continua sendo o Senhor e dirige-lhe os efeitos conforme seus planos; e esse plano revelado pouco a pouco é a salvação e a vida do homem. Por isso, principalmente no Antigo Testamento, Deus tem paciência, atende, deixa-se dobrar, perdoa e até mesmo se arrepende.
Campo de ação da palavra profética é a historia, da qual é criatura e intérprete. A revelação de Deus, com efeito, chegou ao povo hebreu pela experiência da ação divina em seu favor. Também a religião bíblica é essencialmente crença em fatos divinos, em intervenções de Deus na trama da historia humana. Tais fatos são principalmente os que marcaram o nascimento de Israel como nação: libertação do cativeiro do Egito, marcha pelo deserto, conquista da terra prometida. Por quarenta anos Javé caminhou com seu povo, conduziu-o como pastor. Só ele o protegeu, defendeu, salvou. Nesses acontecimentos apóia-se a fé de Israel, e seu credo consiste em recitá-los (Dt 26,5-10). Nos tempos seguintes, os profetas constantemente se referem a eles, seja para chamar Israel de volta à felicidade, à Aliança, seja durante o exílio, para anunciar um novo Êxodo, nova Aliança (Ex 36-37; Is 54-55).
A ação divina, que faz da historia uma obra de salvação ou de condenação, é duplamente o efeito da palavra: é a palavra de Javé que suscita e dirige os acontecimentos, como também é a palavra de Javé que lhes interpreta o sentido. Por sua palavra, antecipa-se Deus ao acontecimento, anuncia-o, pois Aquele que é o primeiro e o último sabe o que afinal acontecerá (Is 41,4;43,10;44,6;48,12). “Não, o Senhor nada faz sem revelar o seu segredo aos seus servos” (Am 3,7). Todas as etapas decisivas da historia de Israel foram precedidas pela palavra: criação (Gen 1,3), dilúvio (Gen 6,7), vocação de Abraão (Gen 12,1), vocação de Moisés e saída do Egito (Ex 3,14,30-31), marcha desde o Horeb até Canaã (Dt 1,6;6,2.18.31;3,1.27.28), vocação de Samuel (1Sam 3), realeza (1Sam 15,10;16,12), aliança com a dinastia de Davi na profecia de Nata (2Sam 7), divisão do reino de Israel (1Rs 11,31s), queda da casa de Acab (1Rs 21,17-24), o exílio (Jer 25,1-13), ruína de Jerusalém (Ez 1-23), retorno do cativeiro (Is 40,2;43,1-5; 44,21-23; 48,20-21). Para Israel, a historia é um processo que Javé dirige para um término que prefixou.
A palavra profética não apenas anuncia e suscita a historia, mas também a interpreta. Está o profeta imerso na historia de seu tempo e é na atualidade dessa historia que Deus lhe manifesta sua vontade e seu desígnio de salvação. O Deus do Antigo Testamento é um Deus de intervenções e o profeta é que as interpreta, percebe e proclama o seu valor salutar. Percebe o profeta o sentido divino dos acontecimentos e o dá a conhecer aos homens de seu tempo. Interpreta a história do ponto de vista de Deus. se a própria realização da salvação na historia já é palavra de Deus, seu conteúdo preciso torna-se inteligível apenas mediante a palavra do profeta. Revelação-acontecimento e revelação-palavra, são como que as duas faces da palavra de Deus. a historia da salvação é uma seqüência de intervenções divinas interpretadas pelo profeta. Para um israelita, narrar a historia é o mesmo que interpreta-la à luz do que Deus manifestou a seus confidentes. Foi através dos acontecimentos do Êxodo, interpretado por Moisés, que o povo hebreu conheceu Javé como o Deus vivo e pessoal, único, onipotente, fiel, que salva seu povo e com ele faz aliança para que, povo escolhido, lhe seja fiel na obra comum de salvação (Dt 6,20-24). Conseqüentemente, Deus, seus atributos, seus desígnios, se revelam, não abstrata, mas concretamente na história e pela historia. A mensagem de revelação está incorporada na historia. Há progresso no conhecimento de Deus, mas através dos acontecimentos que a palavra de Deus anuncia, realiza, interpreta.
4.2. Objeto da revelação
Podemos dizer que o objeto ou o conteúdo da revelação veterotestamentária é duplo: revelação do próprio Javé e revelação de seu desígnio de salvação. O Deus do Antigo Testamento revela-se inicialmente como um Deus vivo e pessoal, como Aquele que é (eficazmente), em oposição aos ídolos mudos e mortos. Como o Deus onipotente, senhor do cosmos e senhor das nações, que exige sejam obedecidas suas leis. Os profetas, aos poucos vão educando Israel para uma compreensão sempre mais profunda dos atributos divinos: Amós põe em evidencia sua justiça; Oséias, seu amor terno e ciumento; Isaias, sua grandeza e transcendência; Jeremias ensina uma religião mais interior; Ezequiel lembra as exigências da santidade de Deus; o Dêutero-Isaias leva para uma religião mais universalista. Ao mesmo passo que em Israel se percebe mais claramente a transcendência de Deus, mais também se percebe sua proximidade e sua intimidade. Porque o Altíssimo, o Deus três vezes santo e misterioso, é também um Deus que sai de seu mistério, que trava um diálogo com o homem: faz-se Emanuel e Esposo. Evolução patente no tema da Aliança, Entre o Deus transcendente e o Deus da Aliança, entre o Deus oculto e o Deus da palavra, há como que uma tensão constante que constitui, digamos, a dinâmica da revelação veterotestamentária. Ambos os pólos exercem igual atração. Resulta um delicado equilíbrio entre o Deus do mistério e o Deus da revelação. Da solução deste contraste é que resulta finalmente a harmonia do sentimento religioso do fiel do antigo Testamento.
O outro aspecto da revelação veterotestamentária é a salvação. Com efeito, a Aliança prende-se a um desígnio divino (a um mistério, como o dirá são Paulo) oculto até a plenitude dos tempos, mas cujos primeiros traços progressivamente os foi revelando Deus no Antigo Testamento. Uma promessa de salvação reluz desde o protoevangelho (Gen 3,15). Por ocasião do êxodo, o Deus que Israel conhece é um Deus que salva seu povo do cativeiro, combate a seu lado, entrega-lhe a terra prometida. Nasce a Aliança nesse clima de salvação. Posteriormente a idéia da Aliança se prolonga na idéia do reino. Pela profecia de Nata (2Sam 7,16), Javé conclui uma aliança eterna com Davi e sua dinastia. A experiência do reino, porém, como a da Aliança, acaba num fracasso. Pelo menos aparentemente. Pois Deus persiste em seu desígnio com uma continuidade misteriosa, manifestando no próprio fracasso uma nova dimensão da economia da salvação. Mesmo diante da infidelidade de Israel e de seus reis, Javé anuncia, pelos profetas, uma nova Aliança, um novo reino, um novo rei (Jer 11, 3.5;24,5-7; Ez 11,19-20; Jl 3,1-5; Zac 8,1-17;13,9; Is 2,3;11). Nos períodos de crise, é de um rei que Israel espera a salvação. Pensam alguns que o próprio Javé, sem nenhum rei humano, estabelecerá seu reinado; idéia que encontramos nos salmos do Reino (Sl 97;98; Zac 14,16). Segundo outros, a salvação virá com o misterioso filho de homem que vem sobre as nuvens do céu para receber investidura e missão.
Em alguns ambientes sacerdotais de Jerusalém e em Qumrân, espera-se um Messias de raça sacerdotal. Outros, finalmente, esperam a salvação pelo servo de Javé, profeta e rei, que salvará pelo sofrimento. Israel vive dessa esperança de uma salvação que virá.
4.3. Resposta do homem à revelação
Se Deus fala, o homem deve escutar. Não se recebe a revelação bíblica numa contemplação da divindade, como nos mistérios gregos e na gnose oriental, mas escutando a palavra. Nesta terra ninguém pode ver a Deus (Ex 33,20). Deus dá testemunho de si mesmo, pela palavra comunica-se ao homem, mas foge à visão. Em sua realidade profunda é sempre o Deus insondável, o Totalmente Outro: esquiva-se o seu mistério. Samuel responde a Deus que o interpela: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta” (1Sam 3,10). Escutar indica a primeira atitude do homem ante a revelação: não de modo material e passivo, mas em disponibilidade totalmente ativa. A palavra ouvida deve ser assimilada pela fé e pela submissão, numa entrega de todo o ser, como o fez Abraão (Gen 15,6;24,7). Resposta à palavra deverá ser a docilidade do espírito e da conduta (Miq 6,8). Israel, pela revelação, conheceu a Deus, ou seja: foi admitido gratuitamente a uma comunhão de pensamento e vontade com Javé. Esse conhecimento exige como resposta de Israel um apego total a Javé pelos laços da fé, da obediência e do amor. Quem ouviu a palavra de Javé deve cumpri-la, vivendo segundo as exigências da Aliança. Foi essa a pregação constante dos profetas (Miq 6,8; Os 65,6; Jer 5,1-9;9,2-5;22,15ss). Conforme às mudanças de situação, deve o homem constantemente renovar essa fidelidade a Javé.
Revelação e fé são correlativas. A fé do Antigo Testamento, com efeito, corresponde exatamente ao tipo de revelação que lhe foi feita. No Antigo Testamento a revelação era essencialmente lei e promessa de salvação; a fé, principalmente obediência e confiança. Falando a Abraão, ordena-lhe Deus que abandone sua pátria, prometendo-lhe ao mesmo tempo uma numerosa posteridade (Gen 12,1-3;15,5-6). Deus empenha sua fidelidade ao mesmo tempo que dá sua lei ao povo de Israel (Ex 19,3-8). Desde então, para um hebreu, acreditar é obedecer e confiar; é reconhecer Javé como o único Deus Salvador de Israel, o que lhe deu a lei e prometeu a salvação; é aceitar a sua vontade e fiar-se em suas promessas. A fé em Maria, a flor do Antigo Testamento, é, pura obediência e pura confiança: obediência da serva do Senhor (Lc 1,38), confiança que exalta o Deus fiel a suas promessas[8].
4.4. Traços característicos da revelação
A revelação veterotestamentária tem traços específicos que a distinguem de qualquer outro tipo de conhecimento:
1º. A revelação é essencialmente interpessoal. Antes que manifestação de alguma coisa é manifestação de Alguém a alguém. É Javé ao mesmo tempo sujeito e objeto da revelação, Deus que revela e Deus revelado, Deus que se dá a conhecer e se faz conhecer. Javé, o deus vivo, estabelece com o homem relações de pessoa a pessoa. Alia-se-lhe como um Pai com seu servo; depois, progressivamente, como um Pai com seu filho, amigo com amigo, esposo com esposa. A palavra de Deus introduz o homem numa comunhão com Deus, para a salvação.
2º. A revelação bíblica é uma iniciativa divina. Não é o homem que descobre a Deus: é Javé que, antes, se manifesta, quando quer, a quem ele quer. Javé é liberdade absoluta. Foi ele quem primeiro escolheu, prometeu, fez Aliança. Sua palavra que contradiz a maneira humana e carnal de Israel julgar, faz brilhar ainda mais a liberdade e continuidade de seu desígnio. Manifesta-se ainda a liberdade divina na variedade de meios escolhidos para a revelação: a natureza, a existência humana, a historia; na variedade das pessoas escolhidas (sacerdotes, sábios, profetas, reis, aristocratas ou camponeses e pastores); na diversidade dos modos de comunicação (teofanias, sonhos, consultas, visões, êxtases, arrebatamentos); na diversidade dos modos de expressão ou de gêneros literários (oráculos, exortações, autobiografias, descrições, hinos, reflexões sapienciais).
3º. É a Palavra que dá unidade à economia da revelação. Essa primazia da palavra não é um postulado da fé, mas um fato perceptível pelo simples conhecimento histórico. As filosofias gregas e as religiões do período helênico procuram a visão da divindade. A religião do antigo Testamento, pelo contrário, é a religião da palavra ouvida. Deus revela e se revela pela palavra. Essa prevalência do ouvir sobre o ver é uma das características essenciais da revelação bíblica. Após o pecado, é pela fé na palavra que Deus traz a humanidade de volta à visão. Fala Deus ao profeta e envia-o para falar. O profeta comunica os desígnios e as vontades de Deus e o homem é convidado à obediência da fé. Mas, nem toda visão é excluída, pois, de algum modo e em graus diversos, a palavra já afasta os véus que obscurecem o espírito e preludia a visão. Se não chegam os homens até a intimidade do Mistério, pela palavra eles já podem, de algum modo, dele se aproximar. Notemos ainda que, se a palavra exige do homem mais atenção que a visão, ela indica um maior respeito da liberdade humana por parte de Deus: dirige-se ele ao homem, interpela-o, deixando-lhe a liberdade da aceitação ou da recusa. A palavra, que entre os homens é o intercambio mais espiritual, será também o meio por excelência para o intercambio espiritual entre Deus e o homem.
4º. Pela revelação o homem é posto em confronto com a palavra, uma palavra que exige fé e execução. O pecado, desde logo, será recusa-se a escutar, não responder aos apelos do Senhor, endurecer-se na resistência (Jer. 7,13; Os 9,17). Conforme for aceita ou recusada, a revelação será para o homem graça ou condenação, morte ou vida (Is 1,20). A sorte do homem dependerá da opção decisiva a favor ou contra a palavra. O objetivo, porém da revelação é a vida e a salvação do homem, sua comunhão com Deus (Is 55,2).
5º. A revelação é toda orientada para a esperança de uma salvação que há de vir. Toma impulso a partir da promessa feita a Abraão e tende para sua realização. Para o profeta o presente é apenas a realização parcial do futuro anunciado, esperado, preparado e prometido, mas ainda oculto. O presente não tem sentido pleno a não ser pela promessa, feita no passado, daquilo que será o futuro. Cada revelação profética marca uma realização da palavra, mas deixa, ao mesmo tempo, lugar para a esperança de uma realização ainda mais decisiva. O tempo bíblico não é, pois, tempo cíclico, mas linear: algo de novo acontece na historia sob a direção de Deus. a historia tende para a plenitude dos tempos, que será a realização dos desígnios de Deus no Cristo e pelo Cristo.
Considerações finais
A pesquisa que até agora fizemos possibilita-nos delimitar mais precisamente a noção de revelação veterotestamentária. Mostra-se-nos a revelação como a intervenção gratuita e livre do Deus santo e oculto que, progressivamente, se manifesta e torna conhecido seu desígnio salvífico de estabelecer uma aliança com Israel, e depois com todos os povos, para, afinal, realizar na pessoa de seu Ungido a promessa outrora feita a Abraão, abençoando em sua posteridade todos os povos da terra. Intervenção que se concretiza no âmbito da historia, relacionada com os acontecimentos da historia interpretados pela palavra dirigida aos profetas, numa comunicação que se revestiu de múltiplas formas. Em termos da mística profética, a revelação é a manifestação progressiva, em palavras, dos desígnios de graça de Javé que desposa seu povo, a humanidade toda, unindo-se-lhe para sempre na pessoa de seu Ungido. Agir esse conceituado como palavra de Deus que convida para a fé e a obediência; palavra de Deus que convida para a fé e a obediência; palavra essencialmente dinâmica, realização da salvação ao mesmo tempo que anúncio.
5. A revelação no Novo Testamento
A noção de revelação apresentada no Novo Testamento, maior complexidade e diversidade de tons que no Antigo Testamento. Entre ambas as Alianças deu-se um acontecimento de capital importância: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora a nossos pais, nos profetas; nestes últimos tempos falou a nós no Filho” (Heb 1,1). A Palavra intima de Deus, na qual totalmente se exprime e conhece tudo, fez-se homem em Jesus Cristo, tornou-se Evangelho, palavra de salvação para chamar o homem à salvação. Em Jesus Cristo, verbo encarnado, o Filho está presente entre nós. Em termos humanos que podemos compreender e assimilar, ele fala, prega ensina, atesta o que viu e ouviu no seio do Pai. O Cristo é o cume e a plenitude da revelação. Mistério inesgotável, cujo esplendor desvendam, revelam os escritores sagrados, cada qual se demorando num aspecto. A tradição sinótica descreve principalmente a economia da manifestação histórica do Cristo, ligando sua função de revelador a seu título de Messias, doutor e pregador. Os Atos apresentam os apóstolos como testemunhas e arautos do Cristo. São Paulo desenvolve a idéia da revelação a partir do tema do mistério e do Evangelho. A Epístola aos hebreus compara a economia de ambas as Alianças, exaltando as excelências da revelação em Cristo. Para São João, a função reveladora de Cristo radica-se na sua qualidade de Logos e Filho. As diversas tentativas de penetração no mistério são como os diversos ângulos de visão de uma só catedral, que permitem captar toda a realidade na sua unidade e complexidade.
5.1. O cristo como pregador
Pela sua pregação Cristo continua a tradição dos profetas, que eram os arautos de Deus, os mensageiros e interpretes de sua palavra (Ex 4,15-16; 7,1; Jer 1,9). Deus os envia para gritar aos ouvidos (Jer 2,2; Is 58,1), publicar, anunciar (Jer 4,5; 50,2; 1,14.17), proclamar o seu Dia, a sua vontade, suas intenções, promessas, ameaças. Jonas, arauto típico do antigo Testamento, prega (3,4) e como conseqüência Nínive decreta um jejum (3,5) e proclama a penitencia (3,7). João Batista, “o profeta do Altíssimo” (Lc 1,76-77), é a voz anunciada por Isaias (Is 40,3.6), que vai adiante de Javé anunciando sua chegada. Nele resplandece a palavra de Deus. sob a ação potente do Espírito “proclama um batismo de penitencia para remissão dos pecados” (Lc 3,3). É o arauto do Messias que vem (Mc 1,6-8; Mt 3,11-12; Lc 3,16-17).
Cristo inicia seu ministério à moda dos profetas e do Batista, pregando a Boa-nova do Reino, e a penitencia que introduz no Reino: “Começou Jesus a pregar e a dizer: convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4,17; Mc 1,14-15). Na sinagoga de Nazaré aplica a si mesmo as palavras do Dêutero-Isaías que mostram o Messias como profeta consagrado à evangelização dos pobres (Lc 4,18-19; Is 61,1-2). Em Mateus, Cristo da como sinal de sua autenticidade messiânica o fato de que “aos pobres é anunciada a Boa-nova” (Mt 11,5). Essencialmente sua pregação é o Evangelho do Reino ou do Reinado: Cristo anuncia a inauguração desse Reino cuja iminência fora anunciada pelo Batista (Mc 1,15).
Tendo reconhecido na pregação e nos milagres de Jesus o estilo dos grandes profetas, o povo o considera um deles. Exclamam as turbas após a ressurreição do filho da vivuva de Naim: “Surgiu entre nós um grande profeta” (Lc 7,16). Um, vêem nele João Batista; outros Ellias; outros, Jeremias ou alguns dos profetas (Mt 16,14). Os fariseus e sacerdotes tem medo de prende-lo, pois as multidões o consideram como um profeta (Mt 21,46). Os discípulos de Emaús falam de Jesus Nazareno como de um “profeta poderoso em obras e palavras” (Lc 24,19). Mais ainda, baseando-se em Dt 18,18, as turbas designam Jesus como o profeta esperado para o fim dos tempos (Mc 6,14s; 8,28; Mt 21,11). Conforme São João os que assistiram os milagres dos pães proclama: “Este é, na verdade, o profeta que deve vir ao mundo” (Jo 6,14).
Contudo, o Cristo quando fala de si mesmo não reivindica o título de profeta. Tgem consciência, sem dúvida, de sua afinidade com os profetas: como eles penetra os segredos de Deus (Mc 4,11), prevê, para si a sorte dos profetas (Mt 13,57; Lc 13,33). Como revelador, porém, pela excelência de sua pessoa, sobrepassa os profetas. É maior que Jonas (Mt 12,40), Moisés e Elias (Mc 9,2-10; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36), Davi (Mc 12,35-37; Mt 22,41-46; Lc 20,41-44) e João Batista (Lc 7,18-23; Mt 11,2-6). Na parábola dos vinhateiros coloca-se acima dos profetas como o filho acima dos servos (Mc 12,1-12). Leva à perfeição a lei e os profetas (Mt 5,17). Ele não diz: “Assim fala Javé”, mas: “Eu, porém, digo-vos” (Mt 5,22.28.32).
O Cristo não somente prega, chama tembém outros a participar de sua missão: “E constituiu doze deles, para andarem com ele, e para os mandar pregar” (Mt 3,14). Envia-os “a pregar o reino de Deus e curar os enfermos” (Lc 9,2; Mt 10,7-8). Dá-lhes esse poder, já durante sua vida e principalmente após sua ressurreição: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15.20). o Evangelho não pode ficar oculto: “deve ser pregado a todas as gentes” (Mc 13,10), “em todo o mundo” (Mt 24,14). Os que acolherem a mensagem dos apóstolos serão salvos; os outros, condenados (Mc 16,16; Mt 10,14; Lc 10,12-17). Entre a pregação de Cristo e a dos apóstolos há continuidade.
5.2. O cristo como Filho do Pai
Se o Cristo é em si mesmo a mais alta manifestação profética possível, se ensina com tão grande autoridade, deve-se ao fato de ser ele o filho único, o herdeiro (Mc 12,6), a quem o Pai tudo confiou (Mt 11,27), e que o Pai envia depois de seus servidores, os profetas (Mc 12,6). Como um filho amado (Mc 1,11;12,6) ele chama a Deus “meu pai” (Mt 7,21;10,32-33;11,27;12,50). “...Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,25-27). Ninguém conhece com aquele conhecimento que é também experiência, a vida intima e profunda do Filho, senão o Pai; e ninguém conhece a vida intima, e profunda do Pai, senão o Filho. Ambos conhecem-se pelo simples fato de estarem face a face, como duas grandezas iguais e da mesma ordem. E ninguém pode participar desse mistério de conhecimento mútuo sem uma revelação gratuita. O Cristo, que é o Filho, é o perfeito Revelador do Pai; só ele conhece o Pai e seus segredos, cujo conhecimento comunica a quem bem lhe apraz”. Aos discípulos escolhidos “foi dado”, como uma graça, conhecer os mistérios do Reino dos céus (Mt 13,11; Mc 4,10-12).
Também o Pai revela o Filho: aos “pequenos”, que reconhecem sua indigência diante de Deus, ele revela o mistério da pessoa do Cristo; foi por revelação do Pai que Pedro reconheceu a Cristo pelo que é na realidade (Mt 16,17). Ambas as revelações completam-se: a do Pai faz acolher a de Jesus sobre o Pai e os mistérios do Reino. Em vão soa a palavra de Jesus se o Pai não dá às almas a compreensão do que ele diz. O Filho não pode ser reconhecido pelo que é sem uma luz concedida pelo Pai: graça recusada ao orgulho dos “sábios”. A aceitação da revelação divina é obra da graça.
5.3. Sinóticos: A fé, resposta do homem
O Novo Testamento se divide em:
1- Evangelhos sinóticos (os de Mateus, Marcos e Lucas);
2- Atos e Epístolas;
3- Escritos Joânicos (Evangelho de João, suas Cartas e Apocalipse).
A revelação de Jesus Cristo se dá, de fato, na sua própria Pessoa, com a sua vinda ao mundo, nascendo, sofrendo, morrendo e ressuscitando.
Mas, tal aparecimento real do Messias, em carne e osso, ficaria incompleto, se Ele não se revelasse, por suas palavras, explicando o sentido de seus gestos e de sua vida. Certo que para as turbas Ele se vela num “segredo messiânico”, pois, do contrário, seria arrebatado pela multidão que o faria um rei temporal, frustrando-se, assim, o plano divino da redenção pela cruz. Mas, embora velasse a sua Pessoa e encobrisse a mensagem com parábolas e símbolos (que, aos poucos, pedagogicamente, Ele ia-se mostrando, até revelar-se totalmente, inclusive declarando abertamente ao Sinédrio ser Ele o Cristo, o Filho de Deus (Mt 26,63-64).
Os apóstolos, introduzidos por Cristo no mistério do Pai e do Filho, acolheram com fé sua palavra. Resposta condizente com a pregação da Boa-nova é a fé (Mc 16,15-16). São os homens convidados a escutar e compreender (Mt 13,23), isto é, a aceitar na fé a palavra de Deus e viver de acordo (Mc 4,20; Mt 7,24-27; Lc 6,47-49; 8,21;11,28). Cristo faz a oposição entre os que ouvem a palavra e a põem em pratica e os que ouvem sem passar a vive-la: casa alicerçada sobre rocha e casa alicerçada sobre areia (Mt 7,24-27).
Para muitos, infelizmente, a palavra é estéril (Mc 4,15-19). Com efeito, Deus revela-se de forma tão desorientadora que a revelação se pode tornar para os homens pedra de escândalo, ocasião de incredulidade. Os habitantes de Nazaré rejeitam a Cristo por que conhecem sua origem modesta (Mc 6,3). As palavras de Cristo sobre o perigo das riquezas (Mc 10,23-27), o Messias sofredor (Mc 8,31; 9,31), são incompreensíveis até para os discípulos. A sua atitude ante os costumes judaicos (Mc 7,1ss; Lc 11,38-40), ante o sábado (Mc 3,1-6; Lc 13,10-17; 14,1-6), seu relacionamento com os publicanos e pecadores (Mt 11,19; Lc 7,34; Mc 2,16), sua pretensão de perdoar os pecados (Mc 2,5s; Lc 7,48), sua morte na cruz (Mc 15,29-32): são outras tantas pedras de tropeço.
Cada qual será julgado por sua atitude diante da palavra. Sendo a revelação anuncio de salvação, coloca os homens diante de uma opção da qual depende sua salvação ou condenação: “...pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Mc 16,15-16). O anuncio do Reino está, pois, ligado ao apelo à conversão, ou seja, a uma volta completa de todo ser a Deus. jesus assim começa sua pregação: “...está próximo o Reino de Deus; convertei-vos e acreditai na Boa-nova” (Mc 1,15; Mt 3,2; 4,17). Tiro e Sidônia, no dia do juízo, serão julgadas com menos severidade que as cidades da Galiléia que aos milagres de Cristo opuseram sua recusa (Mt 11,20-24; Lc 10,13-15). Erguer-se-ão os ninivistas para condenar os judeus que rejeitaram quem é maior que Jonas e Salomão (Mt 12,41; Lc 11,31). No dia do julgamento os pregadores testemunharão contra os que não quiseram escutar sua mensagem (Mc 6,11; 13,9; Mt 10,15; Lc 10,12).
Considerações finais
Na tradição sinótica, portanto, Cristo é o Revelador enquanto proclama a Boa-nova do Reino dos céus e ensina com autoridade a palavra de Deus. Afinal, se ele revela, é por ser o Filho que conhece os segredos todos do Pai. Quando Cristo tiver terminado sua obra, os apóstolos deverão, por sua vez, revelar o que o Mestre lhes confiou; em outras palavras, deverão pregar o Evangelho da salvação, ensinar, convidar os homens à fé. A fé, dom de Deus, revelação do Pai, é a resposta do homem à pregação do Evangelho. O conteúdo essencial da revelação é a salvação oferecida à humanidade sob a imagem do Reino de Deus, anunciado e instaurado por Cristo. Chegou o tempo à sua plenitude: em Jesus Cristo está presente e atuante o Reino de Deus. O Cristo é, ao mesmo tempo, quem anuncia o Reino e aquele em quem o Reino se realiza.
5.4. Atos: a fé resposta do homem
Os Atos dos Apóstolos, narram a revelação que vai se espalhando pela Igreja em todas as partes do mundo então conhecido, sob a ação do Espírito Santo, que, desde o dia de Pentecostes, foi revelando aos Apóstolos todo o sentido da vida cristã.
A resposta conveniente ao querigma e ao testemunho é a fé. Os Atos descrevem o aumento continuo dos crentes sob a ação da palavra (At 2,41; 4,4; 5,14; 6,7; 9,42; 11,21; 13,43. 48; 14,1). Na origem da fé está a pregação que lhe apresenta seu objetivo (At 11,20-21). Crer, é “acolher a palavra” (At 2,41; 11,1), a “Boa-nova do Reino” (At 8,12), a “Boa-nova do Senhor Jesus” (At 11,20), a “Boa-nova de Jesus” (At 8,35). Pedro foi escolhido para que dele ouvissem os pagãos a “palavra da Boa-nova e cressem” (At 15,7). Paulo e Barnabé, em Icônio, “falaram de tal maneira que grande multidão de judeus e gregos abraçaram a fé” (At 14,1). Muitos coríntios “prestando ouvidos, creram e foram batizados” (At 18,8; 17,11-12.34;13,48).
A fé, segundo os Atos, é algo de global: é uma absoluta e total adesão ao Cristo: é a fé no Senhor Jesus (At 16,31), no Senhor Jesus Cristo (At 9,42;11,17), em o nome de Jesus (At 3,16). É doação ao Cristo: aceita-o totalmente, com tudo que isso implica. Comporta também uma “conversão”: quem acredita no Senhor, converte-se (At 11,21).
A fé não é simples obra humana. Ao mesmo tempo que ressoa externamente o apelo de uma pregação amplificada pelos sinais que a acompanham e credenciam como divina, internamente age Deus para torna-la assimilável à alma. O apóstolo prega, mas internamente é Deus que pela sua graça dá a possibilidade de acolher a palavra pela adesão da fé. Lídia ouvia a pregação de Paulo: “O Senhor abriu-lhe o coração de sorte que aderiu ao que Paulo dizia” (At 16,14). A partir de Pentecostes, os apóstolos e o Espírito, a Igreja e o Espírito, colaboram para o aumento da Igreja (At 9,31). O mistério do crescimento da Igreja é fruto da palavra da pregação fecundada pelo Espírito. Isso porque o Cristo, fazendo os apóstolos suas testemunhas e mensageiros, juntou à deles a missão do Espírito (At 1,8).
O drama está em que o homem pode fechar-se em seus caminhos e resistir à palavra: como o fariseu que voluntariamente se faz cego (At 4,16) e tampa os ouvidos para não ouvir (At 7,57), ou o grego que zomba do mistério (At 17,18.32), ou o devasso que resiste à fé (At 26,28), ou o governador que sem pureza suficiente de alma nada vê além de seus interesses (At 24,25-26), ou o judeu que aceita o universalismo do plano divino (At 14,2). A auto - suficiência, seja de natureza religiosa, filosófica ou cultural, faz nascer o desprezo, o desdém, a desatenção. O apelo divino exige uma atitude de aceitação. Cornélio (At 10,1-2), lídia (At 16,14), o procônsul Sérgio Paulo (At 13,7-12): todos eles ouvem, acolhem, obedecem. A palavra divina põe a descoberta o coração do homem forçando-o a se julgar. Trágica opção que salva ou condena. Drama de luz e trevas desencadeado pela vinda e encontro de Cristo.
Considerações finais
Os Atos descrevem a atividade apostólica como uma continuação da obra de Cristo. Os apóstolos ouviram-no falar, pregar, ensinar, revelar (tradição sinótica). Dele receberam a missão de atestar sua ressurreição e sua obra, pregar, ensinar o que ele prescrevera e ensinara. Fiéis à sua missão, apresentaram-se como testemunhas do Cristo ressuscitado, Messias e Senhor; pregaram o Evangelho da salvação, anunciaram a Boa-nova, ensinaram a doutrina do Mestre. Sua função era a de testemunhas e arautos. Seu depoimento constitui o objeto de nossa fé. A revelação confiada à Igreja é esse testemunho apostólico que nos convida a crer que o Cristo disse e fez. A fé, resposta a essa pregação, é obra divina, despertada pelo Espírito que interiormente age e fecunda a palavra externamente ouvida.
5.5. São Paulo
As Epístolas não visam a divulgar as palavras e ditos do Senhor Jesus, como fazem os Evangelhos, mas tem por fim expor a teologia da Pessoa de Jesus Cristo, com sua morte e ressurreição.
São Paulo para penetrar no âmago da idéia de revelação usa as categorias de mistério e de Evangelho. Ele é apóstolo para anunciar a Boa-nova do mistério revelado por Deus.
O mistério Paulino
A teologia de São Paulo é uma soteriologia, cuja intuição fundamental se exprime com o conceito mistério. Principalmente nas epístolas do cativeiro é que o termo aparece em toda sua plenitude: indica, então, o plano divino da salvação manifestado e realizado pelo Cristo. Essa significação, contudo, já aparece em 1Cor 2,7-8 e Rom 16,25. na Epístola aos coríntios evidencia são Paulo o caráter “misterioso” da sabedoria que presidiu a economia da salvação: sabedoria secreta, oculta em Deus e totalmente sobrenatural, cujo objeto são os bens esplendidos que Deus destinou para seus escolhidos. Na Epístola aos romanos, concentra-se sua atenção na participação dos gentios, pela fé, nesses bens (Rom 16,25-27). Os pagãos outrora estavam como que banidos da salvação, reservada aos judeus. O desígnio divino de salvação também a eles, de chamá-los “à esperança da gloria”, pela união com Cristo, finalmente foi revelado (Col 1,25-28). O mistério, agora desvendado, é que “os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e co-participantes das promessas em Cristo Jesus por meio do Evangelho” (Ef 3,6). O capítulo primeiro da Epístola aos efésios amplia ainda mais essa visão: o mistério é a reunião de tudo em Cristo, a submissão de todos os seres ao Cristo, “as coisas que estão no céu e as que estão na terra” (Ef 1,10). Reunindo os elementos desses diversos textos, podemos dizer que o mistério, de que fala Paulo, é o plano divino da salvação,oculto desde toda a eternidade e agora revelado, pelo qual Deus estabeleceu a Cristo como o centro da nova economia, constituindo-o, pela sua morte e ressurreição, único princípio de salvação tanto para os gentios como para os judeus,cabeça de todos os seres, anjos e homens. É o plano divino total (encarnação, redenção, eleição para a glória) que em última análise se concentra no Cristo, com suas riquezas insondáveis (Ef 3,8), seus tesouros de sabedoria e ciência (Col 2,2-3). Concretamente o mistério é o Cristo (Rom 16,25; Col 1,26-27; 1Tim 3,16). O mundo, criado na unidade, pelo Cristo Salvador e Cabeça, volta à unidade. Assim pois, inicialmente, ao descrever o mistério Paulo acentua a vocação dos gentios; em seguida, nas epístolas do cativeiro, o mistério passa a ser principalmente Cristo e a participação no Cristo. Recapitula-se tudo no Cristo: na sua manifestação, nos bens que representa, no caminho que nos traça para Deus[9].
5.5.1. As etapas na revelação do mistério
Pode-se considerar o mistério em diversos planos: no plano da intenção (o mistério de Deus); no plano da realização, no Cristo e pelo Cristo (o mistério do Cristo); no plano do encontro pessoal (o mistério do Evangelho, da palavra, e da fé); no plano da sua extensão à humanidade (o mistério da Igreja). Faz-se a revelação do mistério em etapas que correspondem a esses diversos planos e traçam a história da salvação.
Na fase inicial, o mistério está oculto em Deus: segredo de infinita sabedoria (1Cor 2,7), envolto em silêncio desde a eternidade (Rom 16,25), oculto às gerações passadas (Ef 3,5; Col 1,26), oculto mesmo aos espíritos celestes (Ef 3,9-10). Sabedoria inacessível, conhecimento reservado.
Mas, “agora”, o mistério outrora oculto está manifesto, revelado (Rom 16,25; Col 1,26). Pela vida, morte e ressurreição do Cristo o mistério entrou em sua fase de realização; em Jesus Cristo cumpre-se e ao mesmo tempo revela-se o desígnio salvífico de Deus (Ef 1,7-9); o mistério torna-se acontecimento da historia (1Tim 3,16). Segundo a divina economia, o mistério é inicialmente comunicado a testemunhas privilegiadas: os apóstolos e profetas (Ef 3,5; Col 1,26). São eles os mediadores e os arautos do mistério (Ef 3,5). Tornam-se, por sua pregação, o alicerce da Igreja, cuja pedra angular é o Cristo (Ef 1,22-23; 2,20-21). Paulo faz parte desse grupo privilegiado: é “ministro da Igreja” (Col 1,25-26), e na revelação do mistério tem um papel de primeiro plano. O mistério, no que se refere aos gentios, foi-lhe revelado de forma especial: “A mim, sim, ao mais pequenino de todos os santos, foi concedida esta graça de anunciar aos gentios as incompreensíveis riquezas de Cristo, e de expor à luz, a dispensação do mistério” (Ef 3,8-9). Foi chamado por Deus e “posto à parte” (Rom 1,1) para ser “pregador e apostolo..., doutor dos pagãos na fé e na verdade” (1Tim 2,7), “sacerdote do Evangelho de Deus, para que os pagãos se tornem oferenda agradável, santificada no Espírito Santo” (Rom 15,16). Em vista dessa vocação, recebeu uma altíssima inteligência do mistério (Ef 3,3-4).
Revelado a testemunhas escolhidas, o mistério é dado a conhecer a todos os chamados à Igreja. O encargo dos apóstolos é proclamar o conteúdo do mistério ou Evangelho. São Paulo estabeleceu uma equivalência “concreta” entre Evangelho e mistério (Rom 16,25; Col 1,25-26; Ef 1,9-13;3,5-6). Em ambos os casos temos a mesma realidade, isto é: plano divino de salvação considerado porém, sob ângulos diversos. Sob um aspecto, é um segredo, desvendado, revelado, manifestado, transmitido ou comunicado; sob outro, é a Boa-nova, uma mensagem anunciada, proclamada. Dá-se a conhecer o Evangelho como se comunica o mistério; as pessoas podem ter parte no Evangelho (Ef 3,6) da mesma forma como podem participar no mistério (Col 1,27). Plano divino oculto e revelado, plano divino proclamado: Evangelho e mistério tem o mesmo objeto e conteúdo. Objeto duplo: soteriológico, isto é: a economia da salvação pelo Cristo (Ef 1,1-10), e escatológico, ou seja: a promessa da glória com todos os bens destinados aos escolhidos, frutos da cruz e da morte do Cristo (Col 1,28;1Cor 2,7; Ef 1,18). O mistério notificado aos homens pela pregação e pelo evangelho vem a ser o plano da salvação levado ao último estágio do acontecimento pessoal.
A Boa-nova da salvação é chamada por São Paulo de Evangelho, simplesmente (1Tes 2,4), ou de o “Evangelho de Deus” (Rom 1,1;15,16; 2Cor 11,7; 1Tes 2,2.8-9), pois Deus é seu autor e seu objeto[10], ou, como o mesmo sentido, “o Evangelho de Cristo” (Rom 15,19-20; 1Cor 2,12;9,13;10,14; Gal 1,7; Flp 1,27), “o Evangelho de nosso Senhor Jesus” (2Tes 1,8), “o Evangelho da glória do Cristo” (2Cor 4,4).
Em vez de Evangelho, mas com o mesmo sentido técnico de mensagem cristã, Paulo usa também o termo palavra (Col 1,25-26; 1Tes 1,6), ou palavra de Deus (1Tes 2,13; Rom 9,6; 1Cor 14,36), ou palavra do Senhor (1Tes 1,8;4,15; 2Tes 3,1), ou palavra do Cristo (Rom 10,17). Com essa palavra, que é mensagem divina em lábios humanos, é sempre Deus que fala e interpela a humanidade (Rom 10,14). Paulo dá graças a Deus porque os tessalonicenses acolheram, mas, qual realmente é, palavra de Deus” (1Tes 2,13). Palavra que por ser divina, é ativa. É “palavra de salvação” (Ef 1,13). “Palavra de vida” (Flp 2,16), “palavra de verdade” (2Cor 6,7; Col 1,5; 2Tim 2,15), “palavra de reconciliação” (2Cor 5,19), não só porque tem por objeto a verdade, a vida, a reconciliação e a salvação, porque introduz na vida (Rom 1,16; Cor 1,21; 1Tes 2,13; Ef 1,13). É dupla a obra divina: ao mesmo tempo que a reconciliação do mundo pelo Cristo,Deus estabeleceu a “palavra de reconciliação” (2Cor 5,18-19). “Paralelamente ao que se faz pelo Cristo, aparece o que é feito pela palavra. Ambas as operações são obras salvíficas do Cristo”.
Sendo o mistério a reunião em Cristo dos judeus e dos gentios, num mesmo organismo de salvação, aparece a Igreja como o termo final do mistério, a brilhante realização da economia divina, sua expressão visível e estável. O plano da salvação é não apenas revelado, proclamado pelo Evangelho, mas também efetivamente realizado na Igreja. O estabelecimento objetivo da Igreja, que é a manifestação do mistério, revela às potencias celestes a infinita sabedoria do desígnio de Deus (Ef 3,10) e indica que chegou o tempo da submissão de todas as coisas ao Cristo (Col 1,16). Assim como no Cristo se torna visível o mistério de Deus, assim na Igreja se torna visível o mistério de Cristo.
5.5.2. Resposta do homem
É pela fé que se tem acesso ao mistério, ao Evangelho, à palavra. De fato, é pela fé que o homem reconhece como verdadeiro o plano da salvação, realizado por Deus na morte e ressurreição do Cristo, adere inteiramente a esse plano, se bem que desconcertante para a humana sabedoria (1Cor 1,17-30; 2,1-4). A pregação do Evangelho ou do mistério revelado tem por finalidade conseguir a “obediência da fé” (Rom 16,26; 2Cor 10,5). Fé que é a resposta específica do homem à palavra do Evangelho. “isso o que pregamos, isso o que acreditastes”, relembra Paulo aos coríntios (1Cor 15,11). Tendo ouvido a “palavra de verdade”, a “Boa-nova” de sua “salvação”, os efésios acreditaram (Ef 1,13). É pela fé na mensagem que os cristãos se abrem para a salvação.
A palavra exige ser escutada, acolhida, guardada. Seguindo a tradição sinótica e dos Atos, a Boa-nova destina-se aos homens que não se consideram auto-suficientes, conscientes de sua fraqueza e indigência, abertos para o dom que se lhes oferece. Não é possível a fé senão a quem esteja pronto a ouvir a palavra da verdade (Rom 10,18) e obedecer-lhe (Rom 10,16). A fé, para são Paulo, é a acolhida da palavra (Rom 10,16; Gal 3,5) e a obediência ao Evangelho (Rom 1,5; 16,26).
Adesão e submissão à mensagem evangélica que não seria possível de forma meramente natural. É preciso um dom da graça: uma “iluminação” que venha de Deus como a criação da luz no primeiro dia (2Cor 4,5-6), uma “unção” divina (2Cor 1,21-22), que despertem a fé nos corações dos que ouvem o Evangelho. A palavra de Deus não é simplesmente um enunciado de verdades; é principalmente uma apresentação da pessoa do Cristo, Senhor e Salvador, e do que ele significa para todo homem. A pregação do Evangelho é escândalo, pedra em que tropeçam (Rom 9,32-33; 1Cor 1,23; Gal 5,11), loucura (1Cor 1,18.21.23). Permanece velado (2Cor 4,4). Os incrédulos, os indóceis à verdade (Rom 2,8;10,21; 11,30-32; 15,31), sem ouvidos para escutar o Evangelho da salvação (Rom 11,7-10), estão a caminho da perdição (1Cor 1,18; 2Cor 4,3). Todos os que não acreditam, mas aderem à iniqüidade, serão condenados (2Tes 2,11). O Evangelho só exerce seu poder de salvação e de vida para aqueles que crêem (Rom 1,16-17; Gal 3,11; 1Cor 1,18.20; Flp 2,16; 2Tim 1,10). A pregação do Evangelho é, pois, desde agora o prelúdio da separação final.
Considerações finais
Segundo são Paulo, podemos pois definir a revelação como a ação livre e gratuita de Deus que, no Cristo e pelo Cristo, manifesta ao mundo a economia da salvação, isto é: seu eterno desígnio de reunir tudo no Cristo, Salvador e Cabeça da nova criação. A comunicação desse desígnio se faz pela pregação do Evangelho, confiada aos apóstolos e profetas do Novo Testamento. A obediência da fé é a resposta do homem à pregação evangélica, sob a iluminação do Espírito Santo; não é uma exigência tirânica de Deus, mas uma adesão amorosa ao plano de sua infinita sabedoria e caridade. A fé dá começo a um processo de crescimento contínuo no conhecimento do mistério que só atingirá seu termo na revelação de visão.
5.5.3. Revelação da Antiga e da Nova aliança na Epístola aos Hebreus.
O paralelo entre a revelação em ambas as Alianças apresenta-se desde o primeiro versículo: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus aos nossos pais, nos profetas; nestes últimos tempos, falou a nós no Filho, a quem conferiu o domínio de todas as coisas” (1,1-2). Evidencia esse versículo a autoridade da revelação do N. Testamento, e também a relação histórica entre ambas as fases da história da salvação. Entre ambas as economias há relação de continuidade (Deus falou), diferença (tempo, modo, mediadores, destinatários) e excelência (superioridade da nova economia).
Os elementos de continuidade entre ambas as revelações são Deus e sua palavra, sendo a palavra do Filho a continuação e a perfeição da palavra cujos instrumentos foram os profetas. A continuidade transparece nas próprias palavras: falou Deus. palavra que, sendo intervenção de Deus na historia para manifestar sua vontade e seu desígnio de salvação, é palavra de autoridade, que deve ser ouvida com atenção (Heb 2,1;12,25), crida (3,12-19;4,2-3;10,22.38-39;11;13,7-9), obedecida (10,36;11,8;12,9). A palavra de Deus no A. Testamento anunciava e preparava a palavra do Filho, mais eloqüente que o sangue de Abel (12,24).
Entre a revelação da antiga e a da Nova Aliança existe uma continuidade e semelhança, mas também diferença e superação. Principalmente diferença de época: o mesmo Deus, que fala outrora num passado já longínquo, falou-nos também nesta etapa final da historia em que vivemos, “no final destes dias”. Em segundo lugar, há diferença nos modos de revelação: palavra sucessiva, parcial, fragmentário no Antigo Testamento, trazendo cada comunicação apenas uma frase do discurso, não manifestando senão uma parte do desígnio de Deus, pelo contrário, palavra única e total do Filho em o Novo Testamento. Palavra multiforme, no Antigo Testamento, sob a forma de promessas, ordens, ameaças; teofanias terríveis ou familiares; oráculos, sonhos e visões, ritos e instituições. Essa multiplicidade de formas dissolve-se, em o Novo Testamento, na unidade da pessoa do Filho encarnado, que se exprime segundo os modos da carne, isto é, por gestos, palavras, ação. Há uma terceira diferença: os destinatários. No Antigo Testamento, Deus falara aos Pais, ou seja: ao povo eleito, aos nossos antepassados na fé, que nos transmitiram as promessas de que eram depositários. Agora, é a nós que Deus fala, a todos aos quais se dirige o Evangelho do Cristo, pregadores e ouvintes. Quarta diferença: os mediadores da revelação. De uma parte a multidão dos inspirados: os profetas e todos aqueles pelos quais Deus guiara seu povo. O próprio Deus falara neles, depositando neles sua palavra, usando-os como intérpretes. Doutra parte, só o Filho; Filho que se qualifica imediatamente como herdeiro de tudo, por quem Deus fez os séculos, irradiação de sua glória, efígie de sua substancia (Heb 1,2-3). Filho que é o mediador único da Nova Aliança, tanto no plano de revelação como do sacerdócio. Ele em pessoa é o Revelador único e definitivo. Dirá são João: “A Deus ninguém jamais o viu; manifestou-no-lo o Unigênito de Deus, que está no seio do Pai” (Jo 1,18). É a pessoa do filho que, em última análise, constitui a superioridade da revelação nova sobre a antiga.
O tema da excelência da nova revelação reaparece na parenese (exortação) do capítulo 2,1-4, que, tendo uma colocação particular, continua na mesma linha da introdução. Lá, o paralelo é entre os profetas e o Filho; aqui, entre os anjos e o Senhor. É a revelação do Antigo Testamento, feita pelo intermédio dos anjos, e a revelação do Novo Testamento, feita pelo Filho e suas testemunhas. Para mais claramente marcar a mudança de economia, de um a outro testemunho, o autor opõe a palavra proclamada por anjos e a salvação proclamada pelo Senhor (Heb 2,2-3). O Cristo, de fato, trouxe-nos mais que uma palavra: a própria salvação inaugurada por sua pregação mesma. Salvação que, realizada e notificada pelo Senhor, nos foi atestada pelos ouvintes imediatos do Cristo (2,3; Lc 1,2), sendo o testemunho deles apoiado pelos sinais da intervenção divina, prodígios ou acontecimentos extraordinários, obras do poder de Deus, e pelos carismas visíveis da comunicação do Espírito (2,4). Assim está descrita toda a economia da revelação nova: a revelação é a palavra de salvação proclamada pelo Senhor ou Filho, recolhida e atestada por suas testemunhas imediatas, confirmada pelo próprio Deus com sinais e carismas.
Outros testos, finalmente, põem em realce o quanto a revelação veterotestamentária continua ainda presa ao plano cósmico, ou seja: ligada a um mediador que pertence ao mundo terrestre (Heb 12,21), a fenômenos cósmicos (montanha, fogo, trevas, tempestade; 12,18-21.25-26), a um templo cósmico e construído (9,1), cuja insuficiência os próprios ritos revelam (9,8-10). A nova revelação, pelo contrário, vem do céu (12,22-24), por um mediador celeste, Jesus (12,24), que inaugura “caminho novo e vivo”, através do véu de sua carne (10,20).
5.6. Jesus Cristo, Palavra de Deus e Filho de Deus em São João.
Nos Sinóticos, nos atos dos Apóstolos e nas epístolas de são Paulo, palavra de Deus é a designação que se dá à mensagem evangélica. A grande novidade de são João é a equação que estabelece entre Cristo, Filho do Pai, e o Logos. O Cristo é a Palavra eterna, subsistente, pessoal; realiza-se a revelação porque essa Palavra se fez carne para nos falar do Pai.
Já conhecia o antigo Testamento a Sabedoria e a Palavra. Em jó, Provérbios, Eclesiástico, e principalmente no livro da Sabedoria, a Sabedoria está junto de Deus: preside à criação e à organização do mundo (Sab 7-8); tudo vê, tudo penetra (Sab 9,11), tudo governa (Sab 8,1); instrui os homens (Sab 8,7;9,11) e assiste-os (Sab 9,10) promana de Deus, é seu reflexo e sua imagem (Sab 7,25-26). O antigo Testamento conhecia também a Palavra criadora (Sl 33,9) e reveladora, enviada à terra para revelar os segredos de Deus, a ele retornando uma vez cumprida sua missão (Is 55,10-11). Mas o Antigo Testamento não entendia (e dificilmente o poderia, pelo seu monoteísmo radicalmente distinta. Sob a ação do Espírito, são João reconheceu na pessoa do Cristo histórico essa Sabedoria e essa Palavra de Deus de que está cheio o Antigo Testamento. Jesus Cristo é a Palavra eterna de Deus, como criadora e reveladora, mas enquanto Pessoa. Em Jesus Cristo encontra sua perfeição plena a palavra de Deus que cria o universo, impõe a lei, anuncia a salvação e interpela a humanidade. Para João o Logos é uma Pessoa, que mantém com o Pai o mais intimo comércio, dele distinta, Deus, no entanto, como ele mesmo, Verbo de Deus, Palavra de Deus (Jo 1,1). Palavra que, encarnada entre os homens (Jo 1,14) é o Filho do Pai, o Monogenes, unigênito, como termo que é de uma geração plenamente fecunda. Toda a revelação refere-a João a esse Filho único que vive no seio do Pai (Jo 1,18) como a Palavra interior de Deus. é em Jesus Cristo que ela faz ouvir fora e entender pelo homem.
5.6.1. A Gesta do Logos
Apresenta-se o prólogo do Evangelho de são João como a Gesta do Logos, um resumo da historia das manifestações de Deus por sua Palavra. Podemos distinguir três etapas nessa economia. A primeira manifestação de Deus é a criação. “Tudo criaste com tua palavra” (Sab 9,1). Escreveu o autor de Sabedoria. São Paulo, por sua vez, afirma: “nele foi criado tudo que há...tudo foi criado por ele e para ele” (Col 1,15-16). Em são João encontramos o eco: “Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, coisa alguma foi feita” (Jo 1,3). Porque o mundo criado pelo Logos (e no Logos, pois Deus vê e concebe tudo em seu Logos que é a sabedoria de Deus), a Palavra está no mundo com seu poder e sua sabedoria. Sendo o mundo o que foi proferido por Deus, manifesta a presença e as perfeições invisíveis do Deus que fala. Deveriam, portanto, os homens reconhecer e glorificar o autor e artífice do mundo (Sab 13,1-9; Rom 1,18-23). Mas, de fato, o homem permaneceu surdo à mensagem da criação. Essa primeira manifestação de Deus foi um fracasso: “O Logos estava no mundo, e o mundo por ele feito, mas o mundo não o conheceu” (Jo 1,10)[11]. Por isso Deus escolheu um povo e se lhe manifestou pela Lei e pelos profetas; mas essa revelação, como a primeira, malogrou: “O Logos veio para sua casa e os seus não o receberam” (Jo 1,11). Finalmente, depois de ter falado pelos profetas, fala-nos Deus por seu Filho (Heb 1,1): “O Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). “A Deus ninguém jamais o viu; manifestou-no-lo o Unigênito de Deus, que está no seio do Pai” (Jo 1,18). Jesus Cristo é a Palavra substancial de Deus, o Filho único do Pai. Realiza-se a revelação porque a Palavra se fez carne e assim se tornou mensagem divina, contando-nos em termos e proposições humanas os segredos do Pai, principalmente o mistério de seu amor por seus filhos. Três elementos fazem de Cristo o perfeito Revelador do Pai: sua preexistência como Logos de Deus (Jo 1,1-2), a encarnação do Logos (Jo 1,14), a intimidade de vida permanente do Filho com o Pai, antes e depois da encarnação (Jo 1,18). João dá à revelação o máximo de extensão e de significação justamente porque vê no Cristo a Palavra encarnada, o Filho que vive no seio do Pai. O Cristo está ontologicamente qualificado como o único revelador perfeito: sua missão de revelação baseia-se na sua própria vida no seio da Trindade, já é a Palavra e a Sabedoria de Deus, torna-se, na economia concreta da encarnação, fonte de luz e de verdade para os homens. Dá-nos assim são João a última palavra sobre a função de Cristo como revelador.
5.6.2. A revelação no vocabulário joanino
No Evangelho de João, nota-se, desde o inicio, que é o Verbo encarnado, o Filho de Deus que manifesta o Pai, a quem revelou aos homens (Jô 1,18) a ponto de, nas vésperas de sua partida, falar claramente e sem figuras (Jô 16,29).
Nem todos aceitam essa Luz. Muitos preferem as trevas (Jô 3,19ss). Mas, virá um dia em que Jesus Cristo se manifestará em sua glória, quando de sua vinda (1Jo 2,28). Então, no reino escatológico da outra vida, “seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é” (Jô 3,2), ou na frase mais conhecida de São Paulo: “então O veremos face a face” e das três virtudes teologais só permanecerá a maior delas: a Caridade (cf. 1Cor 13,12-13). Finalmente, o livro do Apocalipse, o último da Bíblia, que, por definição, é uma “revelação” (Ap1,1) orienta-se não mais para a vida terrestre de Jesus Cristo, mas para a sua manifestação final, terminando com o desejo patético “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20) encerrando-se, assim a revelação bíblica.
Desta visão preliminar, sintética da revelação, já se verifica ser ela sobrenatural, pois não é exigida pela natureza nem pode ser descoberta pela razão; histórica, pois é no desenrolar da história que Deus fala ao homem e ensina-lhe os ministérios do seu Ser divino e os destinos transcendentes do ser humano; progressiva, pois chegou-nos por etapas sucessivas, culminando com a vinda de Cristo, revelação total do Pai.
Para João o Cristo é a Palavra de Deus: essa novidade repercute na própria linguagem e provoca uma reorganização dos vocábulos. Com efeito, os termos que traduzem a visão interior de João prendem-se, em sua maioria, à idéia de revelação: palavra, testemunho, luz, verdade, glória, sinal, conhecer, saber, ver, manifestar, mostrar, dar a conhecer, ensinar, testemunhar, dizer, falar, interpretar.
Segundo os Sinóticos, Cristo ensina, prega e anuncia a Boa-nova do Reino. Em João, ele fala, testemunha: é o Filho que fala sobre o Pai (Jo 1,18), a Testemunha que declara o que viu e ouviu no seio do Pai. Por duas vezes no Apocalipse o Cristo é chamado Testemunha fiel (Apoc 1,5;3,14). A noção joanina de revelação prende-se, pois, à de testemunho. Testemunhar é afirmar a realidade de um fato, dando à afirmação toda a solenidade exigida pelas circunstâncias. Um processo, uma contestação, formam o contexto natural do testemunho. No testemunho estão implícitos dois aspectos que podem ser mais ou menos separados. Há em primeiro lugar uma comunicação referente a acontecimentos dos quais a testemunha tem conhecimento por excelência. Em segundo lugar, essa declaração geralmente é feita em função de uma pessoa determinada: a testemunha, com seu depoimento, toma partido a favor ou contra alguém. Em João, testemunhar inclui ambos os aspectos. Cristo ao testemunhar declara a experiência de realidades e fatos dos quais só ele tem experiência (principalmente da vida íntima do Pai e do Filho), e essa declaração tem caráter solene, jurídico[12]. O Cristo é a Testemunha perfeita e seu testemunho apresenta-se como depoimento público no vasto processo que o opõe ao mundo. Em favor de Cristo existem os testemunhos de João Batista (Jo 1,7), do Apóstolo (Jo 19,35;21,24), da Escritura (Jo 5,39), do Pai (Jo 5,32.37;8,18) e do Espírito (Jo 15,26). Os homens, contudo, preferem as trevas à verdade. Os judeus, que representavam o conjunto do mundo hostil, confrontados com Cristo rejeitam seu testemunho e julgam-se a si mesmos. O testemunho de Cristo faz a discriminação entre os homens (Jo 9,39).
Do mesmo modo, falar tem em João o sentido intensivo de testemunhar e caracterizar a palavra autorizada do Filho de Deus: “Eu, eu vos digo a verdade que ouvi de Deus” (Jo 8,40.26.38). Significa o texto que o Cristo proclama a verdade revelada; sua palavra é, de forma absoluta, a palavra de Deus que salva e que julga (Jo 12,48-49).
5.6.3.O Cristo, testemunha do Pai
O Cristo fala como Testemunha qualificada, pois é a Palavra de Deus (Jo 1,1-2) e o Filho do Pai (Jo 1,18); só ele conhece o Pai porque vem de junto dele (Jo 6,46; 7,29;8,55;16,27;17,8); conhece o Pai (jo 7,29) como o Pai o conhece (Jo 10,15), porque está no Pai e o Pai nele está (Jo 10,30;17,21.23); ele em Pessoa é a Luz (Jo 1,8;9,5) e a Verdade (Jo 14,6). Pode assim testemunhar sobre o Pai e sobre a missão de salvação que dele recebeu. Sua palavra é afirmação de quem viu e ouviu pessoalmente: “Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o nosso testemunho” (Jo 3,11). “Eu ensino o que vi junto do Pai” (Jo 8,38). “Aquele que me enviou é veraz e eu anuncio ao mundo o que dele ouvi” (Jo 8,26.40). “Aquele que vem do céu... dá testemunho de tudo que viu e ouviu” (Jo 3,32). Quando de sua paixão, Cristo declara diante de Pilatos: “Para isto é que vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37), isto é: para proclamar a revelação definitiva recebida do Pai. São Paulo refere-se ao belo testemunho dado por Cristo ante Pilatos (1Tim 6,13); os homens, porém, não aceitaram seu testemunho (Jo 3,32;1,11). O essencial de seu testemunho é que o Cristo é o Filho do Pai, o Enviado do Pai, o Salvador do mundo e que, pela fé nele depositada, é que os homens poderão chegar à vida eterna (Jo 3,16;17,3; 1Jo 5,10-11). O testemunho pois é sobre o próprio Cristo, a natureza misteriosa de sua pessoa e sua missão salvífica.
Os apóstolos, por sua vez, eles que viveram na intimidade do Cristo, que estiveram com ele “desde o começo”, dão o seu testemunho sobre ele (Jo 15,27). João, que vira manar a água e o sangue, atesta a salvação realizada (Jo 19,35-37). Porque vira, ouvira, tocara o Cristo, dá o seu testemunho sobre o Filho, Salvador do mundo” (1Jo 4,14; Jo 20,30-31).
5.6.4. O Cristo, Deus que revela e Deus revelado
Para com a revelação e a fé, é inteiramente única a posição do Cristo. Porque é, em pessoa, a Palavra de Deus, o Filho do Pai, o Cristo é ao mesmo tempo o Deus que revela e o Deus revelado. Sua doutrina é de Deus, mas não como a do profeta que recebe a revelação e a anuncia. Em nosso caso, a revelação parte do Cristo ao mesmo tempo que do Pai. Cristo ensina a única religião agradável ao Pai (Jo 4,23), mas ao mesmo tempo ele é o objeto da revelação, o Deus revelado. Afinal, o que revela Cristo, senão o desígnio de Deus, isto é: o próprio Cristo, o Filho enviado pelo Pai Ijo 5,38), aquele em quem é anunciado e reconhecido o Deus verdadeiro (Jo 17,3)? O Cristo é pois, ao mesmo tempo, o Deus que fala e o Deus do qual se fala, quem revela o mistério e é o próprio mistério. Não apenas comunica a palavra e a verdade: ele é a Palavra e a verdade (Jo 1,1;14,5-6), é em pessoa o que ele ensina e proclama. Por isso são João pode dizer da doutrina de Cristo o mesmo que afirma de sua pessoa. Devemos crer no Cristo (Jo 1,12;10,26), receber o Cristo (Jo 5,43), vir ao Cristo (Jo 5,40;6,35.37.44.65;7,37), permanecer no Cristo (Jo 15,4.7). da mesma forma, devemos crer em sua palavra (Jo 5,24), receber suas palavras (Jo 12,48;17,8), aceitar o seu testemunho (Jo 3,11), permanecer em sua palavra (Jo 8,31.51). Tanto quanto a Pessoa de Cristo, a sua Palavra é vida e verdade (Jo 6,63;17,17). Ter fé em Cristo é ao mesmo tempo aderir a ele e a sua palavra. Crer é receber o Cristo (Jo 5,43), e ao mesmo tempo reconhecer a verdade divina (Jo 3,33) tendo por verdadeiras as afirmações de seu Enviado (Jo 3,36;14,10;16,27.30;20,31; 1Jo 5,10); é aceitar como verdadeiras a filiação divina do Cristo e sua missão de salvação.
Considerações finais
João entende a revelação como a Palavra de Deus feita carne, e por essa carne, palavra e testemunho formulados humanamente, dirigida imediatamente aos apóstolos e por eles a toda a humanidade, para atestar a caridade do Pai, que envia seu Filho entre os homens, para que, acreditando nele, tenham a vida eterna. A fé é a resposta ao testemunho exterior do Cristo e, ao mesmo tempo, à atração interior do Pai e ao testemunho do Espírito. Dimensão dupla da única palavra do amor de Deus.
Depois dessa pesquisa na tradição sinótica, nos Atos, São Paulo e São João, podemos agora tentar uma descrição da revelação tal como aparece nos escritos do Novo Testamento. A revelação é a ação, sumamente livre e amorosa, pela qual Deus, numa economia de encarnação, já de alguma forma iniciada no antigo Testamento (pela instrumentalidade da palavra profética), dá-se a conhecer em sua vida íntima e no desígnio amoroso que eternamente formou de salvar e reconduzir a si todos os homens pelo Cristo. Ação que se realiza pelo testemunho exterior do Cristo e dos apóstolos e pelo testemunho interior do Espírito que opera internamente a conversão dos homens ao Cristo. Esse testemunho do Cristo e dos apóstolos é ampliado e confirmado pelos sinais de poder. Dessa forma, pela ação conjunta do Filho e do Espírito, o Pai manifesta e realiza seu desígnio de salvação.
[1] Contudo, encontra-se sonhos no gênero apocalíptico (Daniel, Zacarias), quando então eles tem uma significação e se tornam também palavra.
[2] G. von Rad, Studies in Deuteronomy (London, 1956), p. 77.
[3] O. Procksch e E. Jacob dão-lhe o sentido radical de “estar por detrás e empurrar”. Diz Jacob: “le dabar pourrait être defini comme la projection em avant de ce qui est à l’arrière, c’est-à-dire lê passage à l’acte de ce qui est d’abord dans lê coeur” (teologie de l’Ancien Testament, p. 104). E O. Procksch diz: “O dabar é o pano de fundo de uma coisa, o sentido que lhe é proprio; é esse sentido que é expresso pela palavra... Cada palavra contém, não apenas um sentido, mas também uma energia” (Teologie dês Alten Testaments, p. 469). A seus olhos essa explicação justifica o aspecto noético e dinâmico da palavra.
[4] J. Pedersen, Israel, its Life and culture (London, 1946). P. 107.
[5] Israel, porém, não confunde Deus e a tempestade, Deus e a nuvem etc. a palavra de Deus nem sempre é inteligível, mas é sempre manifestação do Deus pessoal. A nuvem, a tempestade, o fogo, a brisa leve, manifestam a presença do Senhor e suas propriedades.
[6] É evidente que nessas expressões é preciso levar em conta as fórmulas redacionais; porem, já a sua freqüência é significativa. Os profetas afirmam que Deus lhes falou e que sua palavra chegou até eles. Devemos notar também que o termo palavra de Deus não se verifica sempre do mesmo modo, nem com a mesma intensidade. Na vida dos profetas há momentos privilegiados, quando a palavra de Deus apodera-se deles de forma mais intensa. O momento mais importante é o de sua vocação. Por várias razoes não podemos identificar sempre a palavra de Deus com revelações diretas e formais. Essas razoes são as seguintes: a) Os oráculos recebidos pelos profetas podem ter sido muito curtos, assim como também uma visão pode exigir uma longa explicação. b) Normalmente o profeta deve, ainda sob o impulso recebido, comentar a palavra de Deus. c) Às vezes se trata de nova tomada de consciência de verdades já conhecidas, em vista de situação nova. D) Acontece que ás vezes os profetas reelaboram verdades já comunicadas a outros profetas; um profeta pode depender espiritualmente de outro, como Jeremias de Oséias. Alguns tiveram discípulos que retomaram e explicitaram os oráculos do mestre. E) A palavra recebida atualiza-se muitas vezes por ocasião de fatos concretos, em função de acontecimentos da historia. A palavra do profeta ilumina a historia, seja voltado ao passado de Israel, principalmente sobre a eleição e a Aliança, seja estabelecendo uma relação entre a historia de Israel e a de outros povos, seja manifestando o escopo visado por Deus. quanto a isso, cf. C. Larcher, “La parole de Dieu em tant que révélation dans l’Ancien Testament”, em La Parole de Dieu em Jésus-Christ, pp. 56-58.
[7] S. MOWINGKEL, “La connaissance de Dieu chez lês prophètes de l’Ancien Testament”, Ver. D’hist. Et de phil. Rel., 22 (1942), 81-83. O critério subjetivo que garante ao profeta ter ele sido verdadeiramente objeto de uma comunicação divina é a própria experiência da palavra. Essa experiência impõe-se-lhe com força tal que ele, num julgamento intuitivo e imediato, reconhece a palavra e ao mesmo tempo a Deus como seu autor. Alguém fala nele, ao passo que ninguém fala nos falsos profetas (Jer 5,13;14,14;23;29,8-9; Ez 13,1-16). O critério é dado junto com a palavra. Sem raciocínio explicito, o profeta percebe no efeito em si produzido a causa divina; na palavra reconhece o seu autor. A origem divina da palavra não é deduzida, mas experimentada vivencialmente, de modo imediato, simultâneo.
[8] P. DEMANN, “Foi juive et foi chrétienne”, Cabiers Sioniens, 6 (1952), 89-103. quanto a isso, a fé do Novo Testamento apresenta mudança de acentuação. Permanece o aspecto de obediência, mas o desconfiança não se manifesta com a mesma intensidade. Em o Novo Testamento ansiava por uma salvação prometida, ainda obscura, objeto de esperança e de confiança. Com a vinda de Cristo, essa salvação é fato consumado. Desde então nossa fé tem um conteúdo explicito e atual: o Cristo é o Filho de Deus, enviado pelo Pai, que sofreu, morreu por nós, ressuscitou, está à direita do Pai, donde enviou seu Espírito. Tudo isso é objeto, não apenas de esperança e de confiança, mas objeto de conhecimento e de reconhecimento. Para o Novo Testamento, crer, é aceitar a pregação dos apóstolos referente a esses acontecimentos; a fé é aceitação do querigma cristão como verdadeiro (At 2,44;4,4.32;8,13). Em consequencia, pois, da vinda de Cristo, a fé do Novo Testamento tem caráter mais explicito e mais doutrinal que a fé do Antigo Testamento. Cf. J. Alfaro, “Fides in terminologia bíblica”, Gregorianum, 42 (1961), 504 – 505. Cf. também P. Grelot, Sens cbrétien de l’Ancien Testament, pp. 142-145.
[9] J. COPPENS, “Lê mystère dans la theologie paulinienne et ses parallèles qumrâniens”, em Littérature et theologie pauliniennes, p. 143. Em 1Tim 3,16, as etapas da historia do Cristo coincidem com as fasessucessivas do mistério. Assim como no mistério Deus medita um plano de salvação, manifesta-o aos homens e leva-os à gloria, assim também o Cristo preexistente foi manifestado pela carne, pregado e crido entre os homens, e finalmente volta glorioso aos céus. Cfr. C. SPICG, Lês Épitres pastorales, p. 119.
[10] Com efeito, o Evangelho é a revelação de Deus nosso Pai (1Tes 1,3; 2Tes 1,1; Rom 1,7), rico em misericórdia (Ef 2,4), que nos chama para seu reino e sua glória (1Tes 2,12). É o Evangelho do amor de Deus (1Tes 1,4). Nesse Evangelho Deus revela aos homens a eleição gratuita de que foram objetos e convida-os a se voltarem totalmente para ele (2Tes 2,13-16). Cfr. D. MOLLAT, “Évangile”, Dict. De Spir. 4: 1756.
[11] É a interpretação proposta por M. E. BOISMARD, em Lê Prologue de S. Jean, (Paris, 1953), p. 114. outros exegetas, porém, julgaram que nesse versículo está em questão o ministério histórico do Verbo encarnado. Segundo Spitta, Zahn, Loisy, a perspectiva histórica já começaria no versículo 4 do Prólogo; segundo B.Weiss, no versículo 5; segundo Heitmuller, Bernard, Buchsel, Holzmann, Harnack, W. Bauer, Lagrange, começaria no versículo 9. quanto a isso, cfr. R. Schnackenburg, “Logos-Hymnus und johanneischer Prolog”, Bibl. Zeitschrift, 1 (1957): 69-109.
[12] Encontramos em S. João todo um vocabulário tomado à linguagem jurídica: convencer, acusar, defensor, julgar, julgamento, testemunhar, testemunho. A obra de Jesus é apresentada num cenário de contestação e de defesa (I DE LA POTTERIE, “La notion de témoignage dans S. Jean”, Sacra Pagina,pp, 195-196).
quarta-feira, 6 de maio de 2009
A Aventura de Conhecer a Deus
1. A aventura de pensar e falar sobre o Deus de nossa fé
Toda religião tem em seu centro a fé, a crença em Deus. Com a nossa fé cristã não é diferente. Somos cristãos, e no centro desta identidade está a nossa crença em Deus. Os contornos do perfil desse Deus em quem cremos são fundamentais para entendermos em que consiste a proposta de nossa fé e situar o que ela tem de diferente em relação a outras religiões.
Tal como dissemos, todas as religiões têm em comum a crença em Deus. A Palavra Deus, portanto, não é privilégio do Cristianismo. Ao verificarmos o Aurélio, dicionário da língua portuguesa, vamos encontrar diversas definições da palavra Deus que comprovam o que acabamos de dizer.
Deus, em português, vem do latim deus e tem cinco significados:
1. Princípio supremo considerado pelas religiões como superior à natureza. 2. Ser infinito, perfeito, criador do Universo. 3. Nas religiões politeístas, divindade de personificação masculina, superior aos homens, e à qual se atribui influencia especial, benéfica ou maléfica, nos destinos do universo. 4. objeto de um culto ou de um desejo ardente, que se antepõe a todos os demais desejos ou afetos. 5. Principio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais.
Porém, esta definição do dicionário não é suficiente para conhecermos ao Deus que nossa fé adora e que proclamamos em nosso batismo como o centro da vida cristã. Somos pessoas que crêem em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Nosso Deus tem nome e rosto e nos convida a conhecê-lo, e a cremos na intimidade com seu mistério.
1.1. A indizível aventura de conhecer a Deus
Iniciamos, portanto, uma indizível aventura: a de um encontro em maior profundidade com Deus, a da tentativa de um conhecimento mais intimo de Deus o Deus da nossa fé, aquele em quem cremos e que é o sentido de nossas vidas. Sendo – como somos – cristãos, só podemos fazer isto através de Jesus Cristo, que proclamamos ser o Filho de Deus, e a partir daquilo que ele mesmo nos contou sobre Deus. Além disso, temos nossa própria experiência de Deus que a Igreja nos ensina a ler e interpretar. É através destes parâmetros, por conseguinte, que vamos aventurar-nos pelos altos e profundos mares da reflexão teológica sobre o mistério da Santíssima Trindade.
O povo de Israel e as primeiras comunidades cristãs serão nossos companheiros de jornada. Eles tiveram a preocupação de registrar sua experiência de Deus e a ação desse Deus na historia e nos atos humanos, colocando tudo por escrito. Ao caminhar pela vida, eles percebem que não estão sozinhos. Existe um Deus que caminha com eles, que se revela aos patriarcas, aos profetas, aos sábios e que, no Novo Testamento, vai se revelar em e através de Jesus Cristo, em quem as comunidades vão reconhecer o Senhor e o Filho de Deus. O itinerário destes homens e mulheres será paradigmático para nós, que vamos tentar acompanhar o fio da revelação de Deus ao seu povo, na Antiga e na Nova Aliança.
No entanto, antes de entrar propriamente no exame dos textos bíblicos, vamos deter-nos na escuta de uma série de perguntas que certamente todos sentimos ressoar dentro de nós, ou pelo menos já ouvimos da boca de outras pessoas, tais como: Quem é Deus? Onde ele Está? Como fala aos homens? Ou então, examinemos certas afirmações sobre a fé em Deus, tais como: eu creio em Deus, mas não no Deus das religiões. Ou ainda: Eu sou cristão, mas para mim não faz diferença que em Deus existam três pessoas, ou uma, ou 20. Também há quem diga: A Trindade é um mistério que nem Santo Agostinho entendeu. Portanto, quem somos nós para tentar entender?
Tentaremos ajudar a refletir e aprofundar seriamente todas estas perguntas e outras que surjam no meio do caminho. Mas não pretendemos fazê-lo dando uma série de conteúdos teóricos a serem aprendidos de cor. Nosso objetivo é proporcionar um encontro profundo e real com esse Deus que se revela e fala sobre si mesmo, sobre cada homem e mulher, sobre o modo de buscar e viver a verdadeira felicidade, sobre a vida, sobre o mundo. Mais ainda: o que se pretende é procurar compreender o que o povo do antigo Testamento ouviu e falou sobre Deus. E depois, o que Jesus ouviu e falou sobre Deus. E depois, ainda, o que aqueles que convivem com Jesus ouviram e falaram sobre ele e sobre o Deus que Jesus lhes mostrou...
...Nossa proposta é estudar e refletir sobre o mistério de Deus, para depois poder falar ordenada e sistematicamente sobre ele, procurando colocar como pressupostos ao nosso estudo alguns objetivos específicos.
Logo de inicio, é preciso colocar-nos as questões que precedem qualquer reflexão sobre Deus: como, com que direito, nos propomos a falar de Deus? A tentativa de falar de Deus é possível? Isto é possível hoje? A resposta do catecismo tradicional nos diz que “Deus é um puro espírito, perfeitissimo, eterno, criador do céu e da terra”. Por sua vez o novo catecismo da Igreja Católica define a santíssima Trindade como mistério central da fé, com as seguintes palavras:
“O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na hierarquia das verdades de fé. Toda a historia da salvação não é senão a historia da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro não é senão a historia da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo, se revela, reconcilia consigo e une a si os seres humanos que se afastam do pecado[1].
No entanto, para o homem e a mulher modernos – sobretudo para aqueles e aquelas que talvez estejam afastados da prática eclesial, mas não perderam sua fé em Deus -, precisamos encontrar palavras novas e inteligíveis para dizer esta mesma verdade que está no coração da nossa vida: Cremos em Deus uno e trino. Cremos em um Deus que é único e que se revela Pai, Filho e Espírito Santo.
1.2. O discurso Trinitário sobre Deus
Deus é Pai, Filho e Espírito santo. É isso que o Credo, símbolo da nossa fé diz. Esta oração, que recitamos todos os domingos na celebração eucarística, nos fala fundamentalmente três coisas:
Creio no Pai,
Creio no Filho,
Creio no Espírito Santo.
Estes constituem, então, os três artigos fundamentais da nossa fé. Partindo, pois, desses três artigos, vamos percebendo como se encaminha o processo de acontecimento da teologia.
1) Deus é Pai. Assim afirma o Novo Testamento. Com isso queremos dizer, em primeiro lugar, que cremos num só Deus, que é transcendência, superioridade, fonte oculta, manancial inacessível, origem sem origem, mistério fontal do qual tudo provem e ao qual tudo retorna. Dizer que Deus é Pai, é dizer que Deus é a fonte da vida. É aquela realidade que não vemos nem entendemos, mas sentimos que nos abarca, nos abraça, nos cria, nos faz, nos mantêm vivos a cada minuto da nossa existência. Ele é nosso escudo, segurança, amparo, rochedo, fortaleza, libertação, força, rocha, refúgio, baluarte (Sl 18/17,3). As palavras são insuficientes para expressar sua grandeza e sua proximidade.
Porém, se lemos o Antigo Testamento, o conteúdo Deus é Pai se encontra manifestado e percebido de maneira ainda parca e fragmentária. Há uma distancia bem grande entre Deus e a criatura, de maneira que o ser humano do antigo Testamento não se ateve muito a dar esse nome familiar de Pai ao Deus que ele prefere chamar de outras maneiras: Senhor, Forte Guerreiro... Se não denomina Pai a esse Deus, muito menos se atreve a pensar organizadamente sobre ele, e menos ainda com o auxilio de outras ciências que não são sagradas.
Ora, é exatamente isto que faz a teologia: pensar a revelação de Deus organizadamente, com o auxilio de outras ciências – a filosofia, a historia, a lingüística, a sociologia, etc. Portanto, olhando para esta revelação somente no Antigo Testamento, do jeito que a conhecemos, a teologia cristã tal como nós a entendemos seria impossível. Não existe um passo ou uma passagem adequada que possa transpor a distancia hermenêutica, interpretativa, entre o Deus de Israel e a tentativa humana de pensar e falar articulada e adequadamente sobre seu mistério, chamando-o de Pai.
Já no Cristianismo, isso acontece e nós chamamos Deus de Pai, embora reconheçamos também o Antigo Testamento como fonte da revelação para nós. Deus é chamado de Pai – por nós, pela Igreja inteira, por milhares de homens e mulheres que todos os dias levantam as mãos e os olhos para o céu, e dizem: “Pai Nosso...” Parece, então, que necessitamos dar um passo além da experiência do povo de Israel e do Antigo Testamento, pois o Novo Testamento nos abre uma nova dimensão.
Esse passo nos é oferecido em Jesus Cristo. Ele diz no Evangelho segundo Mateus: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). Portanto, para conhecer que Deus é Pai e chamar Deus de Pai, é preciso conhecer ao Filho. Uma religião que fosse só Pai – ou seja, que tentasse chamar de Pai apenas o Ser Supremo experimentado com fascínio, mas também com medo pelo ser humano primitivo – poderia correr o risco de ser patriarcal e verticalista. Em outras palavras, centralizadora. Poderia correr o risco de ser uma religião da norma e encontraria sua correspondência numa sociedade patriarcal. E mais: não encontraria correspondência numa teologia possível. A teologia só é possível porque Deus é Filho.[2]
2) Deus é Filho. O conteúdo Deus é Pai foi manifestado no e pelo Filho. E no Filho, Deus – o Transcendente, o Diferenciado, o Inatingível, aquele a quem ninguém podia ver e continuar vivo – se torna um de nós, ganha corpo, em carne e osso, como nós. Torna-se humano conosco e como nós, em tudo igual a nós, menos no pecado (Hb 4,15) e, exatamente por isso, verdadeiramente humano. Disso a razão não pode dar conta, é algo que só pode ser aceito na fé.
Essa fé, portanto, representa e implica:
- O acolhimento do fato histórico Jesus de Nazaré
- A aceitação de que neste homem histórico se deu a manifestação total e definitiva de Deus.
- A convicção de que Deus constitui Senhor e Cristo a esse Jesus, que foi morto pelos seres humanos. Jesus Cristo não é, portanto, mais uma revelação de Deus, mas é o próprio Deus revelado. É isto que nossa fé proclama.
Porém, 20 séculos nos separam do Jesus histórico. Mas então, após dois mil anos, Jesus Cristo não correria o risco de se tornar um fato a mais, perdido na noite dos tempos? Não correria o risco de tornar-se mais um personagem histórico entre tantos, como, por exemplo, Napoleão ou Dom Pedro II? Não correria o risco, até, de tornar-se mais distante que todos estes, uma vez que viveu antes deles, quando não havia escrita fácil e usual para registrar suas palavras, nem maneira de grava-las? Ou quando seus seguidores não conseguiam registrar por escrito o que ele fazia e dizia no mesmo momento em que falava e agia? Como é possível, com essa distância, conhecer a Jesus, imita-lo, segui-lo e, mais ainda, pensar e falar, fazer teologia sobre ele? Com tanto tempo transcorrido entre nós e ele, seria impossível saber com exatidão o que Jesus disse, o que fez, quem foi ele, seria impossível imitar Jesus, seguir Jesus, falar teologicamente sobre Jesus.
Querer fazer isso, sem uma passagem que o atualizasse para nossa fé, seria encarar Jesus apenas como um líder ou militante (o companheiro, o chefão daquela época). Seria assumir suas atitudes heróicas ou humanitárias, desvinculadas do conflito humano e de uma relação profunda com o Transcendente (Deus – Pai). Se assim fosse, a relação entre os nós e ele permaneceria só no sentido horizontal, e a teologia seria impossível. A religião do líder (o Jesus histórico comandando seus discípulos) é tão deformadora da fé quanto a religião do Pai (em que Deus está distante, é exterior ao ser humano). A diferença entre essas duas religiões está no fato de que a primeira é horizontalizante (só olha em torno de nós), no entanto, é necessário olhar horizontal e verticalmente para se chegar à Trindade cristã.
Qual é a chance que resta, então, para a teologia falar trinitariamente do Deus em quem crê? Basicamente, propor uma terceira via da revelação desse Deus, essa terceira via existe, e é o Espírito Santo.
3) Deus é Espírito Santo. Deus concede seu Espírito. A teologia cristã só é possível a partir do Espírito Santo. O Filho só revela o Pai na glorificação, pelo Espírito. E a comunidade cristã só reconhece e proclama o homem Jesus como Filho de Deus após a Ressurreição, pelo Espírito. Em sua morte e sua ressurreição, Jesus doa seu Espírito a quem nele crer.
Porém, esse Espírito sozinho levaria a uma experiência de Deus puramente carismática, intimista, interiorizante. Seria uma religião da anarquia, sem a dimensão horizontal nem a vertical, conduzindo ao individualismo, à alienação, ao carismatismo delirante e a um subjetivismo a toda prova, tornando, assim, a teologia impossível. Mas, o que a revelação nos diz é que esse Espírito é Espírito do Pai e do Filho, e se torna Espírito no ser humano. Faz do ser humano seu templo, inspira-o, cristifica-o, diviniza-o, configura-o ao Filho e o faz filho ele também, possibilitando-lhe então chamar Deus de Pai, como Jesus chamava.
A fé que é gerada pela in-habitação – habitação dentro de cada homem e cada mulher que crê em Jesus Cristo e no Pai – desse Espírito em nós, pode, então, nos ajudar a entrar numa comunhão com Deus, habitando em nós, é que nos vai dando essa possibilidade. A fé cristã gerada pelo Espírito de Deus, que é Espírito de Cristo, nos permite:
- Crer no passado de Jesus Cristo como nosso presente e nosso futuro (Hb 11,1). O que aconteceu com ele é o que acontece conosco. E nada nos acontecerá que não passe pelo que já aconteceu com ele.
- Converter nossa práxis: fazer as obras de Deus (Jo 3,21. 6,28. 7,17). Se é o Espírito do próprio Deus que está em nós, e se nos deixamos mover e guiar por ele, tudo que fizermos será obra dele em nós e estaremos espalhando pelo mundo as marcas do próprio Deus que age através de nós.
- Falar teologicamente de Deus pelo Espírito que diz e ensina a dizer: “Abbá, Pai!” (Rm 8,15; Gl 4,6) e “Jesus é o Senhor!” (1Cor 12,3). É o Espírito santo quem nos leva à experiência e ao conhecimento de Deus-Pai e de Deus-Filho. Nele podemos refletir sobre essa experiência de chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor, e transmiti-la aos outros de maneira coerente e inteligível.
Portanto, em Jesus Cristo e pelo Espírito, o caminho para Deus Novo e Vivo! É a própria humanidade do ser humano (Hb 10,20). Caiu o véu que, no templo, separava o ser humano do acesso à presença de Deus. Agora, seja ele judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher (Gl 3,28), pode aproximar-se de Deus e falar sobre ele. O Espírito foi derramado e a teologia é possível. O teólogo original é o Espírito Santo, que está em nós, nas comunidades, no povo, no mundo, na história.
A partir disso que vimos, a teologia tem condições de falar sobre o Deus em quem crê. Essas condições lhe são dadas pelo próprio Deus. Então, a missão do teólogo é:
- Pensar e falar segundo o Espírito (ou seja, segundo Deus).
- Prestar atenção à teologia que o Espírito Santo de Deus está realizando no povo, nas comunidades.
Só uma teologia (um discurso sobre Deus) possibilitada pelo próprio Deus corrige as patologias e as deformações:
- Da opressão da norma (uma religião verticalista, só do Pai).
- Da dominação dos lideres (uma religião horizontalista, só do Filho).
- Da anarquia e da insensatez dos “espíritos carismáticos” (uma religião intimista, só do Espírito Santo).
O Deus da revelação, a Santíssima Trindade, portanto, é o mistério da comunidade das pessoas divinas, mistério de fé, de salvação, de comunhão e de amor. Não é e não pode ser mistério lógico racional, porque justamente funda uma lógica nova: a lógica da gratuidade, do amor, do dom. uma lógica que está além da razão e que, precisamente por isso, dá o fundamento para toda a razão humana.
Fazer essa experiência do Deus Trindade nos faz perceber algumas coisas muito importantes e centrais para nossa vida de fé:
- Deus é total e totalizante. Não estamos só diante dele, mas também ao lado dele, e nele. Tudo fala dele, remete a ele, leva a ele. Ele é Deus além e acima de nós, maior do que nós (o Pai). Ele é o Deus conosco, entre nós, um de nós (o Filho). Ele é Deus em nós, dentro de nós, mais intimo a nós que nós a nós mesmos (o Espírito Santo).
- Nosso encontro com Deus é um acontecimento radical. Só podemos nos relacionar, pensar e falar sobre ele, deixando-nos surpreender e questionar radicalmente por ele.
- Deus é transcendente. Sempre maior, anterior a nós e nos ultrapassando eternamente. É e permanece para além de todas as nossas possibilidades de conhecimento e discurso.
E, mesmo assim, podemos afirmar que é possível conhecer a esse Deus, porque ele mesmo se dá a conhecer. Mas o verdadeiro conhecimento de Deus só é possível na abertura da acolhida humilde, na fé, na escuta acolhedora da revelação, onde ele mesmo se aproxima e abre seu Mistério de Pai, Filho e Espírito Santo. E o faz numa prática transformadora e comprometida na historia que procura realizar a vontade e o projeto de Deus para o mundo e a humanidade.
2. O Deus da Bíblia
A tentação permanente do cristão e, por conseguinte, também do teólogo cristão é o monoteísmo, entendido no sentido grego, bem diferente do monoteísmo hebraico e bíblico. Segundo a acepção grega, ser monoteísta é crer num Deus geral, ser supremo sem nome e sem rosto, uno e indiviso, solitário e monárquico. É a tentação de crer também que, em Deus, unicidade e diferença não se compatibilizam e, portanto, não podem estar juntas.
A conseqüência disso é que a fé cristã acaba se convertendo em um teismo ou deismo, ou seja, na crença em um Deus monárquico e solitário. Esta crença não integra nem a horizontalidade das relações humanas (Filho), nem a tão necessária dimensão subjetiva e interior (Espírito). Então, o Deus em quem ela proclama crer não é o Abbá (Pai) de Jesus Cristo, mas um ser distante e sem consistência nem incidência na vida humana. Acaba-se estruturando essa fé em termos de legalismo e fixismo na letra. Assim, em vez de cristãos, acabamos nos tornando iluministas, ou seja, passamos a ter confiança apenas naquilo que a luz da razão pode provar, afastando-nos da palavra libertadora, da experiência espiritual, da ação transformadora, e permanecendo ao nível das idéias. Portanto, ao elaborar rigorosamente essa fé monoteísta em tais moldes, estaremos fazendo não teologia, mas uma ciência mais digna dos parâmetros da razão moderna. A teologia é por excelência a ciência da fé e, por isso, supõe antes e mais que à luz da razão a escuta humilde da palavra de Deus, que a nós se dirige.
Ora, a revelação do Deus cristão é inseparável da experiência e práxis do ser humano. O Deus dos teísmos, o Deus em geral não é o Deus de Jesus, o Deus Trindade, o Deus Uno e Trino. A revelação do Deus cristão emerge na historia, mostrando um Deus que nunca é o mesmo, mas é sempre outro, encontrado na mediação do pobre, do carente, do diferente. E o ser humano, diante desse Deus, encontra-se permanentemente sob interpelação, sob julgamento, sob exigência. Exigência trazida pelo rosto do outro, sobretudo do pobre, aparecido como epifania (Manifestação) da transcendência. Para nós, cristãos, toda a história desse encontro entre Deus e o ser humano está registrada e pode ser conhecida na Bíblia, na Sagrada Escritura, no texto em que o povo de Deus registrou seu processo de encontro e conhecimento amoroso com seu Deus.
O texto bíblico é a mediação primeira onde podemos encontrar Deus, pois o Deus Cristão é o Deus da Bíblia. A Bíblia é a terra natal do Deus da fé cristã, que a teologia deve pensar sistematicamente, com a razão.
As duas condições prévias para que aconteça, através das páginas da Bíblia, o encontro com Deus são:
1- Não partir da razão, mas da fé. A Bíblia mesma nos adverte continuamente para essa condição indispensável pela qual podemos aproximar-nos do Deus que ela revela. E assim ela diz de muitas maneiras: “Destruirei a inteligência dos inteligentes” (1Cor 1,19ss; Is 29,14). “Escondestes estas coisas aos sábios e doutos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25-26). Para saber de Deus, portanto, é preciso estar disposto a não saber (a ser pequenino e inculto), ainda que se saiba que não se sabe e por que não se sabe.
É isso que os Evangelhos nos contam que acontecia com Jesus de Nazaré. Sobre ele, seus contemporâneos perguntaram: “De onde lhe vem esse saber?” (Mt 13,54-56). Porque ele desconcertava com sua maneira de ser, de agir e de falar. Não se parecia com os sábios e doutos da época, mas ao mesmo tempo afirmaram: “Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7,46). Porque sentiam que suas palavras e sua prática tinham autoridade. Uma autoridade, porém, que não vinha dele, mas de outro.
2- Negativa decidida a qualquer fundamentalismo (tomar o todo pela parte, explicar a totalidade da mensagem por um texto isolado) a qualquer fideismo (fé ingênua, que não se pergunta pelos seus porquês, nem procura dar razão de si mesma). Deus ultrapassa todo o entendimento, mas não o apaga. O Deus da Bíblia deve ser conhecido também com a razão.
A Bíblia é um conjunto de livros que narra, canta ou proclama acontecimentos que se dão em um ou mais momentos históricos concretos e particulares da vida de um povo – o povo de Deus -. E tem a atravessa-la a universalidade de uma revelação que se dá a partir da vida concreta. O centro desse conjunto de escritos, para nós, cristãos, é o evento Jesus Cristo, preparado pelo Antigo Testamento e explicado pelo Novo Testamento.
Por ser um texto plural e multiforme, a Bíblia carrega em sua definição várias dimensões e aspectos que são de extrema importância quando tratamos de descobrir, no intrincado das palavras, a luminosidade da revelação de Deus. Vejamos alguns deles:
1. A Bíblia é palavra. É comunicação de Deus sobre si próprio, que tem seu ponto auge em Jesus Cristo, o qual, ele mesmo, é ao mesmo tempo a palavra e o perfeito ouvinte, reconhecido por aqueles que o escutam e com ele convivem, um acontecimento salvador. A bíblia é um todo, um conjunto, um processo integral. Nos textos bíblicos, o Deus que é nomeado é o referencial último destes textos. Ele está implicado pela coisa do texto, pelo mundo (bíblico) que esses textos desdobram.
2. A Bíblia é tradição. O teólogo que se aproxima da Bíblia é herdeiro de uma tradição. Os textos bíblicos são ponto de chegada de diferentes tradições que são postas por escrito por um redator final.Nessa perspectiva, a Bíblia vai narrando a história do encontro do povo com Deus, ao mesmo tempo em que narra a saga desse mesmo povo em luta por identidade e liberdade. Para a Bíblia não há duas historias: uma historia profana e uma historia da salvação. Há uma só: a historia da salvação. Narrando essa historia, a Bíblia vai realizando a nomeação de Deus, que é polifônica (Tem muitos gêneros literários), recebida (ouvida e interpretada na fé), em que os textos se abrem para além de si mesmos e, portanto, permanecem vivos para além do primeiro escritor e do primeiro leitor.
3. A Bíblia é o livro da comunidade. Deus se revelou a um povo, e não a indivíduos isolados. Por isso, a escuta da palavra de Deus se dá no meio do povo. Deus e sus revelação vão ser percebidos por todo o povo de Israel. No texto bíblico, apenas de haver alguns líderes, porta-vozes, patriarcas, profetas e sábios que se destacam, o interlocutor divino por excelência é o coletivo do povo. No Novo Testamento é a Igreja que vai ser o novo povo da revelação, o povo de Deus, e é esta comunidade eclesial que vai receber e comunicar a revelação desse Deus, uma vez que é nela que este Deus é reconhecido e nomeado.
4. A Bíblia será então, uma revelação progressiva do agir e do ser de Deus, que se apresenta com paradoxos radicais, ou seja, com atributos que parecem inconciliáveis, mas que na verdade vão compondo progressivamente uma síntese única, a qual vai fazer com que o povo de Deus o reconheça como seu Deus, como o Deus que o escolhe e o converte de povo cativo e escravo em povo eleito, sendo Deus também escolhido pelo povo. Esses paradoxos do agir e do ser de Deus revelam algo do mistério de Deus ao povo, fazendo-o experimentar ao mesmo tempo grande alegria, mas também extrema perplexidade. Os paradoxos são[3]:
a) Santidade transcendente – Aproximação e comunhão: Embora altíssimo, transcendente, majestade inexpugnável e inatingível, o Deus da Bíblia é uma transcendência percebida na proximidade, no estar próximo, no ser conosco, no revelar-se, mostrando seu rosto e dizendo seu nome. O mesmo Deus que não se pode olhar de frente (cf. Elias, em Rs 11), que não se pode ver sem morrer, que não admite concordância com outros deuses (Ex 20,2s), pois é zeloso e ciumento, aproxima-se amorosamente, revela seu nome, propõe um pacto e escolhe aquele que é seu povo como esposa, como parceira de aliança para todo o sempre.
b) Universalidade – Particularidade: A universalidade do Deus da Bíblia é percebida na e a partir da particularidade. A vocação universal de Israel está em tensão permanente com a corrente particularidade ou nacionalista, que dá extrema importância às tradições e à identidade do povo (Is 42,1-9; 45,20-25). Só aos poucos, Israel vai percebendo que a sua eleição enquanto povo concreto é para uma missão de salvação universal. Somente após muitas dificuldades e sofrimentos, Israel vai sentir que não pode aprisionar nem domesticar aquele Deus que se autocompreende como seu Deus, porque o elegeu no contexto de uma aliança de amor. Esse mesmo Deus que escolheu o povo é o que deu um mundo a todo o ser humano, é o criador de tudo o que existe, e seu poder não conhece confinamentos, nem limites.
c) Teologia – Antropologia: A revelação de Deus manifesta quem é ele, enquanto Senhor de Israel e do mundo inteiro, mas também e inseparavelmente vai revelando quem é o ser humano a quem este Deus se dirige e para quem pronuncia sua palavra. A experiência antropomórfica (com forma humana) e antropopática (com sofrimento, passibilidade e vulnerabilidade humanos) de Deus remete à sua personalidade transcendente, a qual, em vez de ser reduzida ou minimizada, é, pelo contrário, revelada com mais nitidez. É assim que conhecer a Deus implicará em conhecer melhor ao ser humano, e vice-versa: o conhecimento de si mesmo e do próximo levará a conhecer melhor a Deus. da mesma forma, o amor a Deus, mandamento primeiro e iniludível para o povo de Deus, vai identificar-se cada vez mais com o segundo mandamento – amar ao próximo como a si mesmo -, chegando ao seu auge no Novo Testamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor a Deus e ao próximo, portanto, é o resumo e a síntese feliz e acabada da lei de Deus. Criador e criatura estão, pois, de tal forma amorosamente vinculados, que não é possível conhecer a um ser o outro, e vice-versa, embora ambos sejam tão fundamentalmente diferentes e não façam número um com o outro[4].
d) Mística - Ética: A experiência religiosa mais profunda (mística) do mistério de Deus leva a (e se alimenta de) uma ética, uma práxis. Ouvir a palavra de Deus, para o povo de Israel e para a Igreja do Novo Testamento, é inseparável de fazer a sua vontade. Por isso, a escuta na Bíblia é sempre uma escuta obediente, porque é a escuta de um Deus que fala agindo e fazendo agir. Sua palavra é eficaz porque faz o que diz, e faz fazer aquilo que diz. Se o comportamento humano não e transformado pela experiência da escuta da palavra, então é uma falsa escuta que se da no seio do povo, duramente denunciada pelos profetas. Assim, o binômio injustiça-idolatria é tão central, quando se trata de obstáculos humanos a revelação de Deus na Sagrada Escritura. Adorar a Deus e servir ao irmão fazem parte da mesma experiência de Deus e são inseparáveis. O Deus de toda majestade se liga as coisas mais concretas e comezinhas do dia-a-dia do povo. Portanto, Israel logo vai perceber que a perda da maneira correta de se relacionar com os outros resulta na perda da maneira correta de se relacionar com Deus. Ou seja, a injustiça leva a idolatria, e vice-versa.
Aceitando, conjugando e dispondo-se a conviver com esses paradoxos radicais, será possível ir descobrindo o fio da revelação do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que e o Deus de Jesus Cristo, que mostra seu rosto e entrega sua identidade nas paginas da Sagrada Escritura. Essa foi e é, ha muitos milhares de anos, a aventura do povo de Deus, e essa deve ser a nossa aventura também hoje.
Entrando nessa aventura, conhecemos um mundo plural e fascinante, pois a Bíblia apresenta uma idéia pluriforme sobre Deus. Os autores sagrados geralmente definem Deus mediante analogias humanas e naturais. Expõem a experiência e a idéia que dele tem nos títulos, imagens e metáforas, nas narrações das ações divinas e nas expressões dos sentimentos humanos. Essa pluralidade, no entanto, é sinfônica, ou seja, não se trata de fragmentação sem principio organizativo, nem de oposição ou superposição de imagens, mas é como muitos instrumentos tocando a mesma musica. Essa musica maravilhosa (que é o próprio Deus) -essa sinfonia inefável que encanta a vida de todo o ser humano que vem a este mundo e lhe da sentido - é uma melodia que só se pode ouvir penetrando no mundo da Bíblia.
3. DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO: OS FIOS CONDUTORES DE SUA
REVELACAO E SUA IDENTIDADE
No Antigo Testamento não existe uma teologia, mas muitas. Cada escritor, cada tradição, cada escola foi registrando sua experiência particular de Deus.
Mesmo assim, e a despeito do fato de Deus ser chamada de muitos nomes, temos que constatar que a nomeação de Deus como Javé (Jeová) ocupa o centro de todos as escritos, embora, em alguns momentos dos registros de diferentes autores, apareçam outros nomes e a nomeação do Deus de Israel conviva com a nomeação de outros deuses. Javé aparece como o Deus que se revelou a Israel e do qual este povo teve a experiência no êxodo, no Sinai e em muitas outras circunstancias de sua historia de mais de 1.500 anos, desde Abraão ate Jesus Cristo. Falar de Javé implica, para o povo de Israel, uma referencia obrigatória.
Algumas citações, no entanto, supõem a existência de outras divindades ao lado de Javé no inicio da caminhada do povo de Deus (cf Ex 20,2s). Uma apresentação de Deus no Antigo Testamento supõe um triangulo formado por Javé, outros deuses e Israel. Só lentamente Israel foi superando o politeísmo que ainda o rondava como tentação, a idolatria que às vezes a fascinava com falsas promessas e ilusões, para estabelecer as bases sólidas da crença num só Deus.
Os autores do Antigo Testamento não conseguiram (nem tampouco se propuseram) a definir ou sistematizar de maneira unívoca a mensagem do Antigo Testamento sobre Deus. Foram desenvolvendo paulatinamente suas experiências e idéias do Deus vivo e refletindo sobre elas, ate chegar a registrá-las par escrito. Mesma assim, não se pode dizer que na Bíblia exista um tratado sabre Deus. Os autores bíblicos não tem essa preocupação e toda a tentativa de definir sistematicamente o Deus da revelação se chocara com numerosas dificuldades. No entanto, fazendo uma releitura do ponto de vista do Novo Testamento -ou seja, desde a fé crista, que é a nossa - sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento, impõe-se a constatação e a afirmação de que Deus falou ao povo desde sempre, de muitos modos e maneiras, mas ninguém nunca viu Deus. Somente Jesus, o Filho único de Deus, que esta no seio do Pai, no-lo deu a conhecer (cf Hb 1,1s; Jo 1,18).
Com esse pano de funda, apresentamos agora a concepção de Deus no Antigo Testamento, seguindo passo a passo os diferentes livros ou blocos nele contidos:
1.1 Prelúdios do Javismo: as tradições bíblicas diferem quanto à origem da fé javista. O nome de Javé (Jeová) aparece, no entanto, do principio ao fim do Gênesis e, segundo (Gn 4.26), remonta as origens da humanidade. No entanto, de acordo com Ex 3,13-15, o nome de Javé sa revela pela primeira vez a Moises, e não aos patriarcas. Ex 6.2-3. Por sua vez, Gn 35,2-4 indica claramente que os antepassados de Israel adoraram outros deuses, diferentes de Javé (cf Js 24, 2. 14-15).
Os livros de Gênesis e Êxodo, alem de utilizar a palavra Javé para denominar a Deus, empregam outros nomes para referir-se a ele, principalmente de dois tipos:
1) Um Deus mais pessoal:
a) o deus de meu pai (Gn 31,5.42; Ex 15,2; 18,4); o deus de teu pai (Gn 31,53); o deus de seus pais (Ex 3,13.15.16; 4,5).
b) o deus de Abraão (Gn 24,12.27.42.48; 26,24; 28,13; 31 ,53); o Deus de Isaac (Gn 46,1).
c) o Deus de Abraão, teu pai, e o deus de Isaac (Gn 28,13); o deus de meu pai Abraão e o Deus de meu pai Isaac (Gn 32,9); o Deus de vossos pais, o deus de Abraão, Isaac e Jacó (Ex 3,6.15.16; 4,5).
2) Um Deus mais ligado a um lugar (topônimos ou epítetos divinos ligados a um lugar) ou a alguma qualificação (adjetivos que exaltam a sua supremacia):
a) EI Elyon (o deus altíssimo): Gn 14,18-22.
b) EI Roi (o deus que me vê): Gn 16,13.
c) EI Olam (o deus eterno): Gn 21,33.
d) EI Elohe Yisrael (o deus de Israel): Gn 33,18-20.
e) EI Betel (o deus de Betel): Gn 31,13.
f) EI Shaddai (o deus poderoso): Gn 17,1; 28,3; 35,11; 43,14;48,3; 49,25.
Sobre essa pluralidade de nomeações há varias tendências e varias hipóteses na exegese moderna. Aqui colocamos as três principais:
Primeira hipótese:
- O deus dos pais é diferente do deus EL: não tem nome próprio, mas recebe seu nome daqueles a quem aparece pela primeira vez e que fundam seu culto. É ligado a um grupo, o qual protege e acompanha. Não tem morada fixa, segundo o tipo de vida nômade dos patriarcas.
- O deus EI já reflete a vida dos povos sedentários. O termo el (plural elim) se usa como apelativo divino e como nome próprio de um deus determinado. Os elim seriam divindades locais Cananéia com santuários fixos.
- O deus dos antepassados de Israel é fruto da coexistência dos dois tipos de divindades, devido a sedentarização de Israel em Canaã.
Segunda hipótese:
- Ha uma identidade original entre o deus dos pais e o deus EI. O primeiro representaria um tipo especial de adoração do deus EI, ao qual os patriarcas possivelmente prestaram culto antes da sedentarização.
Terceira hipótese:
- Contestam-se as predominâncias das nomeações de Deus no Antigo Testamento.
- Contesta-se a relação entre religião patriarcal e vida nômade dos antepassados de Israel.
- As expressões "o deus de meu pai" ou "o deus de fulano", na literatura do Oriente Próximo, se referem a culturas sedentárias.
- No segundo milênio a.C., não se pode estabelecer uma diferença entre nomadismo puro e cultura sedentária. o trinômio família – tribo - estado é uma abstração artificial. Designações como "o deus de Abraão", ampliada para "Abraão teu pai”, "Abraão, Isaac e Jacó", aparecem nas narrações patriarcais que usam literariamente o predomínio da família sobre a tribo e o estado. A relação do ser humano com Deus aparece então a partir da analogia Pai-Filho.
- As designações divinas e as promessas em Gênesis e Êxodo não provam a existência de uma forma de religião pré - javista associada com a primitiva forma de vida - nômade ou seminômade de Israel.
O fato e que, mesmo com estas discussões, os relatos patriarcais têm inegavelmente um caráter familiar. O Deus de Gênesis 12 é um Deus que acompanha, guia e protege a família, protótipo da família humana, da humanidade. A promessa e a bênção divina apontam para o futuro e resgatam o passado da grande família humana.
Retornando a analise da concepção de Deus no Antigo Testamento, vejamos o segundo item:
1.2 o Javismo: No Antigo Testamento, Javé e associado principalmente a Moises e ao Êxodo. A formula de fé "Javé tirou Israel do Egito” é o cerne da tradição bíblica do Êxodo e de todo o Antigo Testamento. isso pode ser constatado nos credos históricos (Dt 6,21-23; 26,8; Js 24.6s "as festas religiosas (Dt 16,1-3.6; Lev 23,44), nas leis (Dt 13,11; 20,1 e nos hinos (SaI 114, 1ss; 135,8s; 136,10 ss). Tal formula, no entanto, é tardia. pois supõe a existência do grande Israel, um povo já organizado como povo, com 12 tribos. E mais uma retroprojeção (projeção para trás) do hagiógrafo -livros do Antigo Testamento, menos o Pentateuco e os Profetas- na época de Moises.
O berço do Javismo parece ser o Sinai (Dt 33; Jz 5). Deus, então, aparece ligado a montanha. diferente do Êxodo. Parece que o berço do Javismo deveria ser buscado na era pré-mosaica (segundo as fontes bíblicas e extra-bíblicas), na montanha do Sinai, na região de Madiã. Ali, num mesmo momento histórico e em zonas geográficas próximas e comunicadas entre si, diferentes grupos (madianitas, shosu, proto-israelitas) tiveram experiências sociais e religiosas similares ou idênticas.
1.3 O Deus que vai ser nomeado como Javé se revela, sobretudo em sua atuação na historia e em sua relação com o povo. Israel era um povo explorado pelo Egito, de onde é libertado por uma intervenção especial de Javé (Ex 1-3). Ele revela seu nome a Moisés: “Eu sou o que sou” (Eu sou o único existente, o único que existe). O nome Javé é um tetragrama sagrado: YHWH (Ex 3,14ss). Ele se revela a Moisés para o serviço do povo, em beneficio de Israel. Israel deve, então, reconhecer que Javé é para ele, o único Deus existente e o único salvador.
A saída do Egito para Israel, dada a situação de escravidão em que se encontra o povo, trata-se de uma verdadeira salvação. Javé é apresentado como um guerreiro (Ex 15,3) que combate por seu povo (Ex 14,13). A fórmula Javé tirou Israel do Egito passou à tradição veterotestamentária como o artigo fundamental da fé de Israel.
1.4 O Deus do Sinai: Javé tira o povo do Egito para conduzi-lo a uma terra boa. Mas entre o ponto de partida e o de chegada se interpõe uma estação: o Sinai (Ex 19-24). Ali Javé se manifesta (Ex 19) e conclui um pacto (Ex 24) com aqueles que tirou do Egito, constituindo uma verdadeira comunidade, um povo novo. A aliança do Sinai não se estabelece entre as diferentes tribos ou grupos que formarão o povo de Israel, mas entre estes e Javé, numa relação única e singular. O êxodo foi como o batismo do povo no mar, e a aliança ao pé da montanha é o passo decisivo para a constituição do povo de Deus.
No Sinai, Javé se manifesta teofanicamente (Ex 19). A teofania na Bíblia significa a manifestação de Deus, que é cercada de elementos maravilhosos e extraordinários. Ali no Sinai, em meio à teofania, Javé revela sua lei (Ex 20-23) e faz a aliança (Ex 24).
Eis portanto, a trilogia que constitui a experiência de Deus do povo no Sinai:
- A teofania: Javé se apresenta como um ser numinoso e fascinante, com uma liturgia cósmica impressionante. Sua voz soa para transmitir o decálogo (Ex 20,2-17) e o código da aliança (Ex 20,22-23).
- A lei: a revelada por Javé, dom de Deus a seu povo. A narração teofânica aparece emoldurada por textos de aliança. O decálogo é o documento da aliança.
- A aliança: é o compromisso fundamental do povo com seu Deus.
A experiência com Javé carrega consigo a exigência da rejeição dos outros deuses, primeiro dos mandamentos (Ex 20,2-3). Ele libertou o povo e o introduziu sob seu senhorio. A ação salvífica de Javé fundamenta as exigências dos mandamentos e a proibição de ter outros deuses (Ex 20,3-5) e fazer imagens.
Javé se mostra desde o principio como um Deus ciumento (Ex 20,5b-6; Dt 4,24; 6,15; Js 24,19), um Deus exclusivo, que não admite rivais. isso se choca com o politeísmo dos outros povos. Ele se empenha sumamente em tudo que faz: quando salva e quando castiga. Pede contas das transgressões aos que o odeiam, mas mostra misericórdia com os que o amam e observam seus mandamentos (Ex 20,5b-6; 34, 65; Nm 14,18; Dt 7,95). Sua misericórdia sempre prevalece sobre o castigo. Por isso, e por muito mais, Javé é um Deus incomparável (Ex 15,11).
1.5 o Deus dos profetas: Os profetas são homens de Deus, porta-vozes de sua revelação. Falam em nome de Deus, proferem o juízo, 0 julgamento de Deus sobre a vida do povo, os governantes, os latifundiários, os sacerdotes que abusam do culto. Eles são, por assim dizer, a boca falante de Deus no meio do mundo e da historia. Cada um deles tem uma experiência própria e original desse Deus que os toma por inteiro e se serve deles para dizer o que deseja ao seu povo.
O grande profeta de Israel é Elias. Embora não haja um livro profético com seu nome, ele é o modelo de todos os profetas. Elias, que leva a marca de Deus em seu nome (E/), é um homem de Deus (1 Rs 17,18.24; 2Rs 1 ,9-16). Grande responsável pelo monoteísmo javista de Israel, ele combate o deus Baal para mostrar a unicidade de Javé, que é, para ele, o único e verdadeiro Deus. Por isso, fala contra o rei Acab (1 Rs 18,17-20), contra o povo de Israel que adora Baal (1 Rs 18,21-24) e contra os profetas de Baal que fomentam seu culto (1 Rs 18,25-30).
Os profetas clássicos (nome com que são designados os principais profetas, autores de livros bíblicos) são, antes de tudo, transmissores da palavra de Deus. O Deus dos profetas é o Deus que fala por sua boca: oráculo, assim diz Javé. Estes oráculos são de condenação ou salvação, denuncia ou convite a conversão, que são as duas dimensões da palavra de Deus e de Deus mesmo: um Deus que castiga-condena e que perdoa salva. Vejamos como Deus é apresentado em alguns deles:
Amos: Seu livro é estruturado em torno de vários nomes e designações de Deus, nos quais se destaca o de Javé, relacionado estreitamente com o bem, a pratica da justiça e do direito (cf 5,4ss)
Oséias: Usa muitas imagens para caracterizar Deus (medico, caçador, pastor, leão, pantera e ursa), mas a imagem do matrimonio e da paternidade -maternidade de Deus se impõe. Javé é o marido e Israel, a esposa infiel, cujos amantes são os baales (Assíria e Egito). Oséias lutou, como Elias e Jeremias, pela purificação do javismo. Fala contra os ritos cananeus de fertilidade. Fala de Deus como pai -mãe do filho pequeno Israel, um amor que transcende o de qualquer ser humano.
Isaias: Para ele, Javé é o santo por excelência e o rei e senhor dos exércitos, cuja gloria enche toda a terra (6,1ss). Com a santidade de Javé, Isaias contrasta o pecado de Israel, que Javé castiga e condena (9,12;10,16;30,9;3,8;5,13.29;6,11s;28,18ss), mas antes oferece conversão e perdão (5,25; 10,4). Haverá um resto que se salvará e do qual sairá um rebento sobre o qual repousará o espírito do Senhor (6,13; 11,1 s; 14,32; 28,16s). Será da raiz de David, o messias que trará a justiça e o direito à terra (7-11).
Miquéias: Também fala de um resto, de um rei messiânico ,(5,1 ss) e de Jerusalém como centro de atração universal (4,1 ss).
Jeremias: Anuncia o Deus da palavra. A palavra de Deus e posta em sua boca pelo próprio Senhor, para que cumpra a missão de arrancar-destruir e construir-plantar (1,9.10.12). Deus escrevera sua lei no coração do povo, renovando-o e transformando-o em seu interior. A brecha entre a lei de Deus e os desejos do coração humano será fechada pelo mesmo Deus. A comunhão com Deus será total. A nova aliança é escatológica: todos conhecerão a Javé.
Ezequiel: Fala do Deus transcendente e inacessível, mas presente através de sua gloria (1,28; 3,23; 8,4; 10,1; 43,2). O Deus de Ezequiel julgara o povo por seus pecados. Dentre os quais o mais grave e o da idolatria (14,18; 16,16; 20,28s).
Segundo Isaias (Is 40-55): Aqui, Deus e apresentado como o criador e o salvador, anterior a tudo o que existe, na origem de tudo (43,10; 44,6.24) e redentor do povo e de tudo que existe, fazendo uma nova criação (41 ,20; 48,7). Javé se revela como um Deus singular, como um pai com entranhas de mãe. É um Deus único e incomparável (41,4; 44,6s; 45,5.14.18.21). O monoteísmo emerge no dêutero (segundo) Isaias como um monoteísmo soteriológico.
O Deus dos profetas é polifacético. Cada profeta destaca determinados traços de seu rosto. Não falam tanto do ser mesmo de Deus, quanto de sua atuação na historia. Desse agir divino intra-histórico é que saem os diversos atributos divinos (ciumento, misericordioso, santo, eterno), os títulos (criador, esposo, juiz, pai-mãe, salvador, redentor), como também as imagens verbais para significá-lo (Leão, caçador, médico, pastor, pantera, ursa).
1.6 O Deus dos sábios: Ha cinco características principais sobre Deus nos livros sapienciais:
1) Muitos aspectos da vida são tratados sem uma referencia explicita a divindade.
2) Ha uma preferência freqüente por expressões genéricas ou indeterminadas ao referir-se a Deus.
3) Constata-se uma falta de referencia a eventos históricos.
4) Predomina uma descrição não mitológica do mundo e da divindade. Portanto, uma descrição mais realista, com imagens da vida concreta e do cotidiano.
5) Percebe-se uma atitude reservada com relação ao culto.
E importante observar que cada um dos livros sapienciais apresenta sua própria concepção de Deus:
Provérbios: Deus inspira temor (1,7;31,30).trata-se de um temor feito de respeito filial, reverencia e amor, parte integrante da vida. Deus se remete ao comportamento das pessoas,prova os corações e dá a cada um segundo suas obras (16,2; 17,3; 21,2; 12,2; 24,12; 25,21s). A sabedoria não é mera espectadora na criação e ordenação do mundo, mas a primeira criatura de Deus, o plano de Javé sobre todas as coisas (8).
Jó: Deus e designado com vários nomes: Javé, nos marcos narrativos (1 s.; 42,7ss). No poema, como EI, Eloah, Elohim, Shaddai e EI-Shadda: (3,1-42,6). No prólogo ha uma imagem singular: Deus governa colegialmente o mundo (1,6; 2,1). Os amigos de Jó tem uma idéia coerente de Deus: ele e o criador todo poderoso que assegura aos homens a justa retribuição de seus atos (4s; 8; 11; 15; 18), com uma justiça inquestionável. Jó discute o modo de proceder de Deus, embora admita seu poder criador (10,8ss; 12,11 ss; 9,21; 10, 14ss; 6,4; 7,12ss). Recorda o passado, quando Deus o protegia (29,1 ss), reconhece nele o redentor (19,25-27), ressalta a bondade de Deus criador (38,31 ss; 39,5ss) e seu controle sobre o mundo e a realidade.
Qohélet ou Eclesiastes: Deus é sempre chamado de Elohim. Deus é um ser misterioso e invisível, impossível de ser conhecido. Oculta-se mais do que se manifesta (3,11; 8,16s; 11,5). E criador e juiz (11,9), e dono e soberano da vida (8,15) e dele depende a sorte e a desgraça (2,24-26; 7,14).
Eclesiástico: Toda sabedoria vem de Deus (1,1) e o temor de Deus é sua raiz (1 ,11-20). Os que temem o Senhor lhe obedecem e amam (2,7-17). O temor de Deus e equivalente a sabedoria, grande dom do Senhor a seu povo (24).
Sabedoria: O tema central é a morte e a imortalidade (1-5). Os justos viverão eternamente com aquele que escolheram (3,1-5; 5,15). A sabedoria é mediadora entre Deus e o âmbito cósmico – soteriológico (6-9). A sabedoria é hipostasiada (feita pessoa). Essa hispostasiação ou personificação, ao mesmo tempo que é um atributo divino, será terreno fértil para a sua aplicação ao Cristo, a partir do Novo Testamento.
Deus ocupa um lugar relevante nos livros sapienciais, ora perto da concepção tradicional do Antigo Testamento, ora abrindo novos horizontes para o Novo Testamento. Deus fez o ser humano a sua imagem, mas ninguém humano é capaz de modelar um Deus semelhante a si (Sb 15,16). Somente alguém divino-humano pode aproximar Deus e o ser humano. Os livros sapienciais, relidos pelo Cristianismo, vão reconhecer a sabedoria encarnada em Jesus de Nazaré. .
Após este percurso pela pluralidade e pela polifonia das nomeações de Deus no Antigo Testamento, vamos dar mais um passe no trabalho de escuta e descoberta do fio condutor da revelação desse Deus ao povo de Israel. A releitura do Antigo Testamento a partir do Novo Testamento é o que nos permitira fazer isso. Vamos, então, proceder a esta releitura pretendendo e legitimamente tentando realizá-la na continuação deste capitulo. Com todo o respeito e amor que temos pela revelação de Deus no Antigo Testamento, que é revelação também para nos, nossa intenção é fazer teologia crista. Ou seja, nos propomos a pensar e falar sobre o Deus da nossa fé, que acreditamos nos ter sido revelado na historia do povo de Israel, mas, sobretudo e plenamente em Jesus Cristo. E com esta iluminação que vamos ler e refletir sobre as etapas da revelação de Deus no Antigo Testamento, a partir do seu coroamento e da sua plenitude no Novo Testamento.
4. DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO: ETAPAS PRÉ-CRISTÃS DE SUA REVELAÇÃO
Apos fazer um rápido percurso sobre as muitas maneiras pelas quais os principais livros do Antigo Testamento falam de Deus, o objetivo da nossa reflexão é fazer um corte transversal na revelação de Deus ao povo de Israel. Perceber os fios condutores desta revelação e procurar entrever seus remanescentes hoje, em nossa vida e na vida da comunidade eclesial. Isso nos ajudara a perceber como muitos de nós ainda estamos no Antigo Testamento, em termos da experiência de Deus, e não fizemos totalmente a passagem para o Novo Testamento. Não estaríamos, pois, disponíveis para ouvir e receber a Boa Nova (Evangelho) de Jesus.
Nesta seção, vamos tentar compreender algo da nossa fé em Deus e do nosso catolicismo atual. Isso talvez nos ajude a ver que temos que morrer para muitas das nossas concepções mais arraigadas, ainda que religiosas, sobre Deus. Esperamos, assim, poder dar um passo a frente da experiência do Antigo Testamento -embora conservando toda a imensa riqueza ai recebida e aprendida- e receber a grande e radical novidade da revelação de Deus que Jesus Cristo nos traz.
O método que iremos empregar e considerar e usar o Antigo Testamento como paradigmático e exemplar. Vamos ver que ali aparece o fundamento da evolução para toda descoberta de Deus. Com este objetivo, vamos tomar as etapas, tradições, e não os livros. Veremos as diferentes tradições pela ordem, indo das mais antigas para as mais recentes, sem nos preocuparmos muito com exatidões literárias e construções relacionais. Não se trata de uma análise filológica e exegética, e sim de uma leitura teológica, uma das muitas possíveis para descobrir o processo pedagógico e amoroso da revelação de Deus a seu povo. Finalmente, veremos como somente a luz da fé em Jesus Cristo essas quatro etapas se organizam e se tornam coerentes (cf 2Cor 3,13-18). A luz de nossa fé, são etapas pré-cristãs da descoberta de Deus.
A cada etapa corresponderão:
- Alguns textos fundamentais que dão a moldura da situação historico-bíblica.
- Uma idéia de Deus.
- A experiência correspondente a esta idéia.
- O alcance e as limitações da etapa onde esta idéia e onde esta experiência tomam corpo.
- E, finalmente, seus remanescentes entre nos.
4.1 Primeiro etapa: O Deus terrível
Textos fundamentais: Gn 4, 13; Ex 3,1 ss; Ex 19, 20 ss; Ex 20, 18-20; Ex 30, 25ss; 1Sm 6, 11-16; 2Sm 6, 3-7.
Situação historico-bíblica: De 1250 (êxodo) a 900-800 a.C. Refere-se ao tempo da conquista da terra e aos primeiros reis.
Idéia de Deus: Deus não aparece como poder universal, tal qual o é para nós. Deus é o Deus da terra em que habitam aqueles que a adoram. Nessa terra ele concentra poder e autoridade. Estar longe da terra equivale a estar longe de Deus, de sua proteção. Por conseguinte, para o ser humano desta etapa, Deus atinge e pode ser atingido só indiretamente (Gn 4,13). O acesso a Deus se da pelo encontro concreto na terra em que vive o ser humano. A mediação da terra é fundamental.
Experiência de Deus: Esta se da no inexplicável e no terrível (Ex 3,1ss).o ser humano se sente pequeno diante do tremendo mistério de Deus. experimenta liberdade no profano, e terror diante do sagrado.
Atitude religiosa fundamental: O ser humano não pode aproximar-se familiarmente da terrível santidade de Deus, do sagrado (Ex 19,20ss). Para isso é preciso um intermediário. Alguém que seja, ao mesmo tempo, santo e humano (Ex 20,18-20). Tampouco e permitido aproximar-se de uma só vez do sagrado. Ha graduação nas aproximações, uns podem aproximar-se mais, Outros menos. A aproximação exige condições especiais: a santificação e a preparação (Ex 19,22) conseguidas pela purificação ritual das pessoas, das coisas e dos animais (Gn 7,2). Isso permanecera como uma experiência forte para o povo judeu e só conhecerá uma concepção renovada em At 10,9-15, quando e revelado a Pedro que esses rituais não interessam mais ao Deus dos cristãos.
Esta primeira etapa da caminhada religiosa de Israel e muito centrada sobre a necessidade da purificação para o encontro com Deus. Os puros, Deus acolhe. Os impuros, Deus rejeita (Ex 30,25ss). o sagrado, o reservado, o separado por Deus é o que ele reservou para si Portanto, usar e tocar profanamente algo sagrado é um sacrilégio, mesmo se feito sem intenção. A intenção do ser humano e alheia a tudo isso.
Um bom exemplo do que acabamos de dizer encontra-se na comparação entre estes dois textos: 1 Sm 6,11-15 e 2Sm 6,3-7. Qual a diferença entre a ação dos filisteus e a ação de Oza? A dos filisteus estava prevista ritualmente. Era programada religiosamente, fazia parte dos rituais convencionados. Eles não pertenciam ao povo de Deus, portanto o interdito de tocar nos objetos sagrados não lhes dizia respeito. A ação de Oza e uma ação familiar, como segurar uma coisa que vai cair. Segundo a mentalidade religiosa, a arca de Deus não pode ser tratada como uma coisa qualquer, mesmo que a intenção seja boa. Por isso, Oza foi punido e os filisteus não.
Significado desta etapa: Aparentemente, e negativo. Essa centralidade no ritual e nas purificações se choca com a nossa mentalidade moderna. Mas ha muitos pontos positivos sobre os quais deveríamos refletir com cuidado:
a) Encontramos aqui uma descoberta radical do absoluto, embora muito rudimentar. Uma descoberta existencial de Deus fora do domínio das coisas normais da vida humana.
b) Pode ser percebida uma grande valorização da experiência do ritual, que põe o ser humano em contato com Deus, rompendo a cadeia do habito, do cotidiano, do manipulável. O rito aqui aparece como aprendizagem do absoluto, intervenção do incondicionado na hist6ria e no provisório. O ser humano precisa dos rituais para relacionar-se com Deus. Nossa época,
que tanto desvalorizou o rito, precisa aprender a reencontrar sua importância, sem cair no ritualismo, para reintroduzi-lo em sua vida de fé. O grande interesse atual pela liturgia, pelos simbolos e gestos da testemunho do que acabamos de dizer.
c) Do ponto de vista do Cristianismo, Deus e amor. Essa afirmação só é possível se compatível com esta outra: Deus e absoluto. Esta etapa já começa a ensinar ao povo de Israel e também a humanidade que o amor e o único absoluto, e só o absoluto e amor. Só o amor e digno de fé. Por ser Absoluto, Deus-Amor tem as suas exigências, e suas exigências servem para fundamentar ainda mais o amor. Numa época, como a nossa, em que o amor tornou-se, para muitos, uma palavra vazia, precisamente pela falta de fidelidade e de disciplina para sua conservação. essa experiência que Israel fez do absoluto de Deus torna-se bastante atua. Pois o amor é o que desinstala. o amor e o que tira o ser humano bíblico de sua casa, de sua terra e de sua parentela. assim como nos tira das "nossas seguranças" e nos leva ao desconhecido. nos arrasta para onde nunca fomos, para fazer algo Que tampouco sabemos, mas que Deus sabe (Gn 12,1 / / Mt 10.35-39; Jó 3.8; 21,18).
Limitações desta etapa:
- Uma certa exterioridade: Não pode haver vida religiosa, de fé, apoiada apenas no exterior, no ritual, sem o profundo da subjetividade do ser humano. Embora se reconheça aqui um ponto de partida da pedagogia divina.
- Uma certa debilidade diante do sistema de explicação cientifica dos fenômenos humanos. A medida em que o mundo for se explicando, com o desenvolvimento da ciência, o sagrado primitivo tende a desaparecer.
Remanescentes entre nos: Percebemos ainda na nossa vida eclesial e na nossa pastoral muitos remanescentes dessa primeira etapa da descoberta de Deus do Antigo Testamento:
- A superstição (eficácia do sagrado colocada nas coisas e nos ritos externos) ainda e extremamente presente no povo católico de todos os níveis sociais e culturais.
- A crença numa certa eficácia mágica de certos ritos (os sacramentos eficazes em si mesmos, desvinculados da pratica).
- A promessa, com uma certa dimensão de comercio divino, no senti do de que "Deus me dará o que peço, se eu cumpro uma serie de prescrições externas, que supostamente lhe agradariam".
- As indulgências concebidas como "compra da salvação”.
- Um certo esoterismo da liturgia, que atua independentemente da compreensibilidade e da participação da assembléia.
- A freqüência aos sacramentos concebida como aumento da graça em termos cumulativos (quanto mais se comunga, mais "capital salvífico" se tem guardado para a hora da morte e do julgamento).
- A multiplicação de ritos como garantia de salvação.
- A concepção do clero e pessoas consagradas como intocáveis e mais santas do que as outras
- A importância dada a fórmula dogmática, mais que ao conteúdo.
- A vida moral baseada em prescrições e proibições: “pode", "não pode".
Essa etapa pela qual passou Israel, muitos de nós ainda hoje experimentamos. É preciso supera-la e passar à etapa seguinte, assim como o fez o povo de Deus.
4.2 Segunda etapa: o Deus da Aliança
Textos fundamentais: Dt 26,5ss; Jz 11,17-24; Mq 4,5; Os 2,14ss; Am 5,21;
Is 1,9-17; Dt 5,1ss; 6,1-3; 7,1-13; 7,9-11; Os 7,9-11; Is 31,1 ss.
Situação historico-bíblica: De 900 a.C. ao desterro de Judá na Babilônia. Em 721 acontece a destruição do Reino do Norte. Mais ou menos em 630, a reforma de Josias. Corresponde aos primeiros grupos de profetas (Isaias, Amos, Miquéias, Oseías) e a redação de Juizes, Samuel, Reis e Deuteronômio.
Idéia de Deus: Continua não sendo um Deus universal, mas o Deus de Israel, Deus dos pais (Dt 26,555). Não chegamos ainda ao monoteísmo, no sentido pleno do termo. E mais uma monolatria (também conhecida como henoteismo), ou seja, o povo adora a seu Deus, em meio aos deuses dos povos vizinhos (Jz 11,17-24). Javé é o Deus de Israel, porque escolheu Israel como povo. Ele se compromete com Israel, e vice-versa.
Experiência de Deus: Essa etapa requer e revela um Deus que se aproximação mais do ser humano. Aproximação é sinônimo de proposta, de pacto, de ligação, de aliança. Mais do que a relação muito exterior estabelecida pelos ritos desvinculados de uma pratica, trata-se agora da instauração de uma relação mais pessoal e próxima, mais moral, do povo com Javé.
Atitude religiosa fundamental: A fidelidade é a imagem das relação entre o povo e seu Deus. Israel aparece e é entendido ai nesta etapa como a esposa de Javé. Ele é o esposo de Israel (Os 2,1455). Esposo fiel e que exige fidelidade, que tem "ciúme" quando Israel adora outros deusés. A fidelidade é uma atitude essencialmente humana, diferente dos ritos incompreensíveis da primeira etapa. E o fato de a fidelidade estar no centro da experiência desta etapa revela que Javé já não quer mais ritos externos, mas o coração do ser humano (Am 5,21). A moral expressa essa fidelidade, que se revela no mais profunda do coração das pessoas. Condena-se a religião meramente ritual, mais ainda, condena-se todo ritual que não chegue ao coração humano. o deserto – lugar do encontro e do amor da juventude aparece como o tempo da fidelidade sem ritos (Am 5,21; Is 1,9-17) e do desprezo por um ritualismo sem alma e sem justiça.
O decálogo se apresenta como código da aliança. Se Israel cumpre os mandamentos, Deus cumpre a sua parte e protege Israel para sempre. Dai resulta uma atitude histórica: Israel deve cumprir somente uma parte da aliança (mandamentos); do mais, Javé cuida. Israel se ocupa da moral, e Javé, da historia (providencia). Cada problema histórico deve, portanto, suscitar em Israel uma renovação moral (Os 7,9-11; Is 31,1 55). Nesse sentido, haverá dois possíveis pecados denunciados pelos profetas: a infidelidade (ou seja, a idolatria, o culto a outros deuses) e a auto-suficiência (pretender dirigir os próprios acontecimentos sem confiar na providencia divina).
Significação desta etapa: o sagrado e o divino aqui aparecem como providencia moral e histórica. Deus dispõe os acontecimentos históricos segundo a conduta moral do povo escolhido. Em relação á primeira etapa, ha uma aproximação do centro da existência humana, o coração. Isto implica um progresso aproximativo de Deus em relação ao ser humano. Aparece uma nova identidade entre religião e tarefa histórica, relacionada pela noção de aliança. A descoberta central que preside esta experiência é a de que o ser humano é colaborador de Deus, mesmo indireto, num desígnio que se realizara na historia, descoberta que necessitara de purificações. A revelação crista definitiva recapitulara isto tudo em Cristo, a testemunha fiel por excelência, que recapitula a historia com sua encarnação, vida, morte e ressurreição, inaugurando a nova criação e sendo tudo em todos.
Limitações desta etapa: Estamos longe ainda de uma religião verdadeiramente universal, como o Cristianismo. Para nós, é incompatível, com a noção de Deus que temos, esse privilégio exclusivo de um só povo Que não se abra para dimensões mais universais. Alem disso, a experiência histórica quase sempre desmente a concepção providencialista, simplista, de Deus. Quase nunca o justo vence o ímpio com o auxilio de Deus. A relação com Deus é assimétrica. Não constitui, ou não se resume num "toma lá - da cá", como parece confortavelmente crer o israelita dessa segunda etapa. Para superar essa amarga constatação, ha Que se dar mais um passo e aprender a gratuidade na terceira etapa.
remanescentes entre nos: Também ainda percebemos muitos resquícios desta etapa na nossa vida espiritual e eclesial, e na nossa visão do mundo. Podemos encontra-los em:
- Cristãos mais ativos e conquistadores, que fazem do fundamentalismo e do proselitismo sua bandeira e sua forma de ser. A idéia de cruzada -fazendo do cristão o depositario de um desígnio de Deus a ser realizado na historia, eliminando tudo aquilo que faz oposição histórica a isso- não é alheia a essa concepção e pode iluminar o que acabamos de afirmar.
- A divisão do mundo em dois: bons versus maus; amigos versus inimigos, os que estão conosco versus os que não, os que são "dos nossos" versus os que "não o são", com desrespeito a pessoa e a liberdade.
- o uso do nome de Deus para fins puramente políticos e ideológicos, muitas vezes desumanos. o exemplo de terroristas que matam em nome de Ala é significativo. No entanto, não se pode esquecer que os governantes norte-americanos pedem que Deus (qual?) abençoe a América, mas mantêm guerras e vendem armas em varias partes do mundo.
- o fim, sendo bom, é justificado por qualquer meio, ate mesmo de coação e violência. o processo de colonização da América Latina, aliado a religião, tem algo a nos dizer sobre isto, assim como muitas outras manchas que prejudicam nossa historia, como a Inquisição, cujos erros foram recentemente reconhecidos pelo Papa João Paulo II.
- A redução do ser humano e do povo a mero instrumento do plano divino, sendo este colocado, quando não manipulado, nas mãos de alguns lideres. Na historia da Igreja, essa mentalidade justificou a escravização e a tortura em muitas épocas.
- Mais sutil ainda é um remanescente que coloca a justificação do resultado histórico pela moral (merecimento ou desmerecimento). Por exemplo: "Os ricos merecem sua riqueza" (Max Weber). "Que fiz eu para merecer esse castigo?" E também a teologia da prosperidade, tão atual, presente em muitas das seitas pentecostais novas que proliferam incessantemente pelo continente latino-americano.
4.3 Terceira etapa: o Deus transcendente e criador
Textos fundamentais: Is 40 (livro da consolação de Israel); Gn 6,1-8; 11-14; Is 66,23; Ez 21 ,8ss; Sl 1; 37,25, 58, 12ss; 44,14-23; 73,13-16; 17-20; Jó 4.12 ss; 9,22-23; 7,19-21; 38; 39,33-42,1 ss; Ecl 3,16-22.
Situação histórico-bíblica: Anos 550 a.C.: tempo do exílio e restauração (Esdras e Neemias), da redação da fonte sacerdotal (Gênesis, Êxodo, Numero, Levítico), dos profetas exilicos (Dêutero e Trito Isaias, Ezequiel) e dos sábios (Sapienciais, Salmos, Provérbios, Jó, Eclesiastes).
Idéia de Deus: Deus e o criador do céu e da terra. o povo deve fazer essa descoberta a partir da dura experiência do cativeiro. Israel no exílio geme: "Como é possível cantar ao Senhor em terra estrangeira?" E se pergunta: "Javé se teria deixado então vencer pe/os deuses locais? Teria se esquecido de sua aliança?"
O profeta Isaias responde a esse lamento do povo (Is 40,12-17), reavivando-Ihe a esperança: Deus é quem vai resgatar Israel. Deus, que é tão Deus na babilônia como em Jerusalém, e diante do qual os outros deuses nada são, e a verdadeira esperança do povo. O povo não espera em vão, seu Deus o consolara, pois ele criou o mundo do nada. Portanto, tem poder para isso e muito mais.
Deus e transcendente, afirmam os profetas do exílio. Esta acima de tudo e de todos. Não tem que lutar contra nada nem ninguém para provar seu poder, muito menos contra os deuses babilônicos. Todos os povos são, diante dele, nada e vaidade. Deus é único. os deuses dos outros povos não são nem sequer deuses menores. Não são nada. Quem os adora, adora o nada, comete idolatria. Javé nem sequer tem mais ciúmes, pois eles não existem (cf Is 40,18ss, que fala sobre a fragilidade de qualquer imagem).
Experiência de Deus: Se Deus é criador, o ser humano é criatura, pequena e contingente. É carne, objeto da ação criadora, que anseia por ver e verá a gloria de Javé (Is 40.5-8). Toda carne é como a erva, flor que murcha, frágil, incapaz de opor-se ao poder de Javé, que a criou ( Gn 6.11-14 // Gn 6,1-8). Por isso. Deus e o único poder diante do qual, nada resiste. o próprio da criatura (carne) é passar, ser contingente. Ser Incapaz de oporse àquele que a fez e que, portanto, pode amoldá-la como quiser. O próprio de Deus é sua palavra e a eterna permanência.
Esse Deus, portanto, ao se relacionar com o ser humano, mostra sua transcendência, muito alem de qualquer exigência da criatura. Vai manifesta-la por exigência universal. Antes, a exigência de Deus era só para Israel, o povo da aliança. Israel podia exigir de Deus, de acordo com o cumprimento da aliança. Na primeira etapa, Deus exigia as coisas necessárias para o ser humano aproximar-se dele. Agora, as exigências de Javé são de criador para criatura, para toda criatura, original e irrepetível, não mais apenas para o coletivo do povo (Is 66,23). Cada pessoa, portanto, é valorizada.
Atitude religiosa fundamental: A submissão a esse Deus é fundamental. Para o ser humano desta etapa, ou a criatura se submete ao seu criador ou será exterminada. A criatura nada pode exigir ou cobrar de Deus. Para fazer valer isso, Deus se apresenta universalmente como Deus. Deus é o criador de toda a criatura. Manifesta a criatura aquilo que ela é e, fazendo isso, manifesta também, transcendente e gloriosamente, aquilo que ele mesmo é: Deus criador.
Assim, Deus exerce sua justiça sem encontrar oposição. A santidade ou a boa conduta do ser humano não podem competir com sua ação livre e soberana. A criatura não tem justiça própria, diante da qual Deus tenha que deter sua mão. Deus é livre em sua soberana sabedoria e sua bondade para castigar o justo e oi pecador. o ser humano não pode exigir de Deus o cumprimento da aliança (Ez 21 ,8ss), porque ninguém pode se pretender justo diante de Deus. Não ha justo e pecador - existe apenas a criatura. Perceber isso é perceber, por um lado, a infinita santidade de Deus e, por outro, a indigência absoluta da criatura.
O ser humano diante de Javé tem sede e tem temor. Sede porque é pequeno, carente, e precisa de Javé para tudo (SI 63.2: 65,3). Tem temor e tremor porque necessita vital e fundamentalmente de Javé. Treme, porque ele é o transcendente, misterioso, glorioso. Ultrapassa seu entendimento e pode aniquilá-lo. Nesta época, já não se ousa, em Israel, pronunciar o nome de Javé. Substitui-se por Adonai (Senhor). Jura-se pelo templo, para não jurar por Deus. Fala-se em nomes do nome, para não falar diretamente de Deus.
Coloca-se também em questão o problema da a/ianca. Ela continua valida? Com o exílio e a restauração (a volta a terra e a reestruturação legislativa) os judeus perdem os sonhos de grandeza histórica e domínio guerreiro. A religião passa a ser mais uma moral, uma sabedoria, uma atitude do ser humano em vida. A principio, a aliança assume aspecto Individual, mas ainda dentro do mesmo esquema: a atitude moral do ser humano determina o acontecimento histórico (SI 1 .37.25: 58,12). Deus, por sua vez, garante a justiça sobre a terra, confirmando a conduta do justo. Depois, na literatura sapiencial, o ser humano bíblico vai perceber que não se pode afirmar isso com honestidade. Não se pode dizer que o justo ganha sempre, mesmo quando não trai a aliança (SI 44, 14-23: 73, 2-5; 13-16).
Enfatiza-se, então, a absoluta transcendência de Deus, para responder à angustia do ser humano que tem de acreditar nesse Deus, que é vida, mas não impede a desgraça, a morte e a infelicidade, mesmo daqueles que são justos e tementes a lei do Senhor. O ser humano desta etapa vai descobrir que Deus não esta ligado as atitudes humanas. Vai perceber que é preciso rever a segunda etapa e o conceito de aliança. No entanto, não ha ruptura total com a etapa anterior. Na tentativa desesperada de reconstruir a noção de aliança, aparece a noção do sono de Deus (SI 44,24-27). Deus parece dormir, mas despertará e fará justiça. Surge também a idéia do prazo. Deus demora. Mas virá e fará justiça (SI 73,17-20).
Já no livro de Jó, aparece claro que a relação moral-história não existe tão simetricamente como parece estar descrita nos escritos desta etapa. Deus tem desígnios sobre o ser humano, que só ele conhece, e que o ser humano não pode compreender nem alterar. Jó é justo e sofre. Busca desesperadamente um sentido para a sucessão de perdas em que se transformou sua vida. Seus amigos repetem-lhe a doutrina oficial que pretende unir a aliança com o Deus transcendente (Jó 4,12ss). Mas Jó não interrompe o dialogo com Deus, mesmo que às vezes se dirija a ele de forma violenta, agressiva, desesperada, chegando mesmo as fronteiras da blasfêmia.
Na verdade, não ha inocência de que o ser humano possa prevalecer-se diante de Deus. Na terceira etapa Deus a livre para fazer o que quiser do ser humano e da história, independente da conduta humana. Em Jó 9,22-23 está a grande descoberta de Israel, nesta etapa. Essa constatação obriga a buscar algo mais (Jó 7,19-21), para além do que pode ser percebido pelos sentidos humanos. Jó fala da morte como termo da vida, quando ha de executar-se a justiça. Ainda não aparece a esperança para depois da morte, nessa etapa. A justiça deveria estar dentro da vida, mas não chega (Ecl 3,16-22). Qual a solução?
Ela se encontra em Jó 38,1ss; 42,1 ss. Ora, Deus a absolutamente transcendente. O ser humana não pode pretender chegar ao conhecimento de seu mistério, nem encontrar um sentido 1ógico para sua vida. A providencia de Deus não se explica. o ser humano deve calar e adorar, botando a mão na boca. É o que Jó faz, no auge do desespero. Assim, o Deus de sua fé acaba respondendo-lhe misteriosamente.
Significado desta etapa: Ha uma grande evolução em relação às anteriores. A noção de Deus se purifica. Aparece pela primeira vez a concepção de Deus como uma providencia transcendental. E pode-se perceber uma noção de revelação progressiva de Deus em ritmo dialético. Se na primeira etapa ha um afastamento da concepção do Deus terrível, na segunda se percebe uma aproximação: o Deus da aliança é providencia, moral que interpela o coração humano. Já na terceira etapa ha um novo afastamento (pedagógico), a fim de chamar a atenção para o abismo intransponível entre o criador e a criatura, para obrigar a criatura a dar um passo mais na experiência religiosa e viver a gratuidade em sua relação com Deus.
Trata-se de uma religião muito pura. o ser humano adora o mistério de Deus, entrega-se gratuitamente a sua providencia. Por outro lado, Deus se relaciona universalmente com toda criatura, não mais só com o povo escolhido. A vocação de Israel estende-se ao Universo inteiro.
O primeiro capitulo do Gênesis - texto fundamental para a compreensão desta etapa da revelação divina - apresenta uma visão fundamental de Deus, do ser humano e do cosmos (mundo). Deus a o criador do Universo.
Só porque criou o Universo é que, dentro deste Universo, escolheu um povo. o suporte da aliança é, portanto, ontológico. Tem seu fundamento na criação do Universo. Não se restringe a um único povo particular. A eleição não significa monopólio do povo eleito. Os últimos profetas já mostram, então, a aliança abrindo-se para todos os povos, ligada a própria criação Js 54; 60; 62 e Tb. 19,16-25).
Quanto ao mundo, percebe-se nesta etapa uma unidade do plano de Deus, como será lembrado pelos escritores do Novo Testamento (Jo 1; CI 1,15-20; Ef 1,17-22). o ser humano recebe de Deus a missão de dominar o mundo. Ora, esse mundo é em si mesmo dessacralizado. Existe uma profanidade fundamental de tudo que não é Deus, portanto das coisas em geral. Ha porem uma ligação das coisas a Deus em sua raiz ontológica. o acabamento do mundo e deixado a cargo do ser humano para ele ai realizar a imagem de Deus, que é sua vocação.
Os elementos principais desta etapa são:
- Transcendência e universalidade de Deus.
- Esboço de afirmação da profanidade das coisas.
- Papel do ser humano no cosmos, cultual e histórico.
A revelação crista retém e desenvolve a teologia que vê o ser humano como criatura frágil e dependente, mas, ao mesmo tempo, como colaborador de um Deus "maior que o nosso próprio coração" (1 Jo 3,20), com um projeto de dimensões universais.
Limitações dessa etapa: Apesar de todos os avanços que traz para a concepção de Deus e a experiência religiosa, essa etapa apresenta tambem alguns limites bem claros e evidentes:
- Uma passividade excessiva, que pode levar o ser humano mais consciente a se libertar do religioso e par o melhor de si na missão histórica, na profanidade das coisas.
- Um individualismo que pode levar o ser humano a partir-se esquizofrenicamente em duas dimensões: vertical (religiosa) e horizontal (histórica).
Remanescentes entre nós: Como resquícios deixados por esta concepção, ainda em nossos dias, podemos constatar:
- Um tipo de espiritualidade que e bem evidente em nosso Cristianismo: espiritualidade calcada na fragilidade humana, estimulando uma passividade e mesmo um fatalismo.
- Uma desconfiança de todo empreendimento histórico humano que reivindica para si uma missão divina.
- Uma separação estanque entre o histórico (profano), regido pelas leis da técnica, previsível, sagrado (vertical), imprevisível, que exige confiança cega. Trata-se de um caminho perigoso, que pode desembocar no dualismo. Dentro desta concepção, a religião não tem nada a ver com as estruturas sociais, as leis econômicas etc. A vida moral se da somente no nível do privado, com os sacramentos, as devoções.
As conseqüências disso são:
- O risco de um protestantismo tradicional e um catolicismo que vêem, nas diferenças entre pobres e ricos, a vontade de Deus.
- O único mal verdadeiro seria o pecado moral, sem a devida percepção dos pecados sociais.
- Um reforço na piedade individual, em detrimento de uma liturgia e vida eclesial mais comunitárias.
- A vida cotidiana seria concebida como uma aceitação da vontade de Deus expressa em acontecimentos e sinais verti cais e inesperados, e alem disso, ambíguos.
4.4. Quarta etapa: O salto alem da morte - O desafio do Deus justo
Textos fundamentais: Sb 1,13-14; 12;15; 16; 2,1-11; 12-20; 3.1-5; 5,1-5;
6ss; SI 115,17; 88.
Situação historico-bíblica: Anos 177-175 a.C., com o domínio do imperador grego Alexandre o Grande. Trata-se da situação que Jesus irá encontrar. A religiosidade de Israel se depara-se com a cultura e a filosofia helênica. Esta síntese será o pano de fundo da transição do Antigo para o Novo testamento.
Idéia de Deus: Deus é o criador daquilo que é bom. A criação é boa (Sb 1,13-14). Deus não cria para a morte, mas para a vida. O mal é o ser humano que provoca, usando inadequadamente as coisas (Sb 1.12). o pecado é um extravio, amartia, engano.
Experiência de Deus: O ser humano vive numa alternativa de liberdade, na qual aposta sua vida:
1. Tem a possibilidade de escolher acreditar que a morte acaba com a existência. Nesse sentido, torna-se óbvio que, se tudo termina com a morte, o melhor a fazer é sorver e aproveitar todas as delicias da vida, seja a que preço for.
2. Tem a possibilidade (que desponta aí) de acreditar que a justiça sobreviva à morte. Esta é a esperança do justo (Jó). O justo espera que a justiça sobreviva à morte. O mal e o sofrimento são, por isso, uma prova. O ímpio continua pensando que a justiça esta submetida à morte. Quer gozar dos prazeres da vida. Usa para isso da forca e oprime o justo. A morte é o centro da aposta fundamental do ser humano.
O ímpio aposta que a morte é o fim de tudo, goza de tudo e oprime o justo Sb 2.1-11; 12-20). O justo reserva-se para uma existência que ha de vir.Isso, porem, é uma critica constante ao ímpio (Sb 1,15 = cerne da esperança do justo).
Atitude religiosa fundamental: Esperar a justiça na imortalidade. Crer que Deus faz justiça além do prazo da existência humana (Sb 3.1-5 . O mal presente é uma prova.
O resultado da aposta será que:
1. Os justos viverão eternamente com aquele que escolheram (Sb 5,1-5).
2. Os ímpios serão castigados pelo erro de sua aposta (Sb 5,6ss). No juízo, O ímpio obtém o que buscou, ou seja, o vazio daquilo que possuiu em vida e que a morte lhe arrebatou, enquanto o justo convive com seu Deus para além dos limites da existência terrena.
Significado desta etapa: Deus é o principio da justiça ultraterrena. O movimento dialético impõe uma nova aproximação de Deus e do ser humano, em termos de um pacto radical. Deus é justo e busca a justiça, exigindo uma santidade moral. O justo, que anda por este caminho, esta perto de Deus. Pela primeira vez é afirmado o triunfo da vida sobre a morte. A ânsia da vida em plenitude se realiza no relacionamento do ser humano com Deus.
A quarta etapa a purificação da segunda. Constitui uma aproximação radical de Deus, já inaugurada com a noção de aliança, conservando tudo que é descoberto na terceira etapa em termos da transcendência e da gratuidade de Deus, mas deixando claro que a aliança que Deus faz com a humanidade não conhece limites, nem mesmo na morte. O Deus justo é também o criador de todas as coisas. E ele cria o ser humano para a vida que não termina. Deus nesta etapa se aproxima cada vez mais da liberdade pessoal do ser humano enquanto centro vital. O mal não é mais um obstáculo insuperável. Deus, na sua justiça, mostra seu rosto mesmo além da morte.
Com estas etapas de sua revelação, Deus foi preparando e amadurecendo pedagogicamente o ser humano para receber o Cristianismo. Este último segmento é, de fato, o pano de fundo da pregação de Cristo e seus apóstolos.
Limitações desta etapa: São muito parecidas com as do Cristianismo vivido em nossas latitudes ainda hoje em dia:
- Uma atitude de passividade diante do provisório desta vida, vista como tempo de prova, esperando que o resto aconteça depois da morte.
- Uma concepção da vida como destino, mais fatalista do que crista.
Remanescentes entre nos: Existem, ainda, e são muito freqüentes:
- A existência presente é vista como provação. Tudo, menos os valores eternos, é provisório e de pouco valor.
- A liberdade humana não é criadora. A liberdade é risco no sentido negativo do termo. o ser humano pode errar definitivamente o caminho. Portanto, quanto menos liberdade tiver, melhor. Como exemplos, podemos citar a formação para o sacerdócio e a vida religiosa, e a formação da criança presa em padrões morais estritos.
- Ha uma inibição resignada do ser humano durante a vida. o ser humano religioso se torna vitima diante do ateu sem escrúpulos, especialista em êxitos.
5. RETOMADA E RELEITURA CRISTA DAS QUATRO ETAPAS
A concepção crista retém e transforma o que essas etapas trouxeram:
Primeira etapa: Deus, o absoluto, é amor. E esse absoluto não existe fora da historia. A encarnação do Filho de Deus demonstra isto.
Segunda etapa: O Deus da aliança é o Deus do Reino. Somos colaboradores de Deus num grande desígnio histórico. Somos o novo povo de Deus, o povo da nova e eterna aliança.
Terceira etapa: O plano de Deus é universal como o próprio Deus. Não é uma domesticidade, um domínio, um privilegio estreito de um só povo ou de um pequeno grupo de escolhidos, mas, sim, uma busca comum da verdade que transforma o mundo.
Quarta etapa: A ligação prova-liberdade é superada pela noção de liberdade-construção de um mundo novo. A justiça de Deus sobre o sofrimento do inocente encontra sua expressão definitiva na ressurreição, que vem a ser a palavra interpretativa do Pai ao confirmar o caminho de Jesus Cristo.
Vemos, assim -a partir desta ultima leitura sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento-, que já encontramos, ai, sinais do Deus que Jesus Cristo irá nos revelar em plenitude. Embora sabendo que o Antigo Testamento descobre e adora o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, cremos poder afirmar, sem medo, que esse Deus é justamente o Abbá de Jesus Cristo, o criador, o amor supremo de sua vida, que ele nos ensinou a chamar de Pai Nosso.
De qualquer forma, o rigor teológico nos obriga a não forçar os textos bíblicos, a não faze-los dizer "coisas bonitas", que nos agradam. Na verdade, essas conclusões comparativas entre o Antigo e o Novo Testamento não se encontram nem podem encontrar-se no contexto vital onde tais textos foram escritos. Muito menos na intencionalidade de seus autores, que pertencem a urna época e um contexto histórico -vital anterior aquele no qual nasceu Jesus de Nazaré, e no qual se conceberam os escritos do Novo Testamento.
6. DEUS NO NOVO TESTAMENTO: UMA ETAPA A MAIS OU A PLENITUDE DA REVELAÇAO?
Ao nos defrontarmos com a revelação de Deus no Novo Testamento, nos perguntamos: trata-se de uma etapa a mais ou da plenitude da revelação? Como cristãos, só podemos crer e proclamar a segunda hipótese.
A maior diferença entre Antigo Testamento e o Novo é a questão e a idéia da morte, o modo como dela se fala. No Novo Testamento, ha uma grande importância dada as mortes violentas e ao martírio (João Batista, Jesus, Estevão). No Antigo Testamento, por outro lado, as mortes dos patriarcas (Abraão, Moises) não são tão importantes ou paradigmáticas, a ponto de sequer se insistir em sua narração e proposição como referencia para a vida dos seres humanos. A vida do ser humano se da nos limites do terrestre e sua chance de imortalidade esta na prole, nos filhos, que vão continuar esta vida. Mais tarde, começa a surgir nos livros mais tardios do Antigo Testamento a concepção de uma justiça divina que sobrevive a morte[5].
A novidade de fundo, então, é a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a partir das quais a primeira comunidade reconheceu naquele homem, Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro, o Filho de Deus e Deus mesmo. Jesus Cristo, morrendo e ressuscitando, deu um novo sentido a morte e, conseqüentemente, à vida. Trata-se, porem, de um sentido que só Deus -Senhor da vida e da morta- poderia dar. Eis porque as testemunhas da primeira hora reconhecem que o que aconteceu com ele muda toda a historia da humanidade e da um novo horizonte a vida humana. Alem de acrescentar um traço novo e absolutamente original ao perfil do próprio Deus que eles ate então conheciam e adoravam.
Ora, para o judeu, aceitar Jesus Cristo implica negar o monoteísmo. E incompatível com a fé monoteísta, tal como o Judaísmo a concebe, existir um ser humano que faça as obras de Deus e, mais ainda, que seja de natureza divina. Porem, para nos cristãos, a pergunta e sua impostação são diferentes. Suposta a fé em Jesus Cristo, nos perguntamos: de que maneira a cristologia pode fornecer ou possibilitar uma experiência de Deus? O cristocentrismo do Novo Testamento implica uma redução da fé no Deus do Antigo Testamento? Ou, pelo contrario, é sua realização e radicalização? Olhar para Jesus Cristo distrai do olhar para Deus? Ou o focaliza ainda mais?
Diante destas perguntas, é precise olhar para a pessoa de Jesus de Nazaré e ver que ele não propõe uma doutrina organizada sobre Deus. Não demonstra Deus de forma sistemática. Diferentemente, o Filho procede como um profeta, tal como os outros profetas de Israel. Insere-se na tradição de seus ouvintes e age invocando e comprometendo o Deus de Israel em sua subversiva pratica. O escândalo no Novo Testamento sobre Jesus não é tanto o fato de que o mesmo se proclame Filho de Deus, ate porque, segundo as recentes descobertas da exegese e da ciência bíblica, parece ser pacifico que ele o faz bem raramente e os textos em que isso acontece tem boas chances de não poderem ser remontados direta ou proximamente ao Jesus histórico. No entanto, sua ação, respaldada por suas palavras, mostra um Deus diferente do Deus dos fariseus, dos escribas e dos saduceus. É essa diferença que foi reconhecida por seus contemporâneos em sua pessoa e foi, definitivamente, ligada a Deus.
Para o povo de Israel e dentro do conjunto de sua fé, Deus é conhecido e amado pelo papel que representa no mundo e nos negócios humanos. Esse papel revelado pelo Deus de Israel sempre foi libertador. Israel tinha plena convicção de que tinha sido o seu Deus que o havia libertado do cativeiro do Egito, lhe havia dado uma terra, que desejava sua vivencia plena da liberdade concedida como dom. Ora, se o que se dava diante de seus olhos e ouvidos era o fato de que o Deus proclamado pelos chefes religiosos não libertava, então este não era o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Era, sim, um ídolo mudo, falso e enganador.
Então, conclui-se que a originalidade de Jesus não é tanto definir Deus como Pai, mas invocar Deus como Pai num papel subversivo e libertador, e mais: fazer isso dizendo agir segundo o espírito de Deus. Na invocação que Jesus faz do Pai sobre a base de uma ação subversiva -e na submissão ao Espírito como fonte de energia transformadora que move a esta ação-, esta o germe de uma nova doutrina sobre Deus.
A relação disso com o Antigo Testamento torna este uma herança contraditória. Na relação da Igreja primitiva com o Antigo Testamento esta a preocupação de fazer a ligação da experiência de Deus do Antigo Testamento com a novidade radical trazida por Jesus. Isso da lugar a uma dupla interpretação.
Primeira hipótese: o Antigo Testamento seria uma constituição definitiva da doutrina sobre Deus, algo fechado. Jesus não acrescentaria nada ao Antigo Testamento, não revelaria outra coisa dentro do que já esta revelado nele. Faz sua, simplesmente, a doutrina do Antigo Testamento. Mas como entender a oposição e uma tensão entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus de Jesus? Ai esta a tradicional oposição entre um suposto Deus vingador e juiz do Antigo Testamento e o Deus amor do Novo Testamento, oposição esta que desorienta e leva nossos contemporâneos a tantos equívocos. Segundo esta hipótese, Jesus seria a vítima propiciatória que não inovaria nada, mas viria apenas restaurar e reconciliar.
O limite desta interpretação seria ler o Novo Testamento a partir do Antigo, ressaltando a dificuldade que a Igreja teria em assumir todas as implicações e novidades do agir de Jesus e a impossibilidade de entender a morte de Jesus como acesso positivo a Deus.
Segunda hipótese: O Antigo Testamento não seria a doutrina sobre Deus, mas a narrativa das suas ações em favor do povo. Por elas, Israel nomeia e invoca Deus, mas elas não o esgotam. Permanece a soberania e a liberdade de Deus. Entre as múltiplas descrições das ações de Deus, uma se impõe: a mais concreta, a mais humana, a mais integral, que é precisamente a própria pessoa e obra de Jesus.
Essa interpretação situa o Antigo Testamento como o relato de uma relação onde Deus e o ser humano são parceiros, relação essa transformada incessantemente por novas situações. Há uma descrição das constantes do comportamento de Deus e das respostas do povo. Há o relato de uma aventura amorosa -eleição de um povo, compromisso histórico- de Deus com o povo.
Jesus se inscreve nessa perspectiva, ao mesmo tempo fiel, inovador e original. Sendo assim, o Antigo Testamento não julga mais Jesus. Ele não pode ser inscrito num quadro de referencia preestabelecido, mas a ação de Jesus dá perspectiva para as ações precedentes, pois ele reúne ação e invocação. A ação de Deus não esta acabada, mas aberta sobre Jesus, o Espírito e o Reino.
Desta forma, não há mais oposição entre o Antigo Testamento e o Novo. Ambos fazem parte de um movimento único, cuja origem e fim nos escapam. Jesus se encontra ai, figura humana acessível e central, ao mesmo tempo que figura divina. Ele não é somente uma revelação a mais, mas o próprio Deus revelado.
Resumindo
Nosso Deus não é o Deus dos teísmos, nem o Deus geral que se apresenta como um ser transcendente sem rosto próprio. Mas é o Deus que se revelou ao povo de Israel, a primeira comunidade crista e a nós hoje.
O texto bíblico é a mediação primeira onde podemos encontrar Deus, pois o Deus Cristão é o Deus da Bíblia. A Bíblia é a terra natal do Deus da fé crista, que a teologia deve pensar sistematicamente, com a razão.
Sem racionalismos nem fundamentalismos, devemos, pois procurar os traços da revelação de Deus em primeiro lugar na Escritura, que é Palavra, Tradição e livro da Comunidade.
A Bíblia será, então, uma revelação progressiva do agir e do ser de Deus, que se apresenta com paradoxos radicais, ou seja, com atributos que parecem inconciliáveis, mas que na verdade vão compondo progressivamente uma síntese única, a qual vai fazer com que o povo de Deus o reconheça como único e não manipulável. Ainda mais importante: o reconheça como seu Deus, como o Deus que o escolhe e o converte de povo cativo e escravo em povo eleito, sendo que também Deus foi escolhido pelo povo.
No Antigo Testamento, não ha uma só teologia sobre Deus, mas muitas. O fio condutor entre todas elas, no entanto, é que Deus é um Deus pessoal e único, que propõe uma aliança de amor ao seu povo. Embora no Antigo Testamento não se possa identificar uma revelação trinitária de Deus, encontra-se, sim, uma pedagogia progressiva que vai fazendo o povo perceber cada vez mais elementos da identidade de seu Deus e preparar-se para receber sua revelação definitiva.
Para identificar estas etapas, poderíamos -recorrendo à tipologia do teólogo Juan Luis Segundo chamá-las de: 1) O Deus terrível; 2) O Deus da Aliança; 3) O Deus Transcendente e Criador; 4) O Deus justo para alem dos limites da vida e da morte.
O Novo Testamento não será uma etapa a mais, mas uma síntese de tudo isso, pois vai trazer no seu centro a pessoa de Jesus de Nazaré. Embora se inserindo na tradição do Antigo Testamento, Jesus revelará uma novidade radical a respeito de Deus.
[1] Catecismo da Igreja Católica n. 234.
[2] Para uma boa síntese das atuais patologias trinitárias, que concentram a fé em Deus em uma ou duas das pessoas divinas e não no mistério total do Deus Uno e Trino, ver: L Boff, A Trindade e a sociedade, Petrópolis, Vozes, 1987, pp. 26-28; F.A. Pastor, Semântica do mistério, São Paulo/Rio de Janeiro, Loyola/Puc-RJ, 1982, pp. 99.
[3] Sobre esses teoremas paradoxais do Deus da revelação, ver o excelente livro de F.A. Pastor, A lógica do inefável, São Paulo, Loyola, 1989.
[4] Cf U. Vazquez Moro, O mistério de Deus e os limites do conhecimento, em Cadernos Magis de fé e cultura n. 20.
[5] É o caso do Livro da Sabedoria, surgido já em plena influencia helenística, por nós anteriormente comentado, na quarta etapa da revelação de Deus no Antigo Testamento.
Toda religião tem em seu centro a fé, a crença em Deus. Com a nossa fé cristã não é diferente. Somos cristãos, e no centro desta identidade está a nossa crença em Deus. Os contornos do perfil desse Deus em quem cremos são fundamentais para entendermos em que consiste a proposta de nossa fé e situar o que ela tem de diferente em relação a outras religiões.
Tal como dissemos, todas as religiões têm em comum a crença em Deus. A Palavra Deus, portanto, não é privilégio do Cristianismo. Ao verificarmos o Aurélio, dicionário da língua portuguesa, vamos encontrar diversas definições da palavra Deus que comprovam o que acabamos de dizer.
Deus, em português, vem do latim deus e tem cinco significados:
1. Princípio supremo considerado pelas religiões como superior à natureza. 2. Ser infinito, perfeito, criador do Universo. 3. Nas religiões politeístas, divindade de personificação masculina, superior aos homens, e à qual se atribui influencia especial, benéfica ou maléfica, nos destinos do universo. 4. objeto de um culto ou de um desejo ardente, que se antepõe a todos os demais desejos ou afetos. 5. Principio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais.
Porém, esta definição do dicionário não é suficiente para conhecermos ao Deus que nossa fé adora e que proclamamos em nosso batismo como o centro da vida cristã. Somos pessoas que crêem em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Nosso Deus tem nome e rosto e nos convida a conhecê-lo, e a cremos na intimidade com seu mistério.
1.1. A indizível aventura de conhecer a Deus
Iniciamos, portanto, uma indizível aventura: a de um encontro em maior profundidade com Deus, a da tentativa de um conhecimento mais intimo de Deus o Deus da nossa fé, aquele em quem cremos e que é o sentido de nossas vidas. Sendo – como somos – cristãos, só podemos fazer isto através de Jesus Cristo, que proclamamos ser o Filho de Deus, e a partir daquilo que ele mesmo nos contou sobre Deus. Além disso, temos nossa própria experiência de Deus que a Igreja nos ensina a ler e interpretar. É através destes parâmetros, por conseguinte, que vamos aventurar-nos pelos altos e profundos mares da reflexão teológica sobre o mistério da Santíssima Trindade.
O povo de Israel e as primeiras comunidades cristãs serão nossos companheiros de jornada. Eles tiveram a preocupação de registrar sua experiência de Deus e a ação desse Deus na historia e nos atos humanos, colocando tudo por escrito. Ao caminhar pela vida, eles percebem que não estão sozinhos. Existe um Deus que caminha com eles, que se revela aos patriarcas, aos profetas, aos sábios e que, no Novo Testamento, vai se revelar em e através de Jesus Cristo, em quem as comunidades vão reconhecer o Senhor e o Filho de Deus. O itinerário destes homens e mulheres será paradigmático para nós, que vamos tentar acompanhar o fio da revelação de Deus ao seu povo, na Antiga e na Nova Aliança.
No entanto, antes de entrar propriamente no exame dos textos bíblicos, vamos deter-nos na escuta de uma série de perguntas que certamente todos sentimos ressoar dentro de nós, ou pelo menos já ouvimos da boca de outras pessoas, tais como: Quem é Deus? Onde ele Está? Como fala aos homens? Ou então, examinemos certas afirmações sobre a fé em Deus, tais como: eu creio em Deus, mas não no Deus das religiões. Ou ainda: Eu sou cristão, mas para mim não faz diferença que em Deus existam três pessoas, ou uma, ou 20. Também há quem diga: A Trindade é um mistério que nem Santo Agostinho entendeu. Portanto, quem somos nós para tentar entender?
Tentaremos ajudar a refletir e aprofundar seriamente todas estas perguntas e outras que surjam no meio do caminho. Mas não pretendemos fazê-lo dando uma série de conteúdos teóricos a serem aprendidos de cor. Nosso objetivo é proporcionar um encontro profundo e real com esse Deus que se revela e fala sobre si mesmo, sobre cada homem e mulher, sobre o modo de buscar e viver a verdadeira felicidade, sobre a vida, sobre o mundo. Mais ainda: o que se pretende é procurar compreender o que o povo do antigo Testamento ouviu e falou sobre Deus. E depois, o que Jesus ouviu e falou sobre Deus. E depois, ainda, o que aqueles que convivem com Jesus ouviram e falaram sobre ele e sobre o Deus que Jesus lhes mostrou...
...Nossa proposta é estudar e refletir sobre o mistério de Deus, para depois poder falar ordenada e sistematicamente sobre ele, procurando colocar como pressupostos ao nosso estudo alguns objetivos específicos.
Logo de inicio, é preciso colocar-nos as questões que precedem qualquer reflexão sobre Deus: como, com que direito, nos propomos a falar de Deus? A tentativa de falar de Deus é possível? Isto é possível hoje? A resposta do catecismo tradicional nos diz que “Deus é um puro espírito, perfeitissimo, eterno, criador do céu e da terra”. Por sua vez o novo catecismo da Igreja Católica define a santíssima Trindade como mistério central da fé, com as seguintes palavras:
“O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na hierarquia das verdades de fé. Toda a historia da salvação não é senão a historia da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro não é senão a historia da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo, se revela, reconcilia consigo e une a si os seres humanos que se afastam do pecado[1].
No entanto, para o homem e a mulher modernos – sobretudo para aqueles e aquelas que talvez estejam afastados da prática eclesial, mas não perderam sua fé em Deus -, precisamos encontrar palavras novas e inteligíveis para dizer esta mesma verdade que está no coração da nossa vida: Cremos em Deus uno e trino. Cremos em um Deus que é único e que se revela Pai, Filho e Espírito Santo.
1.2. O discurso Trinitário sobre Deus
Deus é Pai, Filho e Espírito santo. É isso que o Credo, símbolo da nossa fé diz. Esta oração, que recitamos todos os domingos na celebração eucarística, nos fala fundamentalmente três coisas:
Creio no Pai,
Creio no Filho,
Creio no Espírito Santo.
Estes constituem, então, os três artigos fundamentais da nossa fé. Partindo, pois, desses três artigos, vamos percebendo como se encaminha o processo de acontecimento da teologia.
1) Deus é Pai. Assim afirma o Novo Testamento. Com isso queremos dizer, em primeiro lugar, que cremos num só Deus, que é transcendência, superioridade, fonte oculta, manancial inacessível, origem sem origem, mistério fontal do qual tudo provem e ao qual tudo retorna. Dizer que Deus é Pai, é dizer que Deus é a fonte da vida. É aquela realidade que não vemos nem entendemos, mas sentimos que nos abarca, nos abraça, nos cria, nos faz, nos mantêm vivos a cada minuto da nossa existência. Ele é nosso escudo, segurança, amparo, rochedo, fortaleza, libertação, força, rocha, refúgio, baluarte (Sl 18/17,3). As palavras são insuficientes para expressar sua grandeza e sua proximidade.
Porém, se lemos o Antigo Testamento, o conteúdo Deus é Pai se encontra manifestado e percebido de maneira ainda parca e fragmentária. Há uma distancia bem grande entre Deus e a criatura, de maneira que o ser humano do antigo Testamento não se ateve muito a dar esse nome familiar de Pai ao Deus que ele prefere chamar de outras maneiras: Senhor, Forte Guerreiro... Se não denomina Pai a esse Deus, muito menos se atreve a pensar organizadamente sobre ele, e menos ainda com o auxilio de outras ciências que não são sagradas.
Ora, é exatamente isto que faz a teologia: pensar a revelação de Deus organizadamente, com o auxilio de outras ciências – a filosofia, a historia, a lingüística, a sociologia, etc. Portanto, olhando para esta revelação somente no Antigo Testamento, do jeito que a conhecemos, a teologia cristã tal como nós a entendemos seria impossível. Não existe um passo ou uma passagem adequada que possa transpor a distancia hermenêutica, interpretativa, entre o Deus de Israel e a tentativa humana de pensar e falar articulada e adequadamente sobre seu mistério, chamando-o de Pai.
Já no Cristianismo, isso acontece e nós chamamos Deus de Pai, embora reconheçamos também o Antigo Testamento como fonte da revelação para nós. Deus é chamado de Pai – por nós, pela Igreja inteira, por milhares de homens e mulheres que todos os dias levantam as mãos e os olhos para o céu, e dizem: “Pai Nosso...” Parece, então, que necessitamos dar um passo além da experiência do povo de Israel e do Antigo Testamento, pois o Novo Testamento nos abre uma nova dimensão.
Esse passo nos é oferecido em Jesus Cristo. Ele diz no Evangelho segundo Mateus: “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). Portanto, para conhecer que Deus é Pai e chamar Deus de Pai, é preciso conhecer ao Filho. Uma religião que fosse só Pai – ou seja, que tentasse chamar de Pai apenas o Ser Supremo experimentado com fascínio, mas também com medo pelo ser humano primitivo – poderia correr o risco de ser patriarcal e verticalista. Em outras palavras, centralizadora. Poderia correr o risco de ser uma religião da norma e encontraria sua correspondência numa sociedade patriarcal. E mais: não encontraria correspondência numa teologia possível. A teologia só é possível porque Deus é Filho.[2]
2) Deus é Filho. O conteúdo Deus é Pai foi manifestado no e pelo Filho. E no Filho, Deus – o Transcendente, o Diferenciado, o Inatingível, aquele a quem ninguém podia ver e continuar vivo – se torna um de nós, ganha corpo, em carne e osso, como nós. Torna-se humano conosco e como nós, em tudo igual a nós, menos no pecado (Hb 4,15) e, exatamente por isso, verdadeiramente humano. Disso a razão não pode dar conta, é algo que só pode ser aceito na fé.
Essa fé, portanto, representa e implica:
- O acolhimento do fato histórico Jesus de Nazaré
- A aceitação de que neste homem histórico se deu a manifestação total e definitiva de Deus.
- A convicção de que Deus constitui Senhor e Cristo a esse Jesus, que foi morto pelos seres humanos. Jesus Cristo não é, portanto, mais uma revelação de Deus, mas é o próprio Deus revelado. É isto que nossa fé proclama.
Porém, 20 séculos nos separam do Jesus histórico. Mas então, após dois mil anos, Jesus Cristo não correria o risco de se tornar um fato a mais, perdido na noite dos tempos? Não correria o risco de tornar-se mais um personagem histórico entre tantos, como, por exemplo, Napoleão ou Dom Pedro II? Não correria o risco, até, de tornar-se mais distante que todos estes, uma vez que viveu antes deles, quando não havia escrita fácil e usual para registrar suas palavras, nem maneira de grava-las? Ou quando seus seguidores não conseguiam registrar por escrito o que ele fazia e dizia no mesmo momento em que falava e agia? Como é possível, com essa distância, conhecer a Jesus, imita-lo, segui-lo e, mais ainda, pensar e falar, fazer teologia sobre ele? Com tanto tempo transcorrido entre nós e ele, seria impossível saber com exatidão o que Jesus disse, o que fez, quem foi ele, seria impossível imitar Jesus, seguir Jesus, falar teologicamente sobre Jesus.
Querer fazer isso, sem uma passagem que o atualizasse para nossa fé, seria encarar Jesus apenas como um líder ou militante (o companheiro, o chefão daquela época). Seria assumir suas atitudes heróicas ou humanitárias, desvinculadas do conflito humano e de uma relação profunda com o Transcendente (Deus – Pai). Se assim fosse, a relação entre os nós e ele permaneceria só no sentido horizontal, e a teologia seria impossível. A religião do líder (o Jesus histórico comandando seus discípulos) é tão deformadora da fé quanto a religião do Pai (em que Deus está distante, é exterior ao ser humano). A diferença entre essas duas religiões está no fato de que a primeira é horizontalizante (só olha em torno de nós), no entanto, é necessário olhar horizontal e verticalmente para se chegar à Trindade cristã.
Qual é a chance que resta, então, para a teologia falar trinitariamente do Deus em quem crê? Basicamente, propor uma terceira via da revelação desse Deus, essa terceira via existe, e é o Espírito Santo.
3) Deus é Espírito Santo. Deus concede seu Espírito. A teologia cristã só é possível a partir do Espírito Santo. O Filho só revela o Pai na glorificação, pelo Espírito. E a comunidade cristã só reconhece e proclama o homem Jesus como Filho de Deus após a Ressurreição, pelo Espírito. Em sua morte e sua ressurreição, Jesus doa seu Espírito a quem nele crer.
Porém, esse Espírito sozinho levaria a uma experiência de Deus puramente carismática, intimista, interiorizante. Seria uma religião da anarquia, sem a dimensão horizontal nem a vertical, conduzindo ao individualismo, à alienação, ao carismatismo delirante e a um subjetivismo a toda prova, tornando, assim, a teologia impossível. Mas, o que a revelação nos diz é que esse Espírito é Espírito do Pai e do Filho, e se torna Espírito no ser humano. Faz do ser humano seu templo, inspira-o, cristifica-o, diviniza-o, configura-o ao Filho e o faz filho ele também, possibilitando-lhe então chamar Deus de Pai, como Jesus chamava.
A fé que é gerada pela in-habitação – habitação dentro de cada homem e cada mulher que crê em Jesus Cristo e no Pai – desse Espírito em nós, pode, então, nos ajudar a entrar numa comunhão com Deus, habitando em nós, é que nos vai dando essa possibilidade. A fé cristã gerada pelo Espírito de Deus, que é Espírito de Cristo, nos permite:
- Crer no passado de Jesus Cristo como nosso presente e nosso futuro (Hb 11,1). O que aconteceu com ele é o que acontece conosco. E nada nos acontecerá que não passe pelo que já aconteceu com ele.
- Converter nossa práxis: fazer as obras de Deus (Jo 3,21. 6,28. 7,17). Se é o Espírito do próprio Deus que está em nós, e se nos deixamos mover e guiar por ele, tudo que fizermos será obra dele em nós e estaremos espalhando pelo mundo as marcas do próprio Deus que age através de nós.
- Falar teologicamente de Deus pelo Espírito que diz e ensina a dizer: “Abbá, Pai!” (Rm 8,15; Gl 4,6) e “Jesus é o Senhor!” (1Cor 12,3). É o Espírito santo quem nos leva à experiência e ao conhecimento de Deus-Pai e de Deus-Filho. Nele podemos refletir sobre essa experiência de chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor, e transmiti-la aos outros de maneira coerente e inteligível.
Portanto, em Jesus Cristo e pelo Espírito, o caminho para Deus Novo e Vivo! É a própria humanidade do ser humano (Hb 10,20). Caiu o véu que, no templo, separava o ser humano do acesso à presença de Deus. Agora, seja ele judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher (Gl 3,28), pode aproximar-se de Deus e falar sobre ele. O Espírito foi derramado e a teologia é possível. O teólogo original é o Espírito Santo, que está em nós, nas comunidades, no povo, no mundo, na história.
A partir disso que vimos, a teologia tem condições de falar sobre o Deus em quem crê. Essas condições lhe são dadas pelo próprio Deus. Então, a missão do teólogo é:
- Pensar e falar segundo o Espírito (ou seja, segundo Deus).
- Prestar atenção à teologia que o Espírito Santo de Deus está realizando no povo, nas comunidades.
Só uma teologia (um discurso sobre Deus) possibilitada pelo próprio Deus corrige as patologias e as deformações:
- Da opressão da norma (uma religião verticalista, só do Pai).
- Da dominação dos lideres (uma religião horizontalista, só do Filho).
- Da anarquia e da insensatez dos “espíritos carismáticos” (uma religião intimista, só do Espírito Santo).
O Deus da revelação, a Santíssima Trindade, portanto, é o mistério da comunidade das pessoas divinas, mistério de fé, de salvação, de comunhão e de amor. Não é e não pode ser mistério lógico racional, porque justamente funda uma lógica nova: a lógica da gratuidade, do amor, do dom. uma lógica que está além da razão e que, precisamente por isso, dá o fundamento para toda a razão humana.
Fazer essa experiência do Deus Trindade nos faz perceber algumas coisas muito importantes e centrais para nossa vida de fé:
- Deus é total e totalizante. Não estamos só diante dele, mas também ao lado dele, e nele. Tudo fala dele, remete a ele, leva a ele. Ele é Deus além e acima de nós, maior do que nós (o Pai). Ele é o Deus conosco, entre nós, um de nós (o Filho). Ele é Deus em nós, dentro de nós, mais intimo a nós que nós a nós mesmos (o Espírito Santo).
- Nosso encontro com Deus é um acontecimento radical. Só podemos nos relacionar, pensar e falar sobre ele, deixando-nos surpreender e questionar radicalmente por ele.
- Deus é transcendente. Sempre maior, anterior a nós e nos ultrapassando eternamente. É e permanece para além de todas as nossas possibilidades de conhecimento e discurso.
E, mesmo assim, podemos afirmar que é possível conhecer a esse Deus, porque ele mesmo se dá a conhecer. Mas o verdadeiro conhecimento de Deus só é possível na abertura da acolhida humilde, na fé, na escuta acolhedora da revelação, onde ele mesmo se aproxima e abre seu Mistério de Pai, Filho e Espírito Santo. E o faz numa prática transformadora e comprometida na historia que procura realizar a vontade e o projeto de Deus para o mundo e a humanidade.
2. O Deus da Bíblia
A tentação permanente do cristão e, por conseguinte, também do teólogo cristão é o monoteísmo, entendido no sentido grego, bem diferente do monoteísmo hebraico e bíblico. Segundo a acepção grega, ser monoteísta é crer num Deus geral, ser supremo sem nome e sem rosto, uno e indiviso, solitário e monárquico. É a tentação de crer também que, em Deus, unicidade e diferença não se compatibilizam e, portanto, não podem estar juntas.
A conseqüência disso é que a fé cristã acaba se convertendo em um teismo ou deismo, ou seja, na crença em um Deus monárquico e solitário. Esta crença não integra nem a horizontalidade das relações humanas (Filho), nem a tão necessária dimensão subjetiva e interior (Espírito). Então, o Deus em quem ela proclama crer não é o Abbá (Pai) de Jesus Cristo, mas um ser distante e sem consistência nem incidência na vida humana. Acaba-se estruturando essa fé em termos de legalismo e fixismo na letra. Assim, em vez de cristãos, acabamos nos tornando iluministas, ou seja, passamos a ter confiança apenas naquilo que a luz da razão pode provar, afastando-nos da palavra libertadora, da experiência espiritual, da ação transformadora, e permanecendo ao nível das idéias. Portanto, ao elaborar rigorosamente essa fé monoteísta em tais moldes, estaremos fazendo não teologia, mas uma ciência mais digna dos parâmetros da razão moderna. A teologia é por excelência a ciência da fé e, por isso, supõe antes e mais que à luz da razão a escuta humilde da palavra de Deus, que a nós se dirige.
Ora, a revelação do Deus cristão é inseparável da experiência e práxis do ser humano. O Deus dos teísmos, o Deus em geral não é o Deus de Jesus, o Deus Trindade, o Deus Uno e Trino. A revelação do Deus cristão emerge na historia, mostrando um Deus que nunca é o mesmo, mas é sempre outro, encontrado na mediação do pobre, do carente, do diferente. E o ser humano, diante desse Deus, encontra-se permanentemente sob interpelação, sob julgamento, sob exigência. Exigência trazida pelo rosto do outro, sobretudo do pobre, aparecido como epifania (Manifestação) da transcendência. Para nós, cristãos, toda a história desse encontro entre Deus e o ser humano está registrada e pode ser conhecida na Bíblia, na Sagrada Escritura, no texto em que o povo de Deus registrou seu processo de encontro e conhecimento amoroso com seu Deus.
O texto bíblico é a mediação primeira onde podemos encontrar Deus, pois o Deus Cristão é o Deus da Bíblia. A Bíblia é a terra natal do Deus da fé cristã, que a teologia deve pensar sistematicamente, com a razão.
As duas condições prévias para que aconteça, através das páginas da Bíblia, o encontro com Deus são:
1- Não partir da razão, mas da fé. A Bíblia mesma nos adverte continuamente para essa condição indispensável pela qual podemos aproximar-nos do Deus que ela revela. E assim ela diz de muitas maneiras: “Destruirei a inteligência dos inteligentes” (1Cor 1,19ss; Is 29,14). “Escondestes estas coisas aos sábios e doutos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25-26). Para saber de Deus, portanto, é preciso estar disposto a não saber (a ser pequenino e inculto), ainda que se saiba que não se sabe e por que não se sabe.
É isso que os Evangelhos nos contam que acontecia com Jesus de Nazaré. Sobre ele, seus contemporâneos perguntaram: “De onde lhe vem esse saber?” (Mt 13,54-56). Porque ele desconcertava com sua maneira de ser, de agir e de falar. Não se parecia com os sábios e doutos da época, mas ao mesmo tempo afirmaram: “Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7,46). Porque sentiam que suas palavras e sua prática tinham autoridade. Uma autoridade, porém, que não vinha dele, mas de outro.
2- Negativa decidida a qualquer fundamentalismo (tomar o todo pela parte, explicar a totalidade da mensagem por um texto isolado) a qualquer fideismo (fé ingênua, que não se pergunta pelos seus porquês, nem procura dar razão de si mesma). Deus ultrapassa todo o entendimento, mas não o apaga. O Deus da Bíblia deve ser conhecido também com a razão.
A Bíblia é um conjunto de livros que narra, canta ou proclama acontecimentos que se dão em um ou mais momentos históricos concretos e particulares da vida de um povo – o povo de Deus -. E tem a atravessa-la a universalidade de uma revelação que se dá a partir da vida concreta. O centro desse conjunto de escritos, para nós, cristãos, é o evento Jesus Cristo, preparado pelo Antigo Testamento e explicado pelo Novo Testamento.
Por ser um texto plural e multiforme, a Bíblia carrega em sua definição várias dimensões e aspectos que são de extrema importância quando tratamos de descobrir, no intrincado das palavras, a luminosidade da revelação de Deus. Vejamos alguns deles:
1. A Bíblia é palavra. É comunicação de Deus sobre si próprio, que tem seu ponto auge em Jesus Cristo, o qual, ele mesmo, é ao mesmo tempo a palavra e o perfeito ouvinte, reconhecido por aqueles que o escutam e com ele convivem, um acontecimento salvador. A bíblia é um todo, um conjunto, um processo integral. Nos textos bíblicos, o Deus que é nomeado é o referencial último destes textos. Ele está implicado pela coisa do texto, pelo mundo (bíblico) que esses textos desdobram.
2. A Bíblia é tradição. O teólogo que se aproxima da Bíblia é herdeiro de uma tradição. Os textos bíblicos são ponto de chegada de diferentes tradições que são postas por escrito por um redator final.Nessa perspectiva, a Bíblia vai narrando a história do encontro do povo com Deus, ao mesmo tempo em que narra a saga desse mesmo povo em luta por identidade e liberdade. Para a Bíblia não há duas historias: uma historia profana e uma historia da salvação. Há uma só: a historia da salvação. Narrando essa historia, a Bíblia vai realizando a nomeação de Deus, que é polifônica (Tem muitos gêneros literários), recebida (ouvida e interpretada na fé), em que os textos se abrem para além de si mesmos e, portanto, permanecem vivos para além do primeiro escritor e do primeiro leitor.
3. A Bíblia é o livro da comunidade. Deus se revelou a um povo, e não a indivíduos isolados. Por isso, a escuta da palavra de Deus se dá no meio do povo. Deus e sus revelação vão ser percebidos por todo o povo de Israel. No texto bíblico, apenas de haver alguns líderes, porta-vozes, patriarcas, profetas e sábios que se destacam, o interlocutor divino por excelência é o coletivo do povo. No Novo Testamento é a Igreja que vai ser o novo povo da revelação, o povo de Deus, e é esta comunidade eclesial que vai receber e comunicar a revelação desse Deus, uma vez que é nela que este Deus é reconhecido e nomeado.
4. A Bíblia será então, uma revelação progressiva do agir e do ser de Deus, que se apresenta com paradoxos radicais, ou seja, com atributos que parecem inconciliáveis, mas que na verdade vão compondo progressivamente uma síntese única, a qual vai fazer com que o povo de Deus o reconheça como seu Deus, como o Deus que o escolhe e o converte de povo cativo e escravo em povo eleito, sendo Deus também escolhido pelo povo. Esses paradoxos do agir e do ser de Deus revelam algo do mistério de Deus ao povo, fazendo-o experimentar ao mesmo tempo grande alegria, mas também extrema perplexidade. Os paradoxos são[3]:
a) Santidade transcendente – Aproximação e comunhão: Embora altíssimo, transcendente, majestade inexpugnável e inatingível, o Deus da Bíblia é uma transcendência percebida na proximidade, no estar próximo, no ser conosco, no revelar-se, mostrando seu rosto e dizendo seu nome. O mesmo Deus que não se pode olhar de frente (cf. Elias, em Rs 11), que não se pode ver sem morrer, que não admite concordância com outros deuses (Ex 20,2s), pois é zeloso e ciumento, aproxima-se amorosamente, revela seu nome, propõe um pacto e escolhe aquele que é seu povo como esposa, como parceira de aliança para todo o sempre.
b) Universalidade – Particularidade: A universalidade do Deus da Bíblia é percebida na e a partir da particularidade. A vocação universal de Israel está em tensão permanente com a corrente particularidade ou nacionalista, que dá extrema importância às tradições e à identidade do povo (Is 42,1-9; 45,20-25). Só aos poucos, Israel vai percebendo que a sua eleição enquanto povo concreto é para uma missão de salvação universal. Somente após muitas dificuldades e sofrimentos, Israel vai sentir que não pode aprisionar nem domesticar aquele Deus que se autocompreende como seu Deus, porque o elegeu no contexto de uma aliança de amor. Esse mesmo Deus que escolheu o povo é o que deu um mundo a todo o ser humano, é o criador de tudo o que existe, e seu poder não conhece confinamentos, nem limites.
c) Teologia – Antropologia: A revelação de Deus manifesta quem é ele, enquanto Senhor de Israel e do mundo inteiro, mas também e inseparavelmente vai revelando quem é o ser humano a quem este Deus se dirige e para quem pronuncia sua palavra. A experiência antropomórfica (com forma humana) e antropopática (com sofrimento, passibilidade e vulnerabilidade humanos) de Deus remete à sua personalidade transcendente, a qual, em vez de ser reduzida ou minimizada, é, pelo contrário, revelada com mais nitidez. É assim que conhecer a Deus implicará em conhecer melhor ao ser humano, e vice-versa: o conhecimento de si mesmo e do próximo levará a conhecer melhor a Deus. da mesma forma, o amor a Deus, mandamento primeiro e iniludível para o povo de Deus, vai identificar-se cada vez mais com o segundo mandamento – amar ao próximo como a si mesmo -, chegando ao seu auge no Novo Testamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor a Deus e ao próximo, portanto, é o resumo e a síntese feliz e acabada da lei de Deus. Criador e criatura estão, pois, de tal forma amorosamente vinculados, que não é possível conhecer a um ser o outro, e vice-versa, embora ambos sejam tão fundamentalmente diferentes e não façam número um com o outro[4].
d) Mística - Ética: A experiência religiosa mais profunda (mística) do mistério de Deus leva a (e se alimenta de) uma ética, uma práxis. Ouvir a palavra de Deus, para o povo de Israel e para a Igreja do Novo Testamento, é inseparável de fazer a sua vontade. Por isso, a escuta na Bíblia é sempre uma escuta obediente, porque é a escuta de um Deus que fala agindo e fazendo agir. Sua palavra é eficaz porque faz o que diz, e faz fazer aquilo que diz. Se o comportamento humano não e transformado pela experiência da escuta da palavra, então é uma falsa escuta que se da no seio do povo, duramente denunciada pelos profetas. Assim, o binômio injustiça-idolatria é tão central, quando se trata de obstáculos humanos a revelação de Deus na Sagrada Escritura. Adorar a Deus e servir ao irmão fazem parte da mesma experiência de Deus e são inseparáveis. O Deus de toda majestade se liga as coisas mais concretas e comezinhas do dia-a-dia do povo. Portanto, Israel logo vai perceber que a perda da maneira correta de se relacionar com os outros resulta na perda da maneira correta de se relacionar com Deus. Ou seja, a injustiça leva a idolatria, e vice-versa.
Aceitando, conjugando e dispondo-se a conviver com esses paradoxos radicais, será possível ir descobrindo o fio da revelação do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que e o Deus de Jesus Cristo, que mostra seu rosto e entrega sua identidade nas paginas da Sagrada Escritura. Essa foi e é, ha muitos milhares de anos, a aventura do povo de Deus, e essa deve ser a nossa aventura também hoje.
Entrando nessa aventura, conhecemos um mundo plural e fascinante, pois a Bíblia apresenta uma idéia pluriforme sobre Deus. Os autores sagrados geralmente definem Deus mediante analogias humanas e naturais. Expõem a experiência e a idéia que dele tem nos títulos, imagens e metáforas, nas narrações das ações divinas e nas expressões dos sentimentos humanos. Essa pluralidade, no entanto, é sinfônica, ou seja, não se trata de fragmentação sem principio organizativo, nem de oposição ou superposição de imagens, mas é como muitos instrumentos tocando a mesma musica. Essa musica maravilhosa (que é o próprio Deus) -essa sinfonia inefável que encanta a vida de todo o ser humano que vem a este mundo e lhe da sentido - é uma melodia que só se pode ouvir penetrando no mundo da Bíblia.
3. DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO: OS FIOS CONDUTORES DE SUA
REVELACAO E SUA IDENTIDADE
No Antigo Testamento não existe uma teologia, mas muitas. Cada escritor, cada tradição, cada escola foi registrando sua experiência particular de Deus.
Mesmo assim, e a despeito do fato de Deus ser chamada de muitos nomes, temos que constatar que a nomeação de Deus como Javé (Jeová) ocupa o centro de todos as escritos, embora, em alguns momentos dos registros de diferentes autores, apareçam outros nomes e a nomeação do Deus de Israel conviva com a nomeação de outros deuses. Javé aparece como o Deus que se revelou a Israel e do qual este povo teve a experiência no êxodo, no Sinai e em muitas outras circunstancias de sua historia de mais de 1.500 anos, desde Abraão ate Jesus Cristo. Falar de Javé implica, para o povo de Israel, uma referencia obrigatória.
Algumas citações, no entanto, supõem a existência de outras divindades ao lado de Javé no inicio da caminhada do povo de Deus (cf Ex 20,2s). Uma apresentação de Deus no Antigo Testamento supõe um triangulo formado por Javé, outros deuses e Israel. Só lentamente Israel foi superando o politeísmo que ainda o rondava como tentação, a idolatria que às vezes a fascinava com falsas promessas e ilusões, para estabelecer as bases sólidas da crença num só Deus.
Os autores do Antigo Testamento não conseguiram (nem tampouco se propuseram) a definir ou sistematizar de maneira unívoca a mensagem do Antigo Testamento sobre Deus. Foram desenvolvendo paulatinamente suas experiências e idéias do Deus vivo e refletindo sobre elas, ate chegar a registrá-las par escrito. Mesma assim, não se pode dizer que na Bíblia exista um tratado sabre Deus. Os autores bíblicos não tem essa preocupação e toda a tentativa de definir sistematicamente o Deus da revelação se chocara com numerosas dificuldades. No entanto, fazendo uma releitura do ponto de vista do Novo Testamento -ou seja, desde a fé crista, que é a nossa - sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento, impõe-se a constatação e a afirmação de que Deus falou ao povo desde sempre, de muitos modos e maneiras, mas ninguém nunca viu Deus. Somente Jesus, o Filho único de Deus, que esta no seio do Pai, no-lo deu a conhecer (cf Hb 1,1s; Jo 1,18).
Com esse pano de funda, apresentamos agora a concepção de Deus no Antigo Testamento, seguindo passo a passo os diferentes livros ou blocos nele contidos:
1.1 Prelúdios do Javismo: as tradições bíblicas diferem quanto à origem da fé javista. O nome de Javé (Jeová) aparece, no entanto, do principio ao fim do Gênesis e, segundo (Gn 4.26), remonta as origens da humanidade. No entanto, de acordo com Ex 3,13-15, o nome de Javé sa revela pela primeira vez a Moises, e não aos patriarcas. Ex 6.2-3. Por sua vez, Gn 35,2-4 indica claramente que os antepassados de Israel adoraram outros deuses, diferentes de Javé (cf Js 24, 2. 14-15).
Os livros de Gênesis e Êxodo, alem de utilizar a palavra Javé para denominar a Deus, empregam outros nomes para referir-se a ele, principalmente de dois tipos:
1) Um Deus mais pessoal:
a) o deus de meu pai (Gn 31,5.42; Ex 15,2; 18,4); o deus de teu pai (Gn 31,53); o deus de seus pais (Ex 3,13.15.16; 4,5).
b) o deus de Abraão (Gn 24,12.27.42.48; 26,24; 28,13; 31 ,53); o Deus de Isaac (Gn 46,1).
c) o Deus de Abraão, teu pai, e o deus de Isaac (Gn 28,13); o deus de meu pai Abraão e o Deus de meu pai Isaac (Gn 32,9); o Deus de vossos pais, o deus de Abraão, Isaac e Jacó (Ex 3,6.15.16; 4,5).
2) Um Deus mais ligado a um lugar (topônimos ou epítetos divinos ligados a um lugar) ou a alguma qualificação (adjetivos que exaltam a sua supremacia):
a) EI Elyon (o deus altíssimo): Gn 14,18-22.
b) EI Roi (o deus que me vê): Gn 16,13.
c) EI Olam (o deus eterno): Gn 21,33.
d) EI Elohe Yisrael (o deus de Israel): Gn 33,18-20.
e) EI Betel (o deus de Betel): Gn 31,13.
f) EI Shaddai (o deus poderoso): Gn 17,1; 28,3; 35,11; 43,14;48,3; 49,25.
Sobre essa pluralidade de nomeações há varias tendências e varias hipóteses na exegese moderna. Aqui colocamos as três principais:
Primeira hipótese:
- O deus dos pais é diferente do deus EL: não tem nome próprio, mas recebe seu nome daqueles a quem aparece pela primeira vez e que fundam seu culto. É ligado a um grupo, o qual protege e acompanha. Não tem morada fixa, segundo o tipo de vida nômade dos patriarcas.
- O deus EI já reflete a vida dos povos sedentários. O termo el (plural elim) se usa como apelativo divino e como nome próprio de um deus determinado. Os elim seriam divindades locais Cananéia com santuários fixos.
- O deus dos antepassados de Israel é fruto da coexistência dos dois tipos de divindades, devido a sedentarização de Israel em Canaã.
Segunda hipótese:
- Ha uma identidade original entre o deus dos pais e o deus EI. O primeiro representaria um tipo especial de adoração do deus EI, ao qual os patriarcas possivelmente prestaram culto antes da sedentarização.
Terceira hipótese:
- Contestam-se as predominâncias das nomeações de Deus no Antigo Testamento.
- Contesta-se a relação entre religião patriarcal e vida nômade dos antepassados de Israel.
- As expressões "o deus de meu pai" ou "o deus de fulano", na literatura do Oriente Próximo, se referem a culturas sedentárias.
- No segundo milênio a.C., não se pode estabelecer uma diferença entre nomadismo puro e cultura sedentária. o trinômio família – tribo - estado é uma abstração artificial. Designações como "o deus de Abraão", ampliada para "Abraão teu pai”, "Abraão, Isaac e Jacó", aparecem nas narrações patriarcais que usam literariamente o predomínio da família sobre a tribo e o estado. A relação do ser humano com Deus aparece então a partir da analogia Pai-Filho.
- As designações divinas e as promessas em Gênesis e Êxodo não provam a existência de uma forma de religião pré - javista associada com a primitiva forma de vida - nômade ou seminômade de Israel.
O fato e que, mesmo com estas discussões, os relatos patriarcais têm inegavelmente um caráter familiar. O Deus de Gênesis 12 é um Deus que acompanha, guia e protege a família, protótipo da família humana, da humanidade. A promessa e a bênção divina apontam para o futuro e resgatam o passado da grande família humana.
Retornando a analise da concepção de Deus no Antigo Testamento, vejamos o segundo item:
1.2 o Javismo: No Antigo Testamento, Javé e associado principalmente a Moises e ao Êxodo. A formula de fé "Javé tirou Israel do Egito” é o cerne da tradição bíblica do Êxodo e de todo o Antigo Testamento. isso pode ser constatado nos credos históricos (Dt 6,21-23; 26,8; Js 24.6s "as festas religiosas (Dt 16,1-3.6; Lev 23,44), nas leis (Dt 13,11; 20,1 e nos hinos (SaI 114, 1ss; 135,8s; 136,10 ss). Tal formula, no entanto, é tardia. pois supõe a existência do grande Israel, um povo já organizado como povo, com 12 tribos. E mais uma retroprojeção (projeção para trás) do hagiógrafo -livros do Antigo Testamento, menos o Pentateuco e os Profetas- na época de Moises.
O berço do Javismo parece ser o Sinai (Dt 33; Jz 5). Deus, então, aparece ligado a montanha. diferente do Êxodo. Parece que o berço do Javismo deveria ser buscado na era pré-mosaica (segundo as fontes bíblicas e extra-bíblicas), na montanha do Sinai, na região de Madiã. Ali, num mesmo momento histórico e em zonas geográficas próximas e comunicadas entre si, diferentes grupos (madianitas, shosu, proto-israelitas) tiveram experiências sociais e religiosas similares ou idênticas.
1.3 O Deus que vai ser nomeado como Javé se revela, sobretudo em sua atuação na historia e em sua relação com o povo. Israel era um povo explorado pelo Egito, de onde é libertado por uma intervenção especial de Javé (Ex 1-3). Ele revela seu nome a Moisés: “Eu sou o que sou” (Eu sou o único existente, o único que existe). O nome Javé é um tetragrama sagrado: YHWH (Ex 3,14ss). Ele se revela a Moisés para o serviço do povo, em beneficio de Israel. Israel deve, então, reconhecer que Javé é para ele, o único Deus existente e o único salvador.
A saída do Egito para Israel, dada a situação de escravidão em que se encontra o povo, trata-se de uma verdadeira salvação. Javé é apresentado como um guerreiro (Ex 15,3) que combate por seu povo (Ex 14,13). A fórmula Javé tirou Israel do Egito passou à tradição veterotestamentária como o artigo fundamental da fé de Israel.
1.4 O Deus do Sinai: Javé tira o povo do Egito para conduzi-lo a uma terra boa. Mas entre o ponto de partida e o de chegada se interpõe uma estação: o Sinai (Ex 19-24). Ali Javé se manifesta (Ex 19) e conclui um pacto (Ex 24) com aqueles que tirou do Egito, constituindo uma verdadeira comunidade, um povo novo. A aliança do Sinai não se estabelece entre as diferentes tribos ou grupos que formarão o povo de Israel, mas entre estes e Javé, numa relação única e singular. O êxodo foi como o batismo do povo no mar, e a aliança ao pé da montanha é o passo decisivo para a constituição do povo de Deus.
No Sinai, Javé se manifesta teofanicamente (Ex 19). A teofania na Bíblia significa a manifestação de Deus, que é cercada de elementos maravilhosos e extraordinários. Ali no Sinai, em meio à teofania, Javé revela sua lei (Ex 20-23) e faz a aliança (Ex 24).
Eis portanto, a trilogia que constitui a experiência de Deus do povo no Sinai:
- A teofania: Javé se apresenta como um ser numinoso e fascinante, com uma liturgia cósmica impressionante. Sua voz soa para transmitir o decálogo (Ex 20,2-17) e o código da aliança (Ex 20,22-23).
- A lei: a revelada por Javé, dom de Deus a seu povo. A narração teofânica aparece emoldurada por textos de aliança. O decálogo é o documento da aliança.
- A aliança: é o compromisso fundamental do povo com seu Deus.
A experiência com Javé carrega consigo a exigência da rejeição dos outros deuses, primeiro dos mandamentos (Ex 20,2-3). Ele libertou o povo e o introduziu sob seu senhorio. A ação salvífica de Javé fundamenta as exigências dos mandamentos e a proibição de ter outros deuses (Ex 20,3-5) e fazer imagens.
Javé se mostra desde o principio como um Deus ciumento (Ex 20,5b-6; Dt 4,24; 6,15; Js 24,19), um Deus exclusivo, que não admite rivais. isso se choca com o politeísmo dos outros povos. Ele se empenha sumamente em tudo que faz: quando salva e quando castiga. Pede contas das transgressões aos que o odeiam, mas mostra misericórdia com os que o amam e observam seus mandamentos (Ex 20,5b-6; 34, 65; Nm 14,18; Dt 7,95). Sua misericórdia sempre prevalece sobre o castigo. Por isso, e por muito mais, Javé é um Deus incomparável (Ex 15,11).
1.5 o Deus dos profetas: Os profetas são homens de Deus, porta-vozes de sua revelação. Falam em nome de Deus, proferem o juízo, 0 julgamento de Deus sobre a vida do povo, os governantes, os latifundiários, os sacerdotes que abusam do culto. Eles são, por assim dizer, a boca falante de Deus no meio do mundo e da historia. Cada um deles tem uma experiência própria e original desse Deus que os toma por inteiro e se serve deles para dizer o que deseja ao seu povo.
O grande profeta de Israel é Elias. Embora não haja um livro profético com seu nome, ele é o modelo de todos os profetas. Elias, que leva a marca de Deus em seu nome (E/), é um homem de Deus (1 Rs 17,18.24; 2Rs 1 ,9-16). Grande responsável pelo monoteísmo javista de Israel, ele combate o deus Baal para mostrar a unicidade de Javé, que é, para ele, o único e verdadeiro Deus. Por isso, fala contra o rei Acab (1 Rs 18,17-20), contra o povo de Israel que adora Baal (1 Rs 18,21-24) e contra os profetas de Baal que fomentam seu culto (1 Rs 18,25-30).
Os profetas clássicos (nome com que são designados os principais profetas, autores de livros bíblicos) são, antes de tudo, transmissores da palavra de Deus. O Deus dos profetas é o Deus que fala por sua boca: oráculo, assim diz Javé. Estes oráculos são de condenação ou salvação, denuncia ou convite a conversão, que são as duas dimensões da palavra de Deus e de Deus mesmo: um Deus que castiga-condena e que perdoa salva. Vejamos como Deus é apresentado em alguns deles:
Amos: Seu livro é estruturado em torno de vários nomes e designações de Deus, nos quais se destaca o de Javé, relacionado estreitamente com o bem, a pratica da justiça e do direito (cf 5,4ss)
Oséias: Usa muitas imagens para caracterizar Deus (medico, caçador, pastor, leão, pantera e ursa), mas a imagem do matrimonio e da paternidade -maternidade de Deus se impõe. Javé é o marido e Israel, a esposa infiel, cujos amantes são os baales (Assíria e Egito). Oséias lutou, como Elias e Jeremias, pela purificação do javismo. Fala contra os ritos cananeus de fertilidade. Fala de Deus como pai -mãe do filho pequeno Israel, um amor que transcende o de qualquer ser humano.
Isaias: Para ele, Javé é o santo por excelência e o rei e senhor dos exércitos, cuja gloria enche toda a terra (6,1ss). Com a santidade de Javé, Isaias contrasta o pecado de Israel, que Javé castiga e condena (9,12;10,16;30,9;3,8;5,13.29;6,11s;28,18ss), mas antes oferece conversão e perdão (5,25; 10,4). Haverá um resto que se salvará e do qual sairá um rebento sobre o qual repousará o espírito do Senhor (6,13; 11,1 s; 14,32; 28,16s). Será da raiz de David, o messias que trará a justiça e o direito à terra (7-11).
Miquéias: Também fala de um resto, de um rei messiânico ,(5,1 ss) e de Jerusalém como centro de atração universal (4,1 ss).
Jeremias: Anuncia o Deus da palavra. A palavra de Deus e posta em sua boca pelo próprio Senhor, para que cumpra a missão de arrancar-destruir e construir-plantar (1,9.10.12). Deus escrevera sua lei no coração do povo, renovando-o e transformando-o em seu interior. A brecha entre a lei de Deus e os desejos do coração humano será fechada pelo mesmo Deus. A comunhão com Deus será total. A nova aliança é escatológica: todos conhecerão a Javé.
Ezequiel: Fala do Deus transcendente e inacessível, mas presente através de sua gloria (1,28; 3,23; 8,4; 10,1; 43,2). O Deus de Ezequiel julgara o povo por seus pecados. Dentre os quais o mais grave e o da idolatria (14,18; 16,16; 20,28s).
Segundo Isaias (Is 40-55): Aqui, Deus e apresentado como o criador e o salvador, anterior a tudo o que existe, na origem de tudo (43,10; 44,6.24) e redentor do povo e de tudo que existe, fazendo uma nova criação (41 ,20; 48,7). Javé se revela como um Deus singular, como um pai com entranhas de mãe. É um Deus único e incomparável (41,4; 44,6s; 45,5.14.18.21). O monoteísmo emerge no dêutero (segundo) Isaias como um monoteísmo soteriológico.
O Deus dos profetas é polifacético. Cada profeta destaca determinados traços de seu rosto. Não falam tanto do ser mesmo de Deus, quanto de sua atuação na historia. Desse agir divino intra-histórico é que saem os diversos atributos divinos (ciumento, misericordioso, santo, eterno), os títulos (criador, esposo, juiz, pai-mãe, salvador, redentor), como também as imagens verbais para significá-lo (Leão, caçador, médico, pastor, pantera, ursa).
1.6 O Deus dos sábios: Ha cinco características principais sobre Deus nos livros sapienciais:
1) Muitos aspectos da vida são tratados sem uma referencia explicita a divindade.
2) Ha uma preferência freqüente por expressões genéricas ou indeterminadas ao referir-se a Deus.
3) Constata-se uma falta de referencia a eventos históricos.
4) Predomina uma descrição não mitológica do mundo e da divindade. Portanto, uma descrição mais realista, com imagens da vida concreta e do cotidiano.
5) Percebe-se uma atitude reservada com relação ao culto.
E importante observar que cada um dos livros sapienciais apresenta sua própria concepção de Deus:
Provérbios: Deus inspira temor (1,7;31,30).trata-se de um temor feito de respeito filial, reverencia e amor, parte integrante da vida. Deus se remete ao comportamento das pessoas,prova os corações e dá a cada um segundo suas obras (16,2; 17,3; 21,2; 12,2; 24,12; 25,21s). A sabedoria não é mera espectadora na criação e ordenação do mundo, mas a primeira criatura de Deus, o plano de Javé sobre todas as coisas (8).
Jó: Deus e designado com vários nomes: Javé, nos marcos narrativos (1 s.; 42,7ss). No poema, como EI, Eloah, Elohim, Shaddai e EI-Shadda: (3,1-42,6). No prólogo ha uma imagem singular: Deus governa colegialmente o mundo (1,6; 2,1). Os amigos de Jó tem uma idéia coerente de Deus: ele e o criador todo poderoso que assegura aos homens a justa retribuição de seus atos (4s; 8; 11; 15; 18), com uma justiça inquestionável. Jó discute o modo de proceder de Deus, embora admita seu poder criador (10,8ss; 12,11 ss; 9,21; 10, 14ss; 6,4; 7,12ss). Recorda o passado, quando Deus o protegia (29,1 ss), reconhece nele o redentor (19,25-27), ressalta a bondade de Deus criador (38,31 ss; 39,5ss) e seu controle sobre o mundo e a realidade.
Qohélet ou Eclesiastes: Deus é sempre chamado de Elohim. Deus é um ser misterioso e invisível, impossível de ser conhecido. Oculta-se mais do que se manifesta (3,11; 8,16s; 11,5). E criador e juiz (11,9), e dono e soberano da vida (8,15) e dele depende a sorte e a desgraça (2,24-26; 7,14).
Eclesiástico: Toda sabedoria vem de Deus (1,1) e o temor de Deus é sua raiz (1 ,11-20). Os que temem o Senhor lhe obedecem e amam (2,7-17). O temor de Deus e equivalente a sabedoria, grande dom do Senhor a seu povo (24).
Sabedoria: O tema central é a morte e a imortalidade (1-5). Os justos viverão eternamente com aquele que escolheram (3,1-5; 5,15). A sabedoria é mediadora entre Deus e o âmbito cósmico – soteriológico (6-9). A sabedoria é hipostasiada (feita pessoa). Essa hispostasiação ou personificação, ao mesmo tempo que é um atributo divino, será terreno fértil para a sua aplicação ao Cristo, a partir do Novo Testamento.
Deus ocupa um lugar relevante nos livros sapienciais, ora perto da concepção tradicional do Antigo Testamento, ora abrindo novos horizontes para o Novo Testamento. Deus fez o ser humano a sua imagem, mas ninguém humano é capaz de modelar um Deus semelhante a si (Sb 15,16). Somente alguém divino-humano pode aproximar Deus e o ser humano. Os livros sapienciais, relidos pelo Cristianismo, vão reconhecer a sabedoria encarnada em Jesus de Nazaré. .
Após este percurso pela pluralidade e pela polifonia das nomeações de Deus no Antigo Testamento, vamos dar mais um passe no trabalho de escuta e descoberta do fio condutor da revelação desse Deus ao povo de Israel. A releitura do Antigo Testamento a partir do Novo Testamento é o que nos permitira fazer isso. Vamos, então, proceder a esta releitura pretendendo e legitimamente tentando realizá-la na continuação deste capitulo. Com todo o respeito e amor que temos pela revelação de Deus no Antigo Testamento, que é revelação também para nos, nossa intenção é fazer teologia crista. Ou seja, nos propomos a pensar e falar sobre o Deus da nossa fé, que acreditamos nos ter sido revelado na historia do povo de Israel, mas, sobretudo e plenamente em Jesus Cristo. E com esta iluminação que vamos ler e refletir sobre as etapas da revelação de Deus no Antigo Testamento, a partir do seu coroamento e da sua plenitude no Novo Testamento.
4. DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO: ETAPAS PRÉ-CRISTÃS DE SUA REVELAÇÃO
Apos fazer um rápido percurso sobre as muitas maneiras pelas quais os principais livros do Antigo Testamento falam de Deus, o objetivo da nossa reflexão é fazer um corte transversal na revelação de Deus ao povo de Israel. Perceber os fios condutores desta revelação e procurar entrever seus remanescentes hoje, em nossa vida e na vida da comunidade eclesial. Isso nos ajudara a perceber como muitos de nós ainda estamos no Antigo Testamento, em termos da experiência de Deus, e não fizemos totalmente a passagem para o Novo Testamento. Não estaríamos, pois, disponíveis para ouvir e receber a Boa Nova (Evangelho) de Jesus.
Nesta seção, vamos tentar compreender algo da nossa fé em Deus e do nosso catolicismo atual. Isso talvez nos ajude a ver que temos que morrer para muitas das nossas concepções mais arraigadas, ainda que religiosas, sobre Deus. Esperamos, assim, poder dar um passo a frente da experiência do Antigo Testamento -embora conservando toda a imensa riqueza ai recebida e aprendida- e receber a grande e radical novidade da revelação de Deus que Jesus Cristo nos traz.
O método que iremos empregar e considerar e usar o Antigo Testamento como paradigmático e exemplar. Vamos ver que ali aparece o fundamento da evolução para toda descoberta de Deus. Com este objetivo, vamos tomar as etapas, tradições, e não os livros. Veremos as diferentes tradições pela ordem, indo das mais antigas para as mais recentes, sem nos preocuparmos muito com exatidões literárias e construções relacionais. Não se trata de uma análise filológica e exegética, e sim de uma leitura teológica, uma das muitas possíveis para descobrir o processo pedagógico e amoroso da revelação de Deus a seu povo. Finalmente, veremos como somente a luz da fé em Jesus Cristo essas quatro etapas se organizam e se tornam coerentes (cf 2Cor 3,13-18). A luz de nossa fé, são etapas pré-cristãs da descoberta de Deus.
A cada etapa corresponderão:
- Alguns textos fundamentais que dão a moldura da situação historico-bíblica.
- Uma idéia de Deus.
- A experiência correspondente a esta idéia.
- O alcance e as limitações da etapa onde esta idéia e onde esta experiência tomam corpo.
- E, finalmente, seus remanescentes entre nos.
4.1 Primeiro etapa: O Deus terrível
Textos fundamentais: Gn 4, 13; Ex 3,1 ss; Ex 19, 20 ss; Ex 20, 18-20; Ex 30, 25ss; 1Sm 6, 11-16; 2Sm 6, 3-7.
Situação historico-bíblica: De 1250 (êxodo) a 900-800 a.C. Refere-se ao tempo da conquista da terra e aos primeiros reis.
Idéia de Deus: Deus não aparece como poder universal, tal qual o é para nós. Deus é o Deus da terra em que habitam aqueles que a adoram. Nessa terra ele concentra poder e autoridade. Estar longe da terra equivale a estar longe de Deus, de sua proteção. Por conseguinte, para o ser humano desta etapa, Deus atinge e pode ser atingido só indiretamente (Gn 4,13). O acesso a Deus se da pelo encontro concreto na terra em que vive o ser humano. A mediação da terra é fundamental.
Experiência de Deus: Esta se da no inexplicável e no terrível (Ex 3,1ss).o ser humano se sente pequeno diante do tremendo mistério de Deus. experimenta liberdade no profano, e terror diante do sagrado.
Atitude religiosa fundamental: O ser humano não pode aproximar-se familiarmente da terrível santidade de Deus, do sagrado (Ex 19,20ss). Para isso é preciso um intermediário. Alguém que seja, ao mesmo tempo, santo e humano (Ex 20,18-20). Tampouco e permitido aproximar-se de uma só vez do sagrado. Ha graduação nas aproximações, uns podem aproximar-se mais, Outros menos. A aproximação exige condições especiais: a santificação e a preparação (Ex 19,22) conseguidas pela purificação ritual das pessoas, das coisas e dos animais (Gn 7,2). Isso permanecera como uma experiência forte para o povo judeu e só conhecerá uma concepção renovada em At 10,9-15, quando e revelado a Pedro que esses rituais não interessam mais ao Deus dos cristãos.
Esta primeira etapa da caminhada religiosa de Israel e muito centrada sobre a necessidade da purificação para o encontro com Deus. Os puros, Deus acolhe. Os impuros, Deus rejeita (Ex 30,25ss). o sagrado, o reservado, o separado por Deus é o que ele reservou para si Portanto, usar e tocar profanamente algo sagrado é um sacrilégio, mesmo se feito sem intenção. A intenção do ser humano e alheia a tudo isso.
Um bom exemplo do que acabamos de dizer encontra-se na comparação entre estes dois textos: 1 Sm 6,11-15 e 2Sm 6,3-7. Qual a diferença entre a ação dos filisteus e a ação de Oza? A dos filisteus estava prevista ritualmente. Era programada religiosamente, fazia parte dos rituais convencionados. Eles não pertenciam ao povo de Deus, portanto o interdito de tocar nos objetos sagrados não lhes dizia respeito. A ação de Oza e uma ação familiar, como segurar uma coisa que vai cair. Segundo a mentalidade religiosa, a arca de Deus não pode ser tratada como uma coisa qualquer, mesmo que a intenção seja boa. Por isso, Oza foi punido e os filisteus não.
Significado desta etapa: Aparentemente, e negativo. Essa centralidade no ritual e nas purificações se choca com a nossa mentalidade moderna. Mas ha muitos pontos positivos sobre os quais deveríamos refletir com cuidado:
a) Encontramos aqui uma descoberta radical do absoluto, embora muito rudimentar. Uma descoberta existencial de Deus fora do domínio das coisas normais da vida humana.
b) Pode ser percebida uma grande valorização da experiência do ritual, que põe o ser humano em contato com Deus, rompendo a cadeia do habito, do cotidiano, do manipulável. O rito aqui aparece como aprendizagem do absoluto, intervenção do incondicionado na hist6ria e no provisório. O ser humano precisa dos rituais para relacionar-se com Deus. Nossa época,
que tanto desvalorizou o rito, precisa aprender a reencontrar sua importância, sem cair no ritualismo, para reintroduzi-lo em sua vida de fé. O grande interesse atual pela liturgia, pelos simbolos e gestos da testemunho do que acabamos de dizer.
c) Do ponto de vista do Cristianismo, Deus e amor. Essa afirmação só é possível se compatível com esta outra: Deus e absoluto. Esta etapa já começa a ensinar ao povo de Israel e também a humanidade que o amor e o único absoluto, e só o absoluto e amor. Só o amor e digno de fé. Por ser Absoluto, Deus-Amor tem as suas exigências, e suas exigências servem para fundamentar ainda mais o amor. Numa época, como a nossa, em que o amor tornou-se, para muitos, uma palavra vazia, precisamente pela falta de fidelidade e de disciplina para sua conservação. essa experiência que Israel fez do absoluto de Deus torna-se bastante atua. Pois o amor é o que desinstala. o amor e o que tira o ser humano bíblico de sua casa, de sua terra e de sua parentela. assim como nos tira das "nossas seguranças" e nos leva ao desconhecido. nos arrasta para onde nunca fomos, para fazer algo Que tampouco sabemos, mas que Deus sabe (Gn 12,1 / / Mt 10.35-39; Jó 3.8; 21,18).
Limitações desta etapa:
- Uma certa exterioridade: Não pode haver vida religiosa, de fé, apoiada apenas no exterior, no ritual, sem o profundo da subjetividade do ser humano. Embora se reconheça aqui um ponto de partida da pedagogia divina.
- Uma certa debilidade diante do sistema de explicação cientifica dos fenômenos humanos. A medida em que o mundo for se explicando, com o desenvolvimento da ciência, o sagrado primitivo tende a desaparecer.
Remanescentes entre nos: Percebemos ainda na nossa vida eclesial e na nossa pastoral muitos remanescentes dessa primeira etapa da descoberta de Deus do Antigo Testamento:
- A superstição (eficácia do sagrado colocada nas coisas e nos ritos externos) ainda e extremamente presente no povo católico de todos os níveis sociais e culturais.
- A crença numa certa eficácia mágica de certos ritos (os sacramentos eficazes em si mesmos, desvinculados da pratica).
- A promessa, com uma certa dimensão de comercio divino, no senti do de que "Deus me dará o que peço, se eu cumpro uma serie de prescrições externas, que supostamente lhe agradariam".
- As indulgências concebidas como "compra da salvação”.
- Um certo esoterismo da liturgia, que atua independentemente da compreensibilidade e da participação da assembléia.
- A freqüência aos sacramentos concebida como aumento da graça em termos cumulativos (quanto mais se comunga, mais "capital salvífico" se tem guardado para a hora da morte e do julgamento).
- A multiplicação de ritos como garantia de salvação.
- A concepção do clero e pessoas consagradas como intocáveis e mais santas do que as outras
- A importância dada a fórmula dogmática, mais que ao conteúdo.
- A vida moral baseada em prescrições e proibições: “pode", "não pode".
Essa etapa pela qual passou Israel, muitos de nós ainda hoje experimentamos. É preciso supera-la e passar à etapa seguinte, assim como o fez o povo de Deus.
4.2 Segunda etapa: o Deus da Aliança
Textos fundamentais: Dt 26,5ss; Jz 11,17-24; Mq 4,5; Os 2,14ss; Am 5,21;
Is 1,9-17; Dt 5,1ss; 6,1-3; 7,1-13; 7,9-11; Os 7,9-11; Is 31,1 ss.
Situação historico-bíblica: De 900 a.C. ao desterro de Judá na Babilônia. Em 721 acontece a destruição do Reino do Norte. Mais ou menos em 630, a reforma de Josias. Corresponde aos primeiros grupos de profetas (Isaias, Amos, Miquéias, Oseías) e a redação de Juizes, Samuel, Reis e Deuteronômio.
Idéia de Deus: Continua não sendo um Deus universal, mas o Deus de Israel, Deus dos pais (Dt 26,555). Não chegamos ainda ao monoteísmo, no sentido pleno do termo. E mais uma monolatria (também conhecida como henoteismo), ou seja, o povo adora a seu Deus, em meio aos deuses dos povos vizinhos (Jz 11,17-24). Javé é o Deus de Israel, porque escolheu Israel como povo. Ele se compromete com Israel, e vice-versa.
Experiência de Deus: Essa etapa requer e revela um Deus que se aproximação mais do ser humano. Aproximação é sinônimo de proposta, de pacto, de ligação, de aliança. Mais do que a relação muito exterior estabelecida pelos ritos desvinculados de uma pratica, trata-se agora da instauração de uma relação mais pessoal e próxima, mais moral, do povo com Javé.
Atitude religiosa fundamental: A fidelidade é a imagem das relação entre o povo e seu Deus. Israel aparece e é entendido ai nesta etapa como a esposa de Javé. Ele é o esposo de Israel (Os 2,1455). Esposo fiel e que exige fidelidade, que tem "ciúme" quando Israel adora outros deusés. A fidelidade é uma atitude essencialmente humana, diferente dos ritos incompreensíveis da primeira etapa. E o fato de a fidelidade estar no centro da experiência desta etapa revela que Javé já não quer mais ritos externos, mas o coração do ser humano (Am 5,21). A moral expressa essa fidelidade, que se revela no mais profunda do coração das pessoas. Condena-se a religião meramente ritual, mais ainda, condena-se todo ritual que não chegue ao coração humano. o deserto – lugar do encontro e do amor da juventude aparece como o tempo da fidelidade sem ritos (Am 5,21; Is 1,9-17) e do desprezo por um ritualismo sem alma e sem justiça.
O decálogo se apresenta como código da aliança. Se Israel cumpre os mandamentos, Deus cumpre a sua parte e protege Israel para sempre. Dai resulta uma atitude histórica: Israel deve cumprir somente uma parte da aliança (mandamentos); do mais, Javé cuida. Israel se ocupa da moral, e Javé, da historia (providencia). Cada problema histórico deve, portanto, suscitar em Israel uma renovação moral (Os 7,9-11; Is 31,1 55). Nesse sentido, haverá dois possíveis pecados denunciados pelos profetas: a infidelidade (ou seja, a idolatria, o culto a outros deuses) e a auto-suficiência (pretender dirigir os próprios acontecimentos sem confiar na providencia divina).
Significação desta etapa: o sagrado e o divino aqui aparecem como providencia moral e histórica. Deus dispõe os acontecimentos históricos segundo a conduta moral do povo escolhido. Em relação á primeira etapa, ha uma aproximação do centro da existência humana, o coração. Isto implica um progresso aproximativo de Deus em relação ao ser humano. Aparece uma nova identidade entre religião e tarefa histórica, relacionada pela noção de aliança. A descoberta central que preside esta experiência é a de que o ser humano é colaborador de Deus, mesmo indireto, num desígnio que se realizara na historia, descoberta que necessitara de purificações. A revelação crista definitiva recapitulara isto tudo em Cristo, a testemunha fiel por excelência, que recapitula a historia com sua encarnação, vida, morte e ressurreição, inaugurando a nova criação e sendo tudo em todos.
Limitações desta etapa: Estamos longe ainda de uma religião verdadeiramente universal, como o Cristianismo. Para nós, é incompatível, com a noção de Deus que temos, esse privilégio exclusivo de um só povo Que não se abra para dimensões mais universais. Alem disso, a experiência histórica quase sempre desmente a concepção providencialista, simplista, de Deus. Quase nunca o justo vence o ímpio com o auxilio de Deus. A relação com Deus é assimétrica. Não constitui, ou não se resume num "toma lá - da cá", como parece confortavelmente crer o israelita dessa segunda etapa. Para superar essa amarga constatação, ha Que se dar mais um passo e aprender a gratuidade na terceira etapa.
remanescentes entre nos: Também ainda percebemos muitos resquícios desta etapa na nossa vida espiritual e eclesial, e na nossa visão do mundo. Podemos encontra-los em:
- Cristãos mais ativos e conquistadores, que fazem do fundamentalismo e do proselitismo sua bandeira e sua forma de ser. A idéia de cruzada -fazendo do cristão o depositario de um desígnio de Deus a ser realizado na historia, eliminando tudo aquilo que faz oposição histórica a isso- não é alheia a essa concepção e pode iluminar o que acabamos de afirmar.
- A divisão do mundo em dois: bons versus maus; amigos versus inimigos, os que estão conosco versus os que não, os que são "dos nossos" versus os que "não o são", com desrespeito a pessoa e a liberdade.
- o uso do nome de Deus para fins puramente políticos e ideológicos, muitas vezes desumanos. o exemplo de terroristas que matam em nome de Ala é significativo. No entanto, não se pode esquecer que os governantes norte-americanos pedem que Deus (qual?) abençoe a América, mas mantêm guerras e vendem armas em varias partes do mundo.
- o fim, sendo bom, é justificado por qualquer meio, ate mesmo de coação e violência. o processo de colonização da América Latina, aliado a religião, tem algo a nos dizer sobre isto, assim como muitas outras manchas que prejudicam nossa historia, como a Inquisição, cujos erros foram recentemente reconhecidos pelo Papa João Paulo II.
- A redução do ser humano e do povo a mero instrumento do plano divino, sendo este colocado, quando não manipulado, nas mãos de alguns lideres. Na historia da Igreja, essa mentalidade justificou a escravização e a tortura em muitas épocas.
- Mais sutil ainda é um remanescente que coloca a justificação do resultado histórico pela moral (merecimento ou desmerecimento). Por exemplo: "Os ricos merecem sua riqueza" (Max Weber). "Que fiz eu para merecer esse castigo?" E também a teologia da prosperidade, tão atual, presente em muitas das seitas pentecostais novas que proliferam incessantemente pelo continente latino-americano.
4.3 Terceira etapa: o Deus transcendente e criador
Textos fundamentais: Is 40 (livro da consolação de Israel); Gn 6,1-8; 11-14; Is 66,23; Ez 21 ,8ss; Sl 1; 37,25, 58, 12ss; 44,14-23; 73,13-16; 17-20; Jó 4.12 ss; 9,22-23; 7,19-21; 38; 39,33-42,1 ss; Ecl 3,16-22.
Situação histórico-bíblica: Anos 550 a.C.: tempo do exílio e restauração (Esdras e Neemias), da redação da fonte sacerdotal (Gênesis, Êxodo, Numero, Levítico), dos profetas exilicos (Dêutero e Trito Isaias, Ezequiel) e dos sábios (Sapienciais, Salmos, Provérbios, Jó, Eclesiastes).
Idéia de Deus: Deus e o criador do céu e da terra. o povo deve fazer essa descoberta a partir da dura experiência do cativeiro. Israel no exílio geme: "Como é possível cantar ao Senhor em terra estrangeira?" E se pergunta: "Javé se teria deixado então vencer pe/os deuses locais? Teria se esquecido de sua aliança?"
O profeta Isaias responde a esse lamento do povo (Is 40,12-17), reavivando-Ihe a esperança: Deus é quem vai resgatar Israel. Deus, que é tão Deus na babilônia como em Jerusalém, e diante do qual os outros deuses nada são, e a verdadeira esperança do povo. O povo não espera em vão, seu Deus o consolara, pois ele criou o mundo do nada. Portanto, tem poder para isso e muito mais.
Deus e transcendente, afirmam os profetas do exílio. Esta acima de tudo e de todos. Não tem que lutar contra nada nem ninguém para provar seu poder, muito menos contra os deuses babilônicos. Todos os povos são, diante dele, nada e vaidade. Deus é único. os deuses dos outros povos não são nem sequer deuses menores. Não são nada. Quem os adora, adora o nada, comete idolatria. Javé nem sequer tem mais ciúmes, pois eles não existem (cf Is 40,18ss, que fala sobre a fragilidade de qualquer imagem).
Experiência de Deus: Se Deus é criador, o ser humano é criatura, pequena e contingente. É carne, objeto da ação criadora, que anseia por ver e verá a gloria de Javé (Is 40.5-8). Toda carne é como a erva, flor que murcha, frágil, incapaz de opor-se ao poder de Javé, que a criou ( Gn 6.11-14 // Gn 6,1-8). Por isso. Deus e o único poder diante do qual, nada resiste. o próprio da criatura (carne) é passar, ser contingente. Ser Incapaz de oporse àquele que a fez e que, portanto, pode amoldá-la como quiser. O próprio de Deus é sua palavra e a eterna permanência.
Esse Deus, portanto, ao se relacionar com o ser humano, mostra sua transcendência, muito alem de qualquer exigência da criatura. Vai manifesta-la por exigência universal. Antes, a exigência de Deus era só para Israel, o povo da aliança. Israel podia exigir de Deus, de acordo com o cumprimento da aliança. Na primeira etapa, Deus exigia as coisas necessárias para o ser humano aproximar-se dele. Agora, as exigências de Javé são de criador para criatura, para toda criatura, original e irrepetível, não mais apenas para o coletivo do povo (Is 66,23). Cada pessoa, portanto, é valorizada.
Atitude religiosa fundamental: A submissão a esse Deus é fundamental. Para o ser humano desta etapa, ou a criatura se submete ao seu criador ou será exterminada. A criatura nada pode exigir ou cobrar de Deus. Para fazer valer isso, Deus se apresenta universalmente como Deus. Deus é o criador de toda a criatura. Manifesta a criatura aquilo que ela é e, fazendo isso, manifesta também, transcendente e gloriosamente, aquilo que ele mesmo é: Deus criador.
Assim, Deus exerce sua justiça sem encontrar oposição. A santidade ou a boa conduta do ser humano não podem competir com sua ação livre e soberana. A criatura não tem justiça própria, diante da qual Deus tenha que deter sua mão. Deus é livre em sua soberana sabedoria e sua bondade para castigar o justo e oi pecador. o ser humano não pode exigir de Deus o cumprimento da aliança (Ez 21 ,8ss), porque ninguém pode se pretender justo diante de Deus. Não ha justo e pecador - existe apenas a criatura. Perceber isso é perceber, por um lado, a infinita santidade de Deus e, por outro, a indigência absoluta da criatura.
O ser humano diante de Javé tem sede e tem temor. Sede porque é pequeno, carente, e precisa de Javé para tudo (SI 63.2: 65,3). Tem temor e tremor porque necessita vital e fundamentalmente de Javé. Treme, porque ele é o transcendente, misterioso, glorioso. Ultrapassa seu entendimento e pode aniquilá-lo. Nesta época, já não se ousa, em Israel, pronunciar o nome de Javé. Substitui-se por Adonai (Senhor). Jura-se pelo templo, para não jurar por Deus. Fala-se em nomes do nome, para não falar diretamente de Deus.
Coloca-se também em questão o problema da a/ianca. Ela continua valida? Com o exílio e a restauração (a volta a terra e a reestruturação legislativa) os judeus perdem os sonhos de grandeza histórica e domínio guerreiro. A religião passa a ser mais uma moral, uma sabedoria, uma atitude do ser humano em vida. A principio, a aliança assume aspecto Individual, mas ainda dentro do mesmo esquema: a atitude moral do ser humano determina o acontecimento histórico (SI 1 .37.25: 58,12). Deus, por sua vez, garante a justiça sobre a terra, confirmando a conduta do justo. Depois, na literatura sapiencial, o ser humano bíblico vai perceber que não se pode afirmar isso com honestidade. Não se pode dizer que o justo ganha sempre, mesmo quando não trai a aliança (SI 44, 14-23: 73, 2-5; 13-16).
Enfatiza-se, então, a absoluta transcendência de Deus, para responder à angustia do ser humano que tem de acreditar nesse Deus, que é vida, mas não impede a desgraça, a morte e a infelicidade, mesmo daqueles que são justos e tementes a lei do Senhor. O ser humano desta etapa vai descobrir que Deus não esta ligado as atitudes humanas. Vai perceber que é preciso rever a segunda etapa e o conceito de aliança. No entanto, não ha ruptura total com a etapa anterior. Na tentativa desesperada de reconstruir a noção de aliança, aparece a noção do sono de Deus (SI 44,24-27). Deus parece dormir, mas despertará e fará justiça. Surge também a idéia do prazo. Deus demora. Mas virá e fará justiça (SI 73,17-20).
Já no livro de Jó, aparece claro que a relação moral-história não existe tão simetricamente como parece estar descrita nos escritos desta etapa. Deus tem desígnios sobre o ser humano, que só ele conhece, e que o ser humano não pode compreender nem alterar. Jó é justo e sofre. Busca desesperadamente um sentido para a sucessão de perdas em que se transformou sua vida. Seus amigos repetem-lhe a doutrina oficial que pretende unir a aliança com o Deus transcendente (Jó 4,12ss). Mas Jó não interrompe o dialogo com Deus, mesmo que às vezes se dirija a ele de forma violenta, agressiva, desesperada, chegando mesmo as fronteiras da blasfêmia.
Na verdade, não ha inocência de que o ser humano possa prevalecer-se diante de Deus. Na terceira etapa Deus a livre para fazer o que quiser do ser humano e da história, independente da conduta humana. Em Jó 9,22-23 está a grande descoberta de Israel, nesta etapa. Essa constatação obriga a buscar algo mais (Jó 7,19-21), para além do que pode ser percebido pelos sentidos humanos. Jó fala da morte como termo da vida, quando ha de executar-se a justiça. Ainda não aparece a esperança para depois da morte, nessa etapa. A justiça deveria estar dentro da vida, mas não chega (Ecl 3,16-22). Qual a solução?
Ela se encontra em Jó 38,1ss; 42,1 ss. Ora, Deus a absolutamente transcendente. O ser humana não pode pretender chegar ao conhecimento de seu mistério, nem encontrar um sentido 1ógico para sua vida. A providencia de Deus não se explica. o ser humano deve calar e adorar, botando a mão na boca. É o que Jó faz, no auge do desespero. Assim, o Deus de sua fé acaba respondendo-lhe misteriosamente.
Significado desta etapa: Ha uma grande evolução em relação às anteriores. A noção de Deus se purifica. Aparece pela primeira vez a concepção de Deus como uma providencia transcendental. E pode-se perceber uma noção de revelação progressiva de Deus em ritmo dialético. Se na primeira etapa ha um afastamento da concepção do Deus terrível, na segunda se percebe uma aproximação: o Deus da aliança é providencia, moral que interpela o coração humano. Já na terceira etapa ha um novo afastamento (pedagógico), a fim de chamar a atenção para o abismo intransponível entre o criador e a criatura, para obrigar a criatura a dar um passo mais na experiência religiosa e viver a gratuidade em sua relação com Deus.
Trata-se de uma religião muito pura. o ser humano adora o mistério de Deus, entrega-se gratuitamente a sua providencia. Por outro lado, Deus se relaciona universalmente com toda criatura, não mais só com o povo escolhido. A vocação de Israel estende-se ao Universo inteiro.
O primeiro capitulo do Gênesis - texto fundamental para a compreensão desta etapa da revelação divina - apresenta uma visão fundamental de Deus, do ser humano e do cosmos (mundo). Deus a o criador do Universo.
Só porque criou o Universo é que, dentro deste Universo, escolheu um povo. o suporte da aliança é, portanto, ontológico. Tem seu fundamento na criação do Universo. Não se restringe a um único povo particular. A eleição não significa monopólio do povo eleito. Os últimos profetas já mostram, então, a aliança abrindo-se para todos os povos, ligada a própria criação Js 54; 60; 62 e Tb. 19,16-25).
Quanto ao mundo, percebe-se nesta etapa uma unidade do plano de Deus, como será lembrado pelos escritores do Novo Testamento (Jo 1; CI 1,15-20; Ef 1,17-22). o ser humano recebe de Deus a missão de dominar o mundo. Ora, esse mundo é em si mesmo dessacralizado. Existe uma profanidade fundamental de tudo que não é Deus, portanto das coisas em geral. Ha porem uma ligação das coisas a Deus em sua raiz ontológica. o acabamento do mundo e deixado a cargo do ser humano para ele ai realizar a imagem de Deus, que é sua vocação.
Os elementos principais desta etapa são:
- Transcendência e universalidade de Deus.
- Esboço de afirmação da profanidade das coisas.
- Papel do ser humano no cosmos, cultual e histórico.
A revelação crista retém e desenvolve a teologia que vê o ser humano como criatura frágil e dependente, mas, ao mesmo tempo, como colaborador de um Deus "maior que o nosso próprio coração" (1 Jo 3,20), com um projeto de dimensões universais.
Limitações dessa etapa: Apesar de todos os avanços que traz para a concepção de Deus e a experiência religiosa, essa etapa apresenta tambem alguns limites bem claros e evidentes:
- Uma passividade excessiva, que pode levar o ser humano mais consciente a se libertar do religioso e par o melhor de si na missão histórica, na profanidade das coisas.
- Um individualismo que pode levar o ser humano a partir-se esquizofrenicamente em duas dimensões: vertical (religiosa) e horizontal (histórica).
Remanescentes entre nós: Como resquícios deixados por esta concepção, ainda em nossos dias, podemos constatar:
- Um tipo de espiritualidade que e bem evidente em nosso Cristianismo: espiritualidade calcada na fragilidade humana, estimulando uma passividade e mesmo um fatalismo.
- Uma desconfiança de todo empreendimento histórico humano que reivindica para si uma missão divina.
- Uma separação estanque entre o histórico (profano), regido pelas leis da técnica, previsível, sagrado (vertical), imprevisível, que exige confiança cega. Trata-se de um caminho perigoso, que pode desembocar no dualismo. Dentro desta concepção, a religião não tem nada a ver com as estruturas sociais, as leis econômicas etc. A vida moral se da somente no nível do privado, com os sacramentos, as devoções.
As conseqüências disso são:
- O risco de um protestantismo tradicional e um catolicismo que vêem, nas diferenças entre pobres e ricos, a vontade de Deus.
- O único mal verdadeiro seria o pecado moral, sem a devida percepção dos pecados sociais.
- Um reforço na piedade individual, em detrimento de uma liturgia e vida eclesial mais comunitárias.
- A vida cotidiana seria concebida como uma aceitação da vontade de Deus expressa em acontecimentos e sinais verti cais e inesperados, e alem disso, ambíguos.
4.4. Quarta etapa: O salto alem da morte - O desafio do Deus justo
Textos fundamentais: Sb 1,13-14; 12;15; 16; 2,1-11; 12-20; 3.1-5; 5,1-5;
6ss; SI 115,17; 88.
Situação historico-bíblica: Anos 177-175 a.C., com o domínio do imperador grego Alexandre o Grande. Trata-se da situação que Jesus irá encontrar. A religiosidade de Israel se depara-se com a cultura e a filosofia helênica. Esta síntese será o pano de fundo da transição do Antigo para o Novo testamento.
Idéia de Deus: Deus é o criador daquilo que é bom. A criação é boa (Sb 1,13-14). Deus não cria para a morte, mas para a vida. O mal é o ser humano que provoca, usando inadequadamente as coisas (Sb 1.12). o pecado é um extravio, amartia, engano.
Experiência de Deus: O ser humano vive numa alternativa de liberdade, na qual aposta sua vida:
1. Tem a possibilidade de escolher acreditar que a morte acaba com a existência. Nesse sentido, torna-se óbvio que, se tudo termina com a morte, o melhor a fazer é sorver e aproveitar todas as delicias da vida, seja a que preço for.
2. Tem a possibilidade (que desponta aí) de acreditar que a justiça sobreviva à morte. Esta é a esperança do justo (Jó). O justo espera que a justiça sobreviva à morte. O mal e o sofrimento são, por isso, uma prova. O ímpio continua pensando que a justiça esta submetida à morte. Quer gozar dos prazeres da vida. Usa para isso da forca e oprime o justo. A morte é o centro da aposta fundamental do ser humano.
O ímpio aposta que a morte é o fim de tudo, goza de tudo e oprime o justo Sb 2.1-11; 12-20). O justo reserva-se para uma existência que ha de vir.Isso, porem, é uma critica constante ao ímpio (Sb 1,15 = cerne da esperança do justo).
Atitude religiosa fundamental: Esperar a justiça na imortalidade. Crer que Deus faz justiça além do prazo da existência humana (Sb 3.1-5 . O mal presente é uma prova.
O resultado da aposta será que:
1. Os justos viverão eternamente com aquele que escolheram (Sb 5,1-5).
2. Os ímpios serão castigados pelo erro de sua aposta (Sb 5,6ss). No juízo, O ímpio obtém o que buscou, ou seja, o vazio daquilo que possuiu em vida e que a morte lhe arrebatou, enquanto o justo convive com seu Deus para além dos limites da existência terrena.
Significado desta etapa: Deus é o principio da justiça ultraterrena. O movimento dialético impõe uma nova aproximação de Deus e do ser humano, em termos de um pacto radical. Deus é justo e busca a justiça, exigindo uma santidade moral. O justo, que anda por este caminho, esta perto de Deus. Pela primeira vez é afirmado o triunfo da vida sobre a morte. A ânsia da vida em plenitude se realiza no relacionamento do ser humano com Deus.
A quarta etapa a purificação da segunda. Constitui uma aproximação radical de Deus, já inaugurada com a noção de aliança, conservando tudo que é descoberto na terceira etapa em termos da transcendência e da gratuidade de Deus, mas deixando claro que a aliança que Deus faz com a humanidade não conhece limites, nem mesmo na morte. O Deus justo é também o criador de todas as coisas. E ele cria o ser humano para a vida que não termina. Deus nesta etapa se aproxima cada vez mais da liberdade pessoal do ser humano enquanto centro vital. O mal não é mais um obstáculo insuperável. Deus, na sua justiça, mostra seu rosto mesmo além da morte.
Com estas etapas de sua revelação, Deus foi preparando e amadurecendo pedagogicamente o ser humano para receber o Cristianismo. Este último segmento é, de fato, o pano de fundo da pregação de Cristo e seus apóstolos.
Limitações desta etapa: São muito parecidas com as do Cristianismo vivido em nossas latitudes ainda hoje em dia:
- Uma atitude de passividade diante do provisório desta vida, vista como tempo de prova, esperando que o resto aconteça depois da morte.
- Uma concepção da vida como destino, mais fatalista do que crista.
Remanescentes entre nos: Existem, ainda, e são muito freqüentes:
- A existência presente é vista como provação. Tudo, menos os valores eternos, é provisório e de pouco valor.
- A liberdade humana não é criadora. A liberdade é risco no sentido negativo do termo. o ser humano pode errar definitivamente o caminho. Portanto, quanto menos liberdade tiver, melhor. Como exemplos, podemos citar a formação para o sacerdócio e a vida religiosa, e a formação da criança presa em padrões morais estritos.
- Ha uma inibição resignada do ser humano durante a vida. o ser humano religioso se torna vitima diante do ateu sem escrúpulos, especialista em êxitos.
5. RETOMADA E RELEITURA CRISTA DAS QUATRO ETAPAS
A concepção crista retém e transforma o que essas etapas trouxeram:
Primeira etapa: Deus, o absoluto, é amor. E esse absoluto não existe fora da historia. A encarnação do Filho de Deus demonstra isto.
Segunda etapa: O Deus da aliança é o Deus do Reino. Somos colaboradores de Deus num grande desígnio histórico. Somos o novo povo de Deus, o povo da nova e eterna aliança.
Terceira etapa: O plano de Deus é universal como o próprio Deus. Não é uma domesticidade, um domínio, um privilegio estreito de um só povo ou de um pequeno grupo de escolhidos, mas, sim, uma busca comum da verdade que transforma o mundo.
Quarta etapa: A ligação prova-liberdade é superada pela noção de liberdade-construção de um mundo novo. A justiça de Deus sobre o sofrimento do inocente encontra sua expressão definitiva na ressurreição, que vem a ser a palavra interpretativa do Pai ao confirmar o caminho de Jesus Cristo.
Vemos, assim -a partir desta ultima leitura sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento-, que já encontramos, ai, sinais do Deus que Jesus Cristo irá nos revelar em plenitude. Embora sabendo que o Antigo Testamento descobre e adora o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, cremos poder afirmar, sem medo, que esse Deus é justamente o Abbá de Jesus Cristo, o criador, o amor supremo de sua vida, que ele nos ensinou a chamar de Pai Nosso.
De qualquer forma, o rigor teológico nos obriga a não forçar os textos bíblicos, a não faze-los dizer "coisas bonitas", que nos agradam. Na verdade, essas conclusões comparativas entre o Antigo e o Novo Testamento não se encontram nem podem encontrar-se no contexto vital onde tais textos foram escritos. Muito menos na intencionalidade de seus autores, que pertencem a urna época e um contexto histórico -vital anterior aquele no qual nasceu Jesus de Nazaré, e no qual se conceberam os escritos do Novo Testamento.
6. DEUS NO NOVO TESTAMENTO: UMA ETAPA A MAIS OU A PLENITUDE DA REVELAÇAO?
Ao nos defrontarmos com a revelação de Deus no Novo Testamento, nos perguntamos: trata-se de uma etapa a mais ou da plenitude da revelação? Como cristãos, só podemos crer e proclamar a segunda hipótese.
A maior diferença entre Antigo Testamento e o Novo é a questão e a idéia da morte, o modo como dela se fala. No Novo Testamento, ha uma grande importância dada as mortes violentas e ao martírio (João Batista, Jesus, Estevão). No Antigo Testamento, por outro lado, as mortes dos patriarcas (Abraão, Moises) não são tão importantes ou paradigmáticas, a ponto de sequer se insistir em sua narração e proposição como referencia para a vida dos seres humanos. A vida do ser humano se da nos limites do terrestre e sua chance de imortalidade esta na prole, nos filhos, que vão continuar esta vida. Mais tarde, começa a surgir nos livros mais tardios do Antigo Testamento a concepção de uma justiça divina que sobrevive a morte[5].
A novidade de fundo, então, é a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a partir das quais a primeira comunidade reconheceu naquele homem, Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro, o Filho de Deus e Deus mesmo. Jesus Cristo, morrendo e ressuscitando, deu um novo sentido a morte e, conseqüentemente, à vida. Trata-se, porem, de um sentido que só Deus -Senhor da vida e da morta- poderia dar. Eis porque as testemunhas da primeira hora reconhecem que o que aconteceu com ele muda toda a historia da humanidade e da um novo horizonte a vida humana. Alem de acrescentar um traço novo e absolutamente original ao perfil do próprio Deus que eles ate então conheciam e adoravam.
Ora, para o judeu, aceitar Jesus Cristo implica negar o monoteísmo. E incompatível com a fé monoteísta, tal como o Judaísmo a concebe, existir um ser humano que faça as obras de Deus e, mais ainda, que seja de natureza divina. Porem, para nos cristãos, a pergunta e sua impostação são diferentes. Suposta a fé em Jesus Cristo, nos perguntamos: de que maneira a cristologia pode fornecer ou possibilitar uma experiência de Deus? O cristocentrismo do Novo Testamento implica uma redução da fé no Deus do Antigo Testamento? Ou, pelo contrario, é sua realização e radicalização? Olhar para Jesus Cristo distrai do olhar para Deus? Ou o focaliza ainda mais?
Diante destas perguntas, é precise olhar para a pessoa de Jesus de Nazaré e ver que ele não propõe uma doutrina organizada sobre Deus. Não demonstra Deus de forma sistemática. Diferentemente, o Filho procede como um profeta, tal como os outros profetas de Israel. Insere-se na tradição de seus ouvintes e age invocando e comprometendo o Deus de Israel em sua subversiva pratica. O escândalo no Novo Testamento sobre Jesus não é tanto o fato de que o mesmo se proclame Filho de Deus, ate porque, segundo as recentes descobertas da exegese e da ciência bíblica, parece ser pacifico que ele o faz bem raramente e os textos em que isso acontece tem boas chances de não poderem ser remontados direta ou proximamente ao Jesus histórico. No entanto, sua ação, respaldada por suas palavras, mostra um Deus diferente do Deus dos fariseus, dos escribas e dos saduceus. É essa diferença que foi reconhecida por seus contemporâneos em sua pessoa e foi, definitivamente, ligada a Deus.
Para o povo de Israel e dentro do conjunto de sua fé, Deus é conhecido e amado pelo papel que representa no mundo e nos negócios humanos. Esse papel revelado pelo Deus de Israel sempre foi libertador. Israel tinha plena convicção de que tinha sido o seu Deus que o havia libertado do cativeiro do Egito, lhe havia dado uma terra, que desejava sua vivencia plena da liberdade concedida como dom. Ora, se o que se dava diante de seus olhos e ouvidos era o fato de que o Deus proclamado pelos chefes religiosos não libertava, então este não era o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Era, sim, um ídolo mudo, falso e enganador.
Então, conclui-se que a originalidade de Jesus não é tanto definir Deus como Pai, mas invocar Deus como Pai num papel subversivo e libertador, e mais: fazer isso dizendo agir segundo o espírito de Deus. Na invocação que Jesus faz do Pai sobre a base de uma ação subversiva -e na submissão ao Espírito como fonte de energia transformadora que move a esta ação-, esta o germe de uma nova doutrina sobre Deus.
A relação disso com o Antigo Testamento torna este uma herança contraditória. Na relação da Igreja primitiva com o Antigo Testamento esta a preocupação de fazer a ligação da experiência de Deus do Antigo Testamento com a novidade radical trazida por Jesus. Isso da lugar a uma dupla interpretação.
Primeira hipótese: o Antigo Testamento seria uma constituição definitiva da doutrina sobre Deus, algo fechado. Jesus não acrescentaria nada ao Antigo Testamento, não revelaria outra coisa dentro do que já esta revelado nele. Faz sua, simplesmente, a doutrina do Antigo Testamento. Mas como entender a oposição e uma tensão entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus de Jesus? Ai esta a tradicional oposição entre um suposto Deus vingador e juiz do Antigo Testamento e o Deus amor do Novo Testamento, oposição esta que desorienta e leva nossos contemporâneos a tantos equívocos. Segundo esta hipótese, Jesus seria a vítima propiciatória que não inovaria nada, mas viria apenas restaurar e reconciliar.
O limite desta interpretação seria ler o Novo Testamento a partir do Antigo, ressaltando a dificuldade que a Igreja teria em assumir todas as implicações e novidades do agir de Jesus e a impossibilidade de entender a morte de Jesus como acesso positivo a Deus.
Segunda hipótese: O Antigo Testamento não seria a doutrina sobre Deus, mas a narrativa das suas ações em favor do povo. Por elas, Israel nomeia e invoca Deus, mas elas não o esgotam. Permanece a soberania e a liberdade de Deus. Entre as múltiplas descrições das ações de Deus, uma se impõe: a mais concreta, a mais humana, a mais integral, que é precisamente a própria pessoa e obra de Jesus.
Essa interpretação situa o Antigo Testamento como o relato de uma relação onde Deus e o ser humano são parceiros, relação essa transformada incessantemente por novas situações. Há uma descrição das constantes do comportamento de Deus e das respostas do povo. Há o relato de uma aventura amorosa -eleição de um povo, compromisso histórico- de Deus com o povo.
Jesus se inscreve nessa perspectiva, ao mesmo tempo fiel, inovador e original. Sendo assim, o Antigo Testamento não julga mais Jesus. Ele não pode ser inscrito num quadro de referencia preestabelecido, mas a ação de Jesus dá perspectiva para as ações precedentes, pois ele reúne ação e invocação. A ação de Deus não esta acabada, mas aberta sobre Jesus, o Espírito e o Reino.
Desta forma, não há mais oposição entre o Antigo Testamento e o Novo. Ambos fazem parte de um movimento único, cuja origem e fim nos escapam. Jesus se encontra ai, figura humana acessível e central, ao mesmo tempo que figura divina. Ele não é somente uma revelação a mais, mas o próprio Deus revelado.
Resumindo
Nosso Deus não é o Deus dos teísmos, nem o Deus geral que se apresenta como um ser transcendente sem rosto próprio. Mas é o Deus que se revelou ao povo de Israel, a primeira comunidade crista e a nós hoje.
O texto bíblico é a mediação primeira onde podemos encontrar Deus, pois o Deus Cristão é o Deus da Bíblia. A Bíblia é a terra natal do Deus da fé crista, que a teologia deve pensar sistematicamente, com a razão.
Sem racionalismos nem fundamentalismos, devemos, pois procurar os traços da revelação de Deus em primeiro lugar na Escritura, que é Palavra, Tradição e livro da Comunidade.
A Bíblia será, então, uma revelação progressiva do agir e do ser de Deus, que se apresenta com paradoxos radicais, ou seja, com atributos que parecem inconciliáveis, mas que na verdade vão compondo progressivamente uma síntese única, a qual vai fazer com que o povo de Deus o reconheça como único e não manipulável. Ainda mais importante: o reconheça como seu Deus, como o Deus que o escolhe e o converte de povo cativo e escravo em povo eleito, sendo que também Deus foi escolhido pelo povo.
No Antigo Testamento, não ha uma só teologia sobre Deus, mas muitas. O fio condutor entre todas elas, no entanto, é que Deus é um Deus pessoal e único, que propõe uma aliança de amor ao seu povo. Embora no Antigo Testamento não se possa identificar uma revelação trinitária de Deus, encontra-se, sim, uma pedagogia progressiva que vai fazendo o povo perceber cada vez mais elementos da identidade de seu Deus e preparar-se para receber sua revelação definitiva.
Para identificar estas etapas, poderíamos -recorrendo à tipologia do teólogo Juan Luis Segundo chamá-las de: 1) O Deus terrível; 2) O Deus da Aliança; 3) O Deus Transcendente e Criador; 4) O Deus justo para alem dos limites da vida e da morte.
O Novo Testamento não será uma etapa a mais, mas uma síntese de tudo isso, pois vai trazer no seu centro a pessoa de Jesus de Nazaré. Embora se inserindo na tradição do Antigo Testamento, Jesus revelará uma novidade radical a respeito de Deus.
[1] Catecismo da Igreja Católica n. 234.
[2] Para uma boa síntese das atuais patologias trinitárias, que concentram a fé em Deus em uma ou duas das pessoas divinas e não no mistério total do Deus Uno e Trino, ver: L Boff, A Trindade e a sociedade, Petrópolis, Vozes, 1987, pp. 26-28; F.A. Pastor, Semântica do mistério, São Paulo/Rio de Janeiro, Loyola/Puc-RJ, 1982, pp. 99.
[3] Sobre esses teoremas paradoxais do Deus da revelação, ver o excelente livro de F.A. Pastor, A lógica do inefável, São Paulo, Loyola, 1989.
[4] Cf U. Vazquez Moro, O mistério de Deus e os limites do conhecimento, em Cadernos Magis de fé e cultura n. 20.
[5] É o caso do Livro da Sabedoria, surgido já em plena influencia helenística, por nós anteriormente comentado, na quarta etapa da revelação de Deus no Antigo Testamento.
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